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Disputa pelo Governo do DF chega na reta final

Publicado em

Reportagem:
Marta Borges

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Quaest e Igape mostram retratos diferentes da mesma disputa

A corrida pelo Governo do Distrito Federal entra nos últimos dez dias antes do primeiro turno com Celina Leão (PP) numericamente à frente nas duas pesquisas públicas mais recentes, enquanto os levantamentos divergem sobre a ordem entre Leandro Grass (PT) e José Roberto Arruda (PSD). Os números ajudam a enxergar como o eleitorado respondeu durante cada período de coleta, mas não antecipam o resultado das urnas.

Na pesquisa Quaest divulgada em 23 de setembro, Celina aparece com 33% das intenções de voto no cenário estimulado, seguida por Grass, com 21%, Arruda, com 17%, e Paula Belmonte (PSDB), com 5%. Kiko Caputo (Novo) registra 3%, Ricardo Cappelli (PSB), 2%, e Professora Samara Mineiro (UP), 1%. Outros candidatos não pontuaram. Brancos, nulos ou entrevistados que disseram não votar representam 8%, e 12% estavam indecisos.

O levantamento ouviu presencialmente 1.104 eleitores de 16 anos ou mais entre 19 e 22 de setembro e tem margem de erro de três pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa foi encomendada pela Globo e registrada na Justiça Eleitoral sob o número DF-02596/2026.

Três dias antes, o Igape havia divulgado um cenário com percentuais diferentes. Celina registrava 41,5%, Arruda, 16,3%, Grass, 15,8%, e Paula, 5,4%. Depois apareciam Cappelli, com 3,9%, e Kiko Caputo, com 2,9%. A diferença de apenas meio ponto entre Arruda e Grass é inferior à margem de erro de 2,2 pontos percentuais do levantamento.

O Igape entrevistou 2 mil eleitores entre 15 e 19 de setembro, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi registrado sob o número DF-09868/2026. O intervalo de coleta terminou três dias antes de começar o trabalho de campo da Quaest mais recente, o que também precisa ser considerado ao colocar os dois resultados lado a lado.

Gráfico comparativo ultimas pesquisas
Crédito da imagem: Arte Fonte em Foco

Por que 33% em uma pesquisa e 41,5% em outra não significam uma queda

Comparar pesquisas de institutos diferentes exige um cuidado que faz toda a diferença: os 33% de Celina na Quaest não podem ser tratados como uma queda em relação aos 41,5% registrados pelo Igape. Os levantamentos foram realizados por empresas diferentes, com amostras, períodos de campo e procedimentos metodológicos próprios.

A mesma cautela vale para Grass e Arruda. No Igape, Arruda registra 16,3% e Grass, 15,8%. Na Quaest, Grass aparece com 21% e Arruda, com 17%. O que se pode afirmar é que os dois institutos encontraram Celina numericamente acima dos demais nomes testados e apresentaram resultados distintos na relação entre Grass e Arruda. Transformar essa diferença em uma trajetória única misturaria medições que não foram produzidas da mesma maneira.

Paula é quem apresenta percentuais numericamente mais próximos nos dois levantamentos: 5,4% no Igape e 5% na Quaest. Mesmo essa proximidade não significa que as duas pesquisas tenham medido exatamente o mesmo eleitorado, porque toda pesquisa amostral trabalha com uma parcela da população e uma faixa de incerteza estatística.

Três rodadas da Quaest mostram melhor a evolução

Para acompanhar movimento ao longo do tempo, uma comparação entre rodadas sucessivas do mesmo instituto é mais consistente do que misturar pesquisas de empresas diferentes. Nas três últimas pesquisas Quaest, realizadas com 1.104 eleitores em cada rodada e margem de erro de três pontos percentuais, Celina passou de 34% em agosto para 35% no início de setembro e 33% na rodada mais recente.

Gráfico evolução das 03 últimas pesquisas - Eleições 2026 DF
Crédito da imagem: Arte Fonte em Foco

Celina percorreu uma faixa estreita nas três medições: 34%, 35% e 33%. Como a margem de erro é de três pontos para mais ou para menos, a sequência, isoladamente, não sustenta uma conclusão de crescimento ou queda estatisticamente comprovada. O que os dados permitem observar é que seu percentual nominal permaneceu relativamente próximo nas três rodadas.

Com Grass, a sequência nominal é diferente: 13% em 25 de agosto, 17% em 8 de setembro e 21% em 23 de setembro. Entre a primeira e a terceira pesquisa, o percentual atribuído a Grass aumentou oito pontos, enquanto as diferenças entre cada rodada precisam continuar sendo lidas à luz da margem de erro.

Arruda aparece com 20%, 18% e 17% nas mesmas três rodadas. A distância nominal entre Grass e Arruda mudou de forma clara dentro da série da Quaest: em agosto, Arruda tinha sete pontos a mais; em 8 de setembro, a diferença caiu para um ponto; na pesquisa de 23 de setembro, Grass aparece quatro pontos acima.

Paula passou de 3% para 4% e depois 5%. A sequência é numericamente ascendente, mas as variações entre uma rodada e outra são menores que a margem de erro de três pontos percentuais. Por isso, os números descrevem a série observada, mas não permitem afirmar isoladamente uma tendência estatística consolidada.

