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CNE encerra consulta sobre educação bilíngue de surdos

Publicado em

Reportagem:
Janaina Lemos

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Prazo terminou e texto final ainda depende de análise

A consulta pública sobre as Diretrizes Nacionais da Modalidade Escolar de Educação Bilíngue de Surdos terminou no sábado, 25 de julho. As contribuições recebidas poderão alterar a proposta destinada a orientar redes públicas e privadas de educação básica em todo o país.

Professores, gestores, pesquisadores, famílias, estudantes e representantes da sociedade civil puderam apresentar sugestões pela plataforma Brasil Participativo. Como o prazo já venceu, a consulta não deve mais ser divulgada como oportunidade aberta de participação.

Até a publicação desta matéria, não havia balanço oficial sobre a quantidade de contribuições recebidas nem cronograma indicando quando o texto definitivo será votado pelo Conselho Nacional de Educação.

Educação bilíngue de surdos já está prevista na LDB

A consulta não criou a modalidade escolar. A educação bilíngue de surdos foi incluída na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional em 2021, por meio da Lei nº 14.191.

A legislação define a Libras como primeira língua e o português escrito como segunda língua. A modalidade pode ser oferecida em escolas bilíngues de surdos, classes bilíngues, escolas comuns ou polos específicos.

O público abrangido inclui:

  • estudantes surdos;
  • estudantes surdocegos;
  • pessoas com deficiência auditiva que utilizam língua de sinais;
  • surdos com altas habilidades ou superdotação;
  • surdos com outras deficiências associadas.

A Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos, conhecida pela sigla PNEBS, foi instituída em julho de 2026. As diretrizes submetidas à consulta deverão detalhar como seus princípios serão aplicados pelas redes de ensino.

Libras deverá ocupar o centro da aprendizagem

A proposta estabelece que a Libras não seja tratada apenas como recurso auxiliar, tradução eventual ou instrumento de acessibilidade. Ela deverá funcionar como língua de instrução, comunicação, interação e produção de conhecimento no ambiente escolar.

O português deverá ser ensinado formalmente como segunda língua, na modalidade escrita. Essa organização diferencia a educação bilíngue de surdos de um atendimento escolar no qual o conteúdo continua sendo ministrado em português e apenas traduzido por um intérprete.

Entidades representativas da comunidade surda defendem que a aquisição precoce da Libras é indispensável ao desenvolvimento linguístico, acadêmico e social. A preocupação alcança especialmente crianças que vivem em famílias sem pessoas fluentes na língua de sinais.

Sem ambiente linguístico adequado, o estudante pode estar matriculado e fisicamente presente na escola, mas continuar afastado das explicações, das perguntas, das brincadeiras e da convivência entre colegas. Inclusão sem comunicação corre o risco de ser presença registrada na chamada e ausência mantida na aprendizagem.

Diretrizes alcançam currículo, profissionais e materiais

A minuta submetida à consulta organiza princípios teóricos, normativos e operacionais. Depois de aprovada, deverá orientar estados, municípios, Distrito Federal e instituições privadas na implantação e manutenção da modalidade.

Entre os principais pontos estão:

  • uso da Libras como primeira língua;
  • ensino do português escrito como segunda língua;
  • currículo adequado às características linguísticas dos estudantes;
  • formação inicial e continuada de professores bilíngues;
  • presença de profissionais fluentes em Libras;
  • produção de materiais didáticos específicos;
  • ambientes que permitam interação entre estudantes surdos;
  • fortalecimento de escolas, classes e polos bilíngues;
  • participação da comunidade surda no planejamento e na avaliação;
  • atendimento às necessidades próprias de estudantes surdocegos e com deficiências associadas.

O texto também procura estabelecer parâmetros para avaliação, gestão, acompanhamento pedagógico e articulação entre os diferentes sistemas de ensino.

Brasil tem mais de 61 mil matrículas

O Censo Escolar de 2024 registrou 61.623 matrículas do público da educação bilíngue de surdos na educação básica.

O número ajuda a dimensionar a demanda, mas não informa, sozinho, quantos estudantes recebem ensino efetivamente bilíngue. Matrícula em escola com algum recurso de acessibilidade não significa necessariamente acesso contínuo a currículo, professores e materiais em Libras.

