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Mostra de Tiradentes celebra cinema e debate futuro do setor

Publicado em

Reportagem:
Repórter: Paulo Andrade

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A 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes foi aberta nesta sexta-feira (23) em clima de celebração do cinema brasileiro, que vive um de seus momentos mais vibrantes. Realizadores, produtores, artistas, representantes do poder público e jornalistas se reuniram no Cine-Tenda para dar início a uma programação que alia exibição de filmes, reflexão crítica e articulação institucional, consolidando a mostra como um dos principais espaços de pensamento e ação do audiovisual no país.

Na cerimônia de abertura, a coordenadora-geral da Mostra, Raquel Hallak, reforçou o compromisso histórico do evento com a diversidade de vozes e linguagens. Segundo ela, o cinema brasileiro nasce de múltiplos Brasis e propõe diferentes formas de existir e narrar o país. Para Hallak, desde a sua origem, a mostra decidiu apostar nesses novos protagonismos e possibilidades, abrindo espaço para estéticas e discursos fora do eixo tradicional.

Além disso, a coordenadora defendeu a regulação das plataformas de streaming, a democratização das políticas públicas e o fortalecimento do cinema nacional como vetor econômico e cultural. O ponto alto da noite foi a homenagem à atriz e diretora Karine Teles, que recebeu o Troféu Barroco por uma trajetória de mais de duas décadas marcada por escolhas autorais, versatilidade artística e compromisso com a criação.

Emocionada e acompanhada da família, Karine falou com franqueza sobre os desafios de permanecer no campo cultural. Para ela, trabalhar com cultura, educação e arte no Brasil exige resistência constante. “São carreiras instáveis, imprevisíveis, numa montanha-russa frequente de emoções. Persistir, ficar, é muito difícil. Não é nada romântico, é muito duro”, afirmou, em um depoimento que ecoou entre os presentes.

A abertura contou ainda com a presença da ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, que destacou a dimensão política e simbólica do audiovisual. Segundo ela, o reconhecimento internacional recente do cinema brasileiro revela algo mais profundo: a capacidade do país de transformar memória, dor, alegria e luta em narrativa, projetando sua identidade no mundo.

Já a secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura, Joelma Gonzaga, abriu oficialmente o calendário audiovisual brasileiro celebrando o atual momento do setor. Vestindo uma camiseta do filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, indicado a quatro Oscars, ela destacou que o protagonismo internacional não ocorre por acaso. Para Joelma, quando um filme brasileiro entra em cartaz, o Brasil inteiro entra em cena, e isso é resultado direto de políticas públicas estruturadas.

No sábado (24), a programação avançou com o início do Fórum de Cinema de Tiradentes, que chega à sua quarta edição como espaço dedicado à reflexão sobre políticas culturais, indústria e democracia. A abertura reuniu representantes do governo e produtores, com a leitura da carta de princípios apresentada pela produtora Débora Ivanov. O documento convoca o setor a se mobilizar para defender as conquistas recentes e refletir sobre o futuro diante de desafios emergenciais.

A carta fez um balanço do processo de reconstrução do audiovisual, iniciado em 2023, destacando avanços como a restauração do Ministério da Cultura e da Secretaria do Audiovisual, a retomada do Fundo Setorial do Audiovisual, a reativação de programas de fomento, a renovação da Lei do Audiovisual e das cotas de tela, além da implantação da Política Nacional Aldir Blanc e da execução da Lei Paulo Gustavo em 97% dos municípios brasileiros. O texto também ressaltou a retomada da cooperação internacional e a realização da 4ª Conferência Nacional de Cultura.

Ao mesmo tempo, o Fórum apontou fragilidades estruturais e a necessidade de uma política sistêmica que articule União, estados e municípios, racionalize processos e amplie os impactos econômicos, culturais e sociais do setor. Entre os principais desafios estão a regulação dos serviços de streaming, a consolidação de uma política de Estado perene e a garantia de acesso do público brasileiro aos conteúdos nacionais em todas as telas.

A mensagem final do documento sintetiza o espírito do encontro ao afirmar que os desafios do audiovisual são, na prática, os desafios da própria nação brasileira na afirmação de um destino livre, democrático e soberano. A programação da Mostra segue nos próximos dias, reforçando Tiradentes como um dos principais termômetros do cinema brasileiro contemporâneo.

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