Muito além do conteúdo curricular, a escola pública do Distrito Federal passa a assumir, de forma oficial, um papel ainda mais amplo na formação humana e cidadã. A assinatura de uma portaria conjunta entre a Secretaria de Educação do DF (SEEDF) e a Secretaria Extraordinária de Proteção Animal (Sepan-DF) instituiu o Projeto Pet ConVivência, reconhecendo e regulamentando a presença de animais nas unidades escolares como prática pedagógica segura, orientada e intencional.
O ato foi formalizado em evento realizado nesta terça-feira (20), que reuniu diretores de 58 escolas da rede pública que já convivem com pets em seu cotidiano. A iniciativa consolida uma realidade existente e dá a ela amparo institucional, critérios técnicos e objetivos educacionais claros.
Animais como ferramenta pedagógica e formativa
O Pet ConVivência propõe integrar animais comunitários à rotina escolar como estratégia para o desenvolvimento de empatia, responsabilidade, respeito à vida e convivência ética. A proposta ultrapassa o cuidado animal e se ancora na formação de competências socioemocionais, reforçando o papel da escola como espaço de transformação social.
Na prática, os estudantes deixam de ser apenas espectadores e passam a atuar como cuidadores ativos, compreendendo que o bem-estar do animal depende do coletivo. Esse vínculo fortalece o senso de pertencimento e contribui para um ambiente escolar mais humanizado, onde o cuidado com a vida se torna eixo central da formação cidadã.
Resultados já visíveis no cotidiano escolar
As experiências anteriores à regulamentação mostram impactos concretos. Na Escola Classe 10 do Gama, a cadela Milla, adotada pela comunidade escolar, tornou-se símbolo do projeto. Segundo a diretora Edna Silva, a convivência trouxe ganhos claros. “É um projeto que deu supercerto. A Milla foi um ganho muito grande, principalmente para alunos especiais. As crianças desenvolveram consciência de cuidado e responsabilidade”, afirmou.
Além disso, o projeto fortalece a educação inclusiva. Em diversas unidades, os pets atuam como reguladores emocionais, especialmente para estudantes com transtorno do espectro autista (TEA). O contato com os animais ajuda a reduzir a ansiedade e facilita a reorganização emocional em momentos de sobrecarga.
No Centro de Ensino Fundamental (CEF) 02 da Estrutural, a gata Melissa cumpre esse papel. “Quando o estudante se desregula, ele se aproxima da gata e vai se acalmando. Isso nos permite retomar o diálogo e a aprendizagem”, explica a diretora Juliana Gomes de Assunção.
Combate ao abandono e mudança cultural
Outro eixo central do projeto é o enfrentamento do abandono animal, problema estrutural no Distrito Federal. A escola passa a funcionar como espaço estratégico de sensibilização de estudantes, famílias e comunidades, contribuindo para romper o ciclo de descaso e invisibilidade.
O secretário de Proteção Animal, Cristiano Cunha, reforça o caráter coletivo da responsabilidade. “Cães e gatos foram parar nas ruas por ação ou omissão da própria sociedade. Envolver a escola é reconhecer que ela é um dos principais agentes transformadores da comunidade”, destacou.
O próprio CEF 02 da Estrutural é exemplo desse impacto. A implantação de um gatil estruturado transformou a relação da comunidade com os animais. “Antes, gatos eram jogados dentro da escola. Hoje, nossas crianças educam as famílias em casa sobre cuidado e respeito”, relata Juliana Gomes.
Recursos para garantir bem-estar dos animais
Para ampliar a adesão das escolas, a SEEDF anunciou medidas financeiras de apoio. Durante a oficialização da parceria, a secretária de Educação, Hélvia Paranaguá, informou que será proposta uma bonificação no PDAF (Programa de Descentralização Administrativa e Financeira) para as unidades participantes.
“Esse recurso extra vai apoiar o cuidado com os animais, como compra de ração e construção de estruturas adequadas”, explicou. Segundo a secretária, os pets simbolizam amor e acolhimento, valores que a escola deve refletir diariamente.
No fim das contas, o Pet ConVivência formaliza algo simples, mas poderoso: educar também é ensinar a cuidar. E isso começa, muitas vezes, com quatro patas circulando pelo pátio.

