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Yanomami têm queda de mortes por malária e desnutrição

Publicado em

Reportagem:
Repórter: Jeferson Nunes

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Indicadores de saúde melhoram no território Yanomami, mas crise ainda impõe cautela

A resposta federal à emergência sanitária no território Yanomami começou a produzir melhora em indicadores centrais de saúde, sobretudo em malária, desnutrição infantil e vacinação. Dados oficiais de 2025 apontam queda de 80,8% nos óbitos por malária e de 53,2% nas mortes por desnutrição, na comparação com 2023, quando o Ministério da Saúde declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional por desassistência à população indígena.

O novo informe do Centro de Operações de Emergências Yanomami também registra aumento da cobertura assistencial, mais testagem para malária, expansão da vacinação e reforço da estrutura de atendimento. Os números sugerem avanço real da presença do Estado em uma área que chegou a simbolizar o colapso da atenção pública, em meio à crise humanitária e ao impacto do garimpo ilegal. Ainda assim, o próprio quadro revela que o desafio está longe de ser tratado como página virada.

Malária recua com mais exames e busca ativa

O eixo mais visível da melhora aparece na malária. O informe mostra que o total de testes subiu 72,6% entre 2023 e 2025, passando de 180.906 para 312.172, enquanto os exames por detecção ativa cresceram 75,9%, saindo de 144.896 para 254.830. No mesmo intervalo, os óbitos por malária caíram de 26 para 5, e os casos positivos recuaram de 32.265 para 27.887.

Esse conjunto indica uma mudança importante de lógica. Em vez de esperar o paciente chegar ao serviço, a estratégia passou a buscar casos nas comunidades, inclusive com rastreamento mais amplo. Em território remoto, com logística difícil e histórico de desassistência, isso não é detalhe operacional. É diferença entre reação tardia e resposta minimamente organizada.

Há, porém, um ponto que exige prudência técnica. O material oficial traz inconsistências numéricas: em uma parte, fala em redução de 80,8% dos óbitos por malária; em outra, registra 80,7%. Também aparece um número de testagem com provável erro de digitação, “2574.830”, que não bate com a série detalhada do próprio informe, onde o total correto parece ser 312.172 testes e 254.830 exames de detecção ativa. O avanço existe, mas a apresentação dos dados merecia revisão mais rigorosa.

Desnutrição infantil perde força, mas segue como alerta grave

Na frente nutricional, os dados também mostram melhora. O percentual de crianças menores de cinco anos com peso adequado para a idade subiu de 45,4% para 53,8%, enquanto o acompanhamento infantil avançou de 70,1% para 85,1%. Já o grupo de crianças com muito baixo peso caiu de 24,2% para 15,2%.

Os óbitos por desnutrição recuaram de 47, em 2023, para 22, em 2025. É uma queda relevante, sem dúvida. Mas o dado continua duro demais para permitir qualquer tom triunfalista. Quando uma crise exige esse tipo de comparação, o país não está comemorando eficiência; está tentando sair de um patamar de devastação que jamais deveria ter sido admitido.

Vacinação e atendimento respiratório cresceram com a presença estatal

Na imunização, o informe aponta aumento de 40% nas doses aplicadas entre 2023 e 2025, de 31.990 para 44.754. Entre crianças menores de um ano, o esquema vacinal completo foi de 27% para 60,6%. No grupo menor de cinco anos, o índice passou de 47,4% para 78,3%.

Também houve aumento de 254% nos atendimentos por infecções respiratórias agudas entre 2023 e 2025. Nesse período, a letalidade caiu 76% e o número de óbitos recuou 16,7%. O dado é relevante porque sugere maior capacidade de diagnóstico e resposta clínica, ainda que o volume de casos atendidos permaneça alto.

Mais profissionais, água, energia e estrutura em Surucucu

O governo informa que a força de trabalho em saúde no território passou de 690 para 2.130 profissionais desde o início da emergência. O informe também registra 261 ações em sistemas de abastecimento de água, instalação de 1.407 filtros, implantação de 61 sistemas fotovoltaicos e reforço de unidades de saúde.

Outro marco citado é o Centro de Referência em Saúde Indígena de Surucucu, entregue em setembro de 2025. Entre 6 de setembro e 31 de março de 2026, a unidade realizou 4.374 atendimentos ambulatoriais, 2.081 exames laboratoriais e 328 ultrassonografias, atendendo 48 comunidades e absorvendo a maior parte das remoções da região.

O que os números mostram além do boletim oficial

Os dados indicam melhora concreta na assistência, mas também expõem a profundidade do buraco que o Estado tenta tapar desde 2023. A emergência foi declarada em 20 de janeiro de 2023, e o governo federal editou, dias depois, medidas específicas para enfrentar a crise sanitária e combater o garimpo ilegal no território. O que se vê agora é uma recuperação parcial de indicadores que haviam despencado em um cenário de abandono, doença e pressão criminosa sobre a terra indígena.

Melhorar mortalidade, ampliar vacinação e recolocar equipes em campo importa muito. Mas a régua correta não é propaganda de gestão. A régua correta é outra: saber se essa presença estatal será estável, tecnicamente confiável e suficiente para impedir recaídas. Em crises prolongadas, o risco não é apenas morrer por malária ou desnutrição. É virar estatística de emergência permanente, sempre à espera de mais um informe para provar que o óbvio ainda precisa ser garantido.

Fontes e documentos:

Óbitos por malária na terra Yanomami caem 80% com ações do Ministério da Saúde (Ministério da Saúde)
– Retomada do cuidado SUS do lado do Povo Yanomami Informe 09 (Ministério da Saúde)
– Portaria GM MS nº 28 de 20 de janeiro de 2023 (Diário Oficial da União)
– Decreto nº 11.405 de 30 de janeiro de 2023 (Planalto)
– Ministério da Saúde declara emergência em saúde pública em território Yanomami (Ministério da Saúde)

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