O diagnóstico apresentado na implantação da política aponta lacunas estruturais:

IndicadorSituação informada
Redes com materiais pedagógicos adequados em Libras12%
Estudantes alcançados por provas em VideoLibras1,31%
Escolas com Salas de Recursos MultifuncionaisCerca de 51%
Professores com formação continuada na modalidade2.501
Matrículas do público-alvo61.623

Os percentuais de materiais, provas e salas de recursos fazem parte do diagnóstico divulgado para a política. Eles não devem ser apresentados como se todos tivessem sido extraídos diretamente do Censo Escolar.

Sala de recursos não substitui ambiente bilíngue

A presença de Salas de Recursos Multifuncionais em aproximadamente metade das escolas não resolve automaticamente a necessidade de educação bilíngue.

Esses espaços podem oferecer atendimento complementar e recursos de acessibilidade. A modalidade bilíngue, porém, exige que o estudante tenha acesso ao currículo e à convivência escolar em Libras durante sua formação, e não apenas em atividades realizadas em determinados horários.

O mesmo vale para a presença de intérpretes. A interpretação pode ser necessária em diferentes contextos, mas não substitui professores bilíngues, materiais próprios, currículo adequado e contato direto com outros usuários de Libras.

Experiências de atendimento público com mediação em Libras ampliam a acessibilidade em serviços específicos. Na escola, entretanto, a língua precisa sustentar todo o processo de aprendizagem e socialização.

Formação de professores permanece como obstáculo

O diagnóstico identifica apenas 2.501 professores com formação continuada em educação bilíngue de surdos.

Esse dado revela uma limitação nacional, mas não permite calcular diretamente quantos profissionais faltam. A necessidade varia conforme distribuição das matrículas, etapas escolares, disciplinas, organização das redes e grau de fluência dos docentes.

A execução dependerá da expansão de licenciaturas, cursos de pedagogia bilíngue, formação continuada e parcerias com universidades e instituições especializadas. Também será necessário definir critérios que não confundam certificado de curso introdutório com capacidade para ensinar conteúdos complexos em Libras.

Formação pontual pode apresentar a língua ao profissional. Fluência e competência pedagógica exigem percurso mais longo — língua nenhuma vira ferramenta de ensino por decreto e algumas horas de apostila.

Aprovação não criará estrutura automaticamente

As diretrizes poderão estabelecer obrigações e referências nacionais, mas sua publicação não abrirá imediatamente escolas, classes ou vagas em todas as redes.

A implementação dependerá de:

  • planejamento dos sistemas de ensino;
  • contratação e formação de profissionais;
  • adaptação de currículos;
  • produção de materiais;
  • infraestrutura escolar;
  • transporte acessível;
  • participação das famílias;
  • financiamento público;
  • mecanismos de avaliação e fiscalização.

Também será necessário preservar a participação da comunidade surda depois da consulta. Escuta pública limitada à elaboração da norma pode produzir um texto participativo seguido de execução fechada.

Próxima etapa deve transformar direitos em capacidade pública

O Conselho Nacional de Educação deverá examinar as contribuições e concluir a proposta. O texto ainda precisará percorrer as etapas de aprovação e publicação antes de adquirir caráter definitivo.

O ponto central não está apenas na redação da norma. A Libras já é reconhecida legalmente, e a educação bilíngue já integra a LDB. A distância permanece entre o direito formal e a capacidade cotidiana das escolas.

Materiais disponíveis em apenas 12% das redes, alcance reduzido das avaliações em Libras e poucos professores com formação específica mostram que a barreira não se resume à ausência de diretriz. Ela envolve estrutura, orçamento e pessoal.

A consulta terminou. O controle social, não. Quando o texto final for publicado, caberá verificar se as contribuições foram incorporadas, quais obrigações foram definidas e como cada rede transformará a norma em aprendizagem acessível.

Relacionadas, fontes e documentos:

– Prouni soma 529 mil inscrições no segundo semestre (Fonte em Foco)
– Fies encerra inscrições para 75,5 mil vagas nesta sexta (Fonte em Foco)
– Lei torna educação política obrigatória nas escolas (Fonte em Foco)
– Inscrição para vestibular do ITA termina domingo (Fonte em Foco)
– Inscrição da PND 2026 termina nesta sexta-feira (Fonte em Foco)
– Consulta sobre educação bilíngue de surdos termina em 25 de julho (Ministério da Educação)
– Consulta pública sobre educação bilíngue de surdos acaba sábado (Agência Brasil)

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