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Do corte de árvores ao turismo sustentável

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Reportagem:
Repórter: Paulo Andrade

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Ele usa coroa feita de folhas de açaizeiro e tem nome de rei. Mas a nobreza de Charles, como é conhecido Gerson Tadeu Teles, não vem de castelos — vem da floresta amazônica e da transformação que fez de sua vida um exemplo de sustentabilidade.

Antigo derrubador de árvores, Charles aposentou a motosserra e se tornou símbolo do turismo sustentável na Ilha do Combu, em Belém (PA). À frente do Ygara Artesanal, ele recebe turistas em experiências de imersão na floresta, que incluem rituais ancestrais, trilhas ecológicas e banhos de cheiro com ervas medicinais.

“Cresci vendo o quanto a floresta nos dá e o quanto ela precisa ser respeitada. Quando comecei a receber visitantes, entendi que poderia gerar renda sem destruir, mostrando para as pessoas a riqueza da natureza”, conta o empreendedor.

O projeto, que recebe até 50 visitantes por semana, amplia o turismo de base comunitária e gera renda para famílias locais. Além das trilhas, o Ygara também comercializa artesanato e doces feitos com frutas nativas, impulsionando pequenos negócios e inspirando novos empreendedores do Combu.

“Hoje, tenho orgulho de mostrar onde vivo. O turismo sustentável me fez entender que cuidar da floresta é cuidar da nossa própria sobrevivência”, afirma Charles.

O Ygara Artesanal é gerido em parceria com agências de viagens, a Cooperativa de Transporte do Combu, o Sebrae e parceiros voltados a negócios sustentáveis.
Segundo Rubens Magno, diretor-superintendente do Sebrae Pará, experiências como a de Charles provam que a bioeconomia é um caminho real de desenvolvimento para a Amazônia.

“O Sebrae acredita que fortalecer empreendedores locais é essencial para que a região cresça com sustentabilidade e valorização cultural”, explica Magno. “Em 2019, havia um ou dois empreendedores formalizados. Hoje, já são quase 80 empreendedores formais.”

A expansão ganhou reforço com a Rota Combu, iniciativa do Sebrae, Embratur e moradores locais, lançada nesta semana. A proposta é valorizar a cultura ribeirinha, o ecoturismo e o empreendedorismo comunitário. O projeto começa com 14 empreendimentos — entre trilhas, hospedagens, quintais produtivos e vivências culturais.

Com a COP30 prevista para ocorrer em Belém, o tema da sustentabilidade ganhou ainda mais urgência. “Estamos incentivando os negócios a usar energias renováveis e materiais recicláveis. Menos plástico, mais vidro e papel. Essa consciência ecológica está crescendo”, afirma Magno.

Desafios persistem
Apesar do avanço do turismo, os investimentos sociais e de infraestrutura ainda não acompanharam o ritmo das iniciativas sustentáveis.
“Faltam políticas públicas para o povo da floresta”, lamenta Charles.

Ele relata que o saneamento básico precário e a falta de água potável são problemas diários. “Temos coleta de lixo, mas ainda é irregular. E precisamos comprar água mineral para tudo, o que é caro para a maioria das famílias”, diz.

Charles sonha com mudanças até a COP30, mas confessa incerteza: “Queria que isso mudasse até a conferência, mas a gente não sabe se vai realmente mudar.”

A história de Charles sintetiza um dos maiores desafios da Amazônia contemporânea — transformar o potencial econômico da floresta em prosperidade para quem vive nela. Entre o discurso global sobre sustentabilidade e as condições reais nas comunidades ribeirinhas, há um abismo que só será superado quando a preservação ambiental vier acompanhada de políticas públicas efetivas.

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