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Caso Master expõe manobras bilionárias e lucros protegidos

Publicado em

Reportagem:
Repórter: Fabíola Fonseca

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Ações que disparam 700%, bilhões que mudam de mãos antes do tombo e fundos que entram e saem no momento exato. O caso envolvendo o Banco Master, a Ambipar e empresários do mercado financeiro revela como grandes fortunas podem ser infladas — e preservadas — sob o olhar atento, porém inconclusivo, dos órgãos de controle.

Entre junho e julho de 2024, fundos ligados ao Banco Master e ao empresário Nelson Tanure adquiriram cerca de 25 milhões de ações da Ambipar, empresa do setor ambiental e de energia limpa. O volume representava aproximadamente 15% do capital social da companhia e provocou uma valorização acelerada dos papéis na bolsa.

À época, a movimentação foi tratada como operação de mercado. Meses depois, porém, o desenho ficou mais claro. Parte dessas ações foi repassada a Tanure com deságio de 40% em relação ao preço de mercado, abrindo espaço para um ganho expressivo. Com o lucro, o empresário conseguiu comprar o controle da Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia), leiloada pelo governo de São Paulo por R$ 1 bilhão.

No fim de 2024, as ações da Ambipar eram negociadas a R$ 125, acumulando uma valorização de 700% no ano. Um desempenho que chamou a atenção da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Em julho de 2025, a área técnica da CVM concluiu que houve ação coordenada para inflar os papéis e determinou que a Ambipar realizasse uma oferta pública de aquisição (OPA) das ações remanescentes na B3. O colegiado do órgão, no entanto, dispensou a empresa da obrigação, ao considerar que não havia provas suficientes para caracterizar formalmente a coordenação.

A história, porém, não terminou aí. Outro procedimento segue em andamento para apurar possíveis irregularidades na valorização das ações e suspeitas de enriquecimento ilícito envolvendo Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master.

Antes da queda vertiginosa dos papéis, em dezembro de 2024, Quadrado conseguiu extrair R$ 1,2 bilhão da operação. Por meio do fundo Borgonha e de outros três fundos — Kyra, Touring e TT Investimentos —, ele adquiriu uma participação bilionária em uma empresa de turismo que hoje se chama BeFly.

A BeFly estava sob influência de executivos ligados ao Master desde 2021, quando passou por um processo de reestruturação. Inicialmente, um fundo vinculado ao banco adquiriu a empresa por valores simbólicos. Em abril de 2024, às vésperas das manobras com ações da Ambipar, o fundo TT, ligado a Quadrado, investiu R$ 1 bilhão na companhia. Outro fundo associado aportou mais R$ 202 milhões.

Um detalhe chama atenção: cerca de R$ 600 milhões desse montante não foram incorporados ao capital social da empresa. Entraram como reserva de capital, uma espécie de poupança que pode ser retirada pelos sócios a qualquer momento. No mercado financeiro, isso significa ganho protegido.

Quadrado é dono da corretora Trustee, alvo da Operação Carbono Oculto, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro oriundo do PCC no mercado financeiro. Ele deixou a sociedade com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em setembro de 2024, após as compras das ações da Ambipar por fundos administrados pela Trustee e pelo próprio banco.

Em nota, Quadrado afirmou que nunca adquiriu ações da Ambipar, alegando que a operação foi feita pelo Banco Master. Disse ainda que não é controlador da BeFly e que sua participação seria minoritária. Nelson Tanure, por meio de sua defesa, declarou que não integrou o procedimento da CVM e, por isso, não comentou o caso.

No papel, são versões. Na prática, o que se vê é um roteiro conhecido: o dinheiro entra rápido, sai no tempo certo e permanece a salvo — mesmo quando a investigação bate à porta.

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