Decisão do TSE muda o contexto depois das pesquisas

Há uma mudança decisiva entre a fotografia das pesquisas e o cenário jurídico desta quinta-feira (24): o TSE manteve o indeferimento do registro da candidatura de José Roberto Arruda ao Governo do DF. O julgamento ocorreu depois dos trabalhos de campo das duas pesquisas mais recentes e também depois da divulgação da Quaest de quarta-feira.

O recurso julgado pelo TSE contestava decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal que havia indeferido o registro de Arruda. Até o julgamento do recurso, sua situação permitia que aparecesse nas pesquisas e fosse tratado dentro de um cenário eleitoral ainda sujeito à decisão da instância superior. Os 17% registrados pela Quaest e os 16,3% do Igape, portanto, são dados reais das pesquisas, mas foram coletados antes da decisão desta quinta-feira.

Isso também explica por que a Quaest divulgada na quarta-feira apresentou dois cenários. No primeiro, com Arruda entre os nomes oferecidos aos entrevistados, Celina tinha 33%, Grass, 21%, Arruda, 17%, e Paula, 5%. No cenário sem Arruda e outros registros então indeferidos, Celina registrava 34%, Grass, 23%, e Paula, 7%.

O cenário sem Arruda não deve ser tratado como uma previsão automática do que acontecerá depois da decisão do TSE. Ele informa apenas como aquela amostra respondeu quando recebeu uma lista diferente de nomes. Mudanças na campanha, decisões judiciais, posicionamentos políticos e escolhas dos próprios eleitores podem produzir outra distribuição até o dia da votação.

Pesquisa eleitoral não é resultado antecipado

Pesquisa eleitoral é uma medição amostral da intenção declarada pelos entrevistados em determinado período, dentro de uma metodologia e de uma margem de erro. A Justiça Eleitoral exige que levantamentos destinados à divulgação pública sejam registrados e que informações como período de coleta, metodologia, plano amostral, nível de confiança e margem de erro sejam apresentadas.

O registro, porém, não significa que o TSE tenha realizado a pesquisa ou certificado que aqueles percentuais serão reproduzidos nas urnas. A Justiça Eleitoral disciplina o registro e a transparência dos levantamentos; quem coleta e calcula os resultados são os institutos responsáveis.

Essa diferença parece técnica, mas é simples na prática. Se uma pesquisa encontra 33% para um candidato, ela está informando o resultado obtido naquela amostra segundo aquele método. Não está dizendo que o candidato receberá 33% dos votos no dia da eleição.

Indecisos ainda fazem parte da fotografia

A Quaest mais recente registra 12% de indecisos e outros 8% que disseram votar branco, nulo ou não votar. Esses grupos fazem parte da fotografia eleitoral captada entre 19 e 22 de setembro e ajudam a entender por que não é correto transformar os percentuais dos candidatos em resultado final antecipado.

No Igape, 8,2% dos entrevistados não souberam ou não responderam em quem votariam para governador. As categorias utilizadas pelos dois institutos não são idênticas, o que é mais um motivo para evitar comparações mecânicas entre seus percentuais.

O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, das 8h às 17h, pelo horário de Brasília. Eventual segundo turno para governador ocorrerá em 25 de outubro. Entre a última entrevista da Quaest e a abertura das urnas haverá 12 dias — tempo curto no calendário, mas ainda capaz de comportar acontecimentos políticos e mudanças individuais de voto.

O que a pesquisa mais recente revela nesta reta final

A Quaest de 23 de setembro ganha relevância política porque foi realizada perto da votação e permite comparar três rodadas consecutivas produzidas pelo mesmo instituto. Isso oferece uma leitura mais consistente da evolução nominal das respostas do que uma comparação direta entre empresas com metodologias próprias.

Dentro dessa série, três movimentos são observáveis. Celina permanece em uma faixa próxima nas três rodadas, com 34%, 35% e 33%. Grass passa de 13% para 17% e chega a 21%. Arruda registra 20%, 18% e 17%. O dado politicamente relevante não é escolher um “vencedor” da pesquisa, mas perceber que a relação numérica entre os nomes mudou ao longo das três fotografias.

Há, porém, uma ruptura entre a última pesquisa e o momento atual. O julgamento do recurso de Arruda ocorreu nesta quinta-feira, depois da coleta. Isso significa que a pesquisa mais recente descreve uma configuração eleitoral que sofreu uma alteração jurídica relevante menos de 24 horas depois de ser divulgada.

Para Grass, Paula e os demais nomes, o levantamento oferece uma referência sobre como o eleitorado pesquisado respondeu antes dessa decisão. Para Celina, mostra mais uma rodada em uma faixa nominal próxima das anteriores. O que não existe nos dados disponíveis é base para afirmar antecipadamente como os eleitores que indicaram Arruda responderão à nova configuração da disputa.

É aí que a proximidade da eleição aumenta o interesse dos números sem aumentar o poder preditivo deles. Pesquisas mais próximas das urnas captam uma opinião mais recente, mas continuam sujeitas à amostragem, à margem de erro e a acontecimentos posteriores à coleta.

No dia 4 de outubro, a pergunta deixa de ser “em quem você votaria?” e passa a ser respondida individualmente por cada eleitor na urna. Até lá, pesquisas servem para compreender o estado da disputa no momento em que foram feitas — não para substituir o resultado da eleição.

Fontes e Documentos:

 

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