Haddad atribui raízes históricas à captura do Estado no Brasil
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou neste sábado (7), em São Paulo, que “a classe dominante brasileira entende o Estado como dela”. A declaração foi feita durante o lançamento do livro Capitalismo superindustrial, no Sesc 14 Bis, em conversa com o colunista Celso Rocha de Barros, sob mediação da historiadora Lilia Schwarcz.
A tese apresentada: Estado como “indenização” após 1888
No evento, Haddad disse defender a ideia de que o Estado teria sido “entregue aos fazendeiros” como forma de indenização depois da abolição da escravidão. Para contextualizar, ele mencionou o início do movimento republicano no dia seguinte à assinatura da Lei Áurea e a vitória republicana no ano seguinte, em sua leitura.
O ministro também associou esse arranjo histórico a uma democracia “problemática” e “frágil”, ao afirmar que, quando o status quo é contestado, haveria reação e risco de ruptura institucional.
O que o livro discute e por que isso importa agora
Capitalismo superindustrial reúne e revisa estudos produzidos por Haddad nas décadas de 1980 e 1990, com ampliação e atualização bibliográfica, segundo a apresentação editorial. A obra trata de economia política e discute, entre outros pontos, desigualdade, competição, “acumulação primitiva” na periferia do capitalismo, o conhecimento como fator de produção e novas configurações de classe.
No debate, Haddad afirmou esperar aumento da desigualdade e argumentou que, sem mitigação estatal, a dinâmica tende a se intensificar. No livro, ele também discute desafios associados à ascensão da China como potência global, no recorte apresentado no lançamento.
Do diagnóstico histórico ao debate institucional
Ao amarrar abolição, República e papel das Forças Armadas em sua interpretação, Haddad desloca a discussão do “erro do governo da vez” para a estrutura: quem controla o Estado, por quais mecanismos e com quais limites quando o sistema é pressionado. Esse tipo de leitura costuma produzir duas consequências práticas no debate público: de um lado, acirra disputas sobre memória e interpretação histórica; de outro, reposiciona políticas de redução de desigualdade como disputa de poder, não apenas de orçamento.

