Governo estuda usar FGTS para quitar débitos e ampliar crédito
O governo federal avalia permitir o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço para a quitação de dívidas, dentro de um novo pacote de crédito ainda em elaboração. A informação foi confirmada nesta terça-feira, 7 de abril de 2026, pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que afirmou que a hipótese está em análise e ainda depende de avaliação sobre sua viabilidade.
Segundo Durigan, a discussão ocorre em conjunto com o Ministério do Trabalho e Emprego, chefiado por Luiz Marinho, que mantém preocupação com possíveis impactos da medida sobre o fundo. A fala do ministro indica que não há decisão fechada sobre formato, alcance ou critérios de uso. Em outras palavras: a engrenagem está em movimento, mas a peça ainda não saiu da prancheta para o decreto.
O que o governo quer atacar com o novo pacote
A linha geral do pacote é reduzir o endividamento das famílias e ampliar o acesso ao crédito, sobretudo para pessoas de baixa renda, trabalhadores informais, microempreendedores individuais e pequenas empresas. O governo também discute a possibilidade de oferecer garantia da União para renegociação de dívidas, o que poderia destravar condições melhores de pagamento, inclusive com juros menores.
Outro ponto em estudo é o alcance da proposta para quem nem sequer está inadimplente, mas já convive com forte comprometimento da renda. Nesse desenho, o programa também poderia permitir a migração de dívidas caras para linhas mais baratas. A ideia sinaliza uma tentativa de atacar não apenas o atraso consolidado, mas o sufoco financeiro que antecede a inadimplência formal — aquela fase em que a conta ainda está paga, mas a renda já foi para a UTI.
FGTS vira peça sensível na negociação
O uso do FGTS como ferramenta para pagamento de dívidas é o ponto mais delicado do debate. O fundo tem destinações tradicionalmente vinculadas à proteção do trabalhador, como demissão sem justa causa, habitação e algumas hipóteses específicas previstas em lei. Por isso, qualquer ampliação de uso costuma acender alerta dentro do governo e no mercado sobre preservação de finalidade e impacto sobre o próprio fundo. A preocupação de Luiz Marinho, mencionada por Durigan, mostra que o embate não é apenas técnico, mas também político.
Pacote ainda não foi fechado
Apesar do avanço das conversas, o pacote ainda não está concluído. A expectativa informada pelo governo é anunciar medidas nos próximos dias, mas sem detalhamento definitivo. Isso significa que os eixos gerais já estão sendo expostos, enquanto o desenho jurídico e operacional segue em negociação. Até aqui, o que existe é intenção política em construção — e, em Brasília, a distância entre estudo e implementação nunca foi exatamente decorativa.
Cenário de endividamento ajuda a explicar a pressa
O debate ocorre em meio a um quadro ainda pressionado de endividamento. Em fevereiro de 2026, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da CNC, mostrou que o percentual de famílias com dívidas seguia em alta e poderia chegar a 80,4% em junho, enquanto a inadimplência projetada ficaria em torno de 28,9%. Já o Banco Central, em seu relatório de estabilidade financeira, registrou que o endividamento agregado das famílias, medido pela série 29037, estava em 48,32% em dezembro de 2024, em métrica distinta da usada pela CNC. Os dois indicadores não são equivalentes, mas ajudam a dimensionar o peso do tema na agenda econômica.
O que já se sabe até agora
Pelo que foi confirmado publicamente, o governo discute um programa de crédito mais simples do que iniciativas anteriores e mantém diálogo com bancos, fintechs e outras instituições financeiras para viabilizar o modelo. O uso do FGTS está entre as possibilidades, mas ainda sem definição oficial. O dado central, por enquanto, é este: a equipe econômica decidiu testar novas alavancas para enfrentar o endividamento, mas ainda não apresentou a versão final da conta.
Fontes e documentos:
– Governo avalia uso do FGTS para quitar dívidas, diz Durigan (Agência Brasil)
– Dario Durigan assume Ministério da Fazenda (Agência Brasil)
– Percentual de famílias com dívidas cresce, mas inadimplência cai (Agência Brasil)
– Relatório de Estabilidade Financeira – Abril 2025 (Banco Central do Brasil)

