Aos 23 anos, Rafaella Vieira resume a própria virada de vida sem rodeios: “Foi da água para o vinho”. Hoje, ela tem casa fixa, emprego formal, rotina de estudos e voltou a viver com a mãe e a filha de 8 anos. Até pouco tempo atrás, estava em situação de rua, sem vínculos familiares e enfrentando a dependência do álcool. A mudança começou com a entrada no RenovaDF, programa do Governo do Distrito Federal (GDF) criado em 2021 para qualificação profissional e reinserção no mercado de trabalho.
Desde abril de 2022, o programa passou a reservar 10% das vagas para pessoas em situação de rua. O resultado, segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Renda (Sedet-DF), é concreto: cerca de 2 mil pessoas já receberam capacitação gratuita, e 240 foram contratadas diretamente por intermédio da pasta. Hoje, elas atuam em obras, serviços gerais, limpeza, conservação e áreas administrativas do próprio GDF.
Rafaella é uma dessas histórias. Ainda durante o curso, foi contratada como copeira em um prédio do Departamento de Estradas de Rodagem do Distrito Federal (DER-DF). Com renda fixa e direitos trabalhistas garantidos, retomou os estudos na Escola Meninos e Meninas do Parque (EMMP), da Secretaria de Educação (SEEDF), e projeta concluir a educação básica ainda este ano. O plano seguinte é claro: prestar concurso público.
“Agora eu posso ajudar em casa, cuidar da minha filha e reconstruir minha família. São sonhos que antes eu nem conseguia imaginar”, relata. “O Renova me deu uma nova chance de recomeçar. Eu estou vencendo a cada dia.”
Trabalho como eixo para romper o ciclo da rua
Para o coordenador do Plano Distrital para a População em Situação de Rua, Gustavo Rocha, secretário-chefe da Casa Civil, a reserva de vagas no RenovaDF é apenas uma peça de uma política mais ampla. Segundo ele, o diagnóstico foi direto: sem trabalho, não há ruptura definitiva com a rua.
“O mapeamento mostrou o que faltava ser oferecido: moradia, local para pernoitar, qualificação profissional, escola para os filhos e até espaço para os animais de estimação. Sem trabalho, ninguém rompe o ciclo da rua”, afirma.
Essa lógica também orienta a expansão das contratações. Em 2024, o GDF determinou que empresas contratadas pelo governo reservem 2% das vagas para pessoas em situação de rua. Além disso, foram criados 15 cargos comissionados exclusivos para esse público. A obrigatoriedade passou a constar oficialmente nos editais após publicação no Diário Oficial do Distrito Federal (DODF), em fevereiro de 2025.
Da qualificação à contratação
O modelo do RenovaDF combina formação técnica e experiência prática. Os participantes recebem capacitação como auxiliares de manutenção, ao mesmo tempo em que atuam na reforma de equipamentos públicos. Também passam por orientações sobre ética, comportamento profissional e convivência no ambiente de trabalho.
Durante o curso, os alunos recebem bolsa equivalente a um salário mínimo, desde que cumpram ao menos 80% da carga horária, além de lanche diário, uniforme e equipamentos de proteção individual. Os 25% com melhor desempenho avançam para a chamada vivência profissional, realizada em grandes empresas do setor da construção civil, por meio de parceria com o Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-DF).
Segundo Ilton Teixeira, subsecretário de Atendimento ao Trabalhador e Empregador da Sedet, os números refletem mais do que estatística. “De 2022 para cá, 240 pessoas em situação de rua foram contratadas e hoje estão trabalhando, com dignidade e renda”, destaca.
A seleção ocorre em articulação com a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-DF). A triagem é feita nos Cras, Centros POP e Creas, que identificam os perfis e encaminham os nomes à Sedet-DF. A partir daí, as vagas são divulgadas conforme as exigências das empresas contratantes.
Política pública com efeito real
O RenovaDF integra um conjunto mais amplo de políticas voltadas à população em situação de rua, que inclui acolhimento institucional, alimentação gratuita em restaurantes comunitários, criação do Hotel Social, passagens interestaduais para reintegração familiar e ampliação do atendimento especializado.
Na prática, o programa mostra que qualificação aliada a oportunidade real de trabalho produz impacto direto. Não resolve tudo, mas muda destinos concretos. No caso de Rafaella, devolveu algo básico — e poderoso: perspectiva de futuro.

