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Rede de saúde mental do DF amplia acesso com Caps abertos

Publicado em

Reportagem:
Jeferson Nunes

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Rede de saúde mental do DF funciona de portas abertas, mas ainda enfrenta desafios estruturais

Com atendimento gratuito e acesso direto, a Rede de Atenção Psicossocial do DF garante cuidado em saúde mental. O modelo é referência, mas a crescente demanda expõe limites estruturais que seguem fora do debate público.

Uma rede que vai além do atendimento clínico

A Rede de Atenção Psicossocial (Raps), mantida pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), organiza o cuidado em saúde mental no território. O sistema integra atenção básica, serviços especializados e atendimento hospitalar, buscando substituir o modelo centrado na internação prolongada.

Na prática, a Raps atua como política pública de contenção de danos sociais, ao oferecer acolhimento contínuo e comunitário a pessoas em sofrimento psíquico, antes que quadros se agravem e cheguem à emergência.

Caps: acesso direto e ruptura com a lógica hospitalocêntrica

Os 18 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) distribuídos pelo DF são o núcleo dessa estratégia. As unidades atendem pessoas com sofrimento mental grave e persistente, inclusive situações relacionadas ao uso de álcool e outras drogas.

Diferentemente do modelo tradicional, os Caps funcionam em regime de porta aberta, sem exigência de encaminhamento médico ou agendamento prévio. A proposta reduz barreiras de acesso e enfrenta um dos maiores obstáculos históricos da saúde mental: o atraso no início do cuidado.

“Problemas psíquicos podem atingir qualquer pessoa. Quanto mais cedo se busca ajuda, menores são os riscos de agravamento”, afirma Juliana Neves Batista, psicóloga e supervisora do Caps III de Samambaia.

Atenção básica como filtro e os Caps como cuidado intermediário

Segundo Juliana, as Unidades Básicas de Saúde (UBSs) seguem como porta de entrada preferencial para quadros leves, enquanto os Caps atendem casos de maior complexidade, posicionando-se entre a atenção primária e os serviços hospitalares.

“No Caps realizamos o acolhimento inicial, com escuta qualificada. A partir daí, avaliamos o melhor encaminhamento. Nem todo paciente permanece, e isso também faz parte do cuidado”, explica.

Esse modelo busca evitar internações desnecessárias e manter o usuário inserido em seu território social — um princípio central da política de desinstitucionalização adotada no Brasil desde os anos 2000.

Equipe multiprofissional e cuidado interdisciplinar

O atendimento nos Caps é realizado por equipes multiprofissionais, que podem incluir psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, enfermeiros, farmacêuticos, entre outros profissionais.

A lógica é tratar o sofrimento mental não apenas como condição clínica, mas como fenômeno atravessado por fatores sociais, econômicos e familiares.

Quando a rede chega antes da crise

A aposentada Marlene Luiza da Cunha, de 66 anos, é um exemplo de como o modelo pode funcionar quando a rede consegue agir a tempo. Após a morte do pai, do marido e da mãe em um curto intervalo, ela desenvolveu um quadro depressivo severo, agravado por problemas de saúde e isolamento social.

“Eu me fechei completamente. Tudo fora daquele pequeno mundo parecia agressivo”, relata.

A intervenção ocorreu após amigos acionarem o Caps III de Samambaia, que realizou visita domiciliar. “Eu não procurei o Caps. O Caps veio até mim”, conta.

Oficinas terapêuticas e reconstrução da autonomia

Mesmo sem disposição inicial, Marlene passou a participar das atividades oferecidas pela unidade, como terapia comunitária, hortoterapia, yoga, caminhadas, dança e oficinas manuais, sempre associadas ao acompanhamento clínico.

“Aos poucos, percebi que sentia falta das atividades. Minha autoestima voltou e minhas capacidades começaram a reaparecer”, afirma.

Hoje, ela avalia estar em processo avançado de recuperação e destaca a importância do suporte contínuo. “Existe uma Marlene antes e outra depois do Caps.”

Avanço reconhecido, desafios pouco discutidos

Apesar dos resultados positivos, especialistas apontam que o fortalecimento da Raps depende de expansão da cobertura, reforço de equipes e maior integração com outras políticas públicas, como assistência social e habitação.

O crescimento da demanda por saúde mental, intensificado no período pós-pandemia, pressiona um sistema que ainda opera com recursos limitados — um debate que raramente aparece nos balanços oficiais.

Política pública que exige vigilância permanente

A Raps consolidou um modelo reconhecido por priorizar o cuidado territorial e humanizado. No entanto, sua efetividade depende de financiamento estável, planejamento de longo prazo e monitoramento constante.

Mais do que uma rede de atendimento, trata-se de uma política que define quem recebe cuidado antes da crise — e quem fica à margem quando a estrutura não acompanha a realidade.

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