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Cuidado é assunto de Estado

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Reportagem:
Paulo Andrade

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Guia mostra caminhos para quem cuida acessar políticas públicas

O trabalho de cuidado, por muito tempo tratado como obrigação invisível dentro das famílias, passou a ocupar o centro de uma discussão pública no Brasil. Um guia lançado na sexta-feira (25) reúne orientações para que pessoas que cuidam — de crianças, idosos, pessoas com deficiência, familiares, vizinhos ou comunidades — entendam seus direitos e saibam como acessar políticas públicas.

A publicação organiza informações práticas para públicos que costumam enfrentar barreiras no atendimento do Estado. O material explica passos como documentação necessária, acesso a plataformas digitais do governo e caminhos para buscar políticas voltadas a crianças e adolescentes, pessoas idosas, pessoas com deficiência e trabalhadoras e trabalhadores do cuidado remunerado e não remunerado.

O ponto central do guia é simples: quem cuida também precisa ser cuidado. No Brasil, grande parte desse trabalho recai sobre mulheres, especialmente negras, periféricas e de baixa renda, muitas vezes sem remuneração, proteção social ou reconhecimento institucional suficiente.

Quem são as pessoas que exercem o cuidado

O cuidado remunerado aparece em profissões essenciais ao funcionamento cotidiano da sociedade. Entram nesse grupo trabalhadoras domésticas, babás, cuidadores de idosos, cuidadores de pessoas acamadas, educadores sociais e profissionais que sustentam rotinas de alimentação, higiene, acompanhamento, proteção e convivência.

O cuidado não remunerado costuma acontecer dentro de casa e das comunidades. Mães, filhas, avós, companheiras, vizinhas e lideranças comunitárias assumem tarefas permanentes de suporte a outras pessoas sem receber salário por isso, ainda que esse trabalho permita que crianças estudem, adultos trabalhem e idosos ou pessoas com deficiência tenham apoio diário.

Essa divisão desigual tem efeito direto na autonomia das mulheres. Quando uma mulher dedica muitas horas da semana a cuidar de outras pessoas sem apoio, sobra menos tempo para estudar, trabalhar, descansar, participar da vida pública ou construir independência econômica.

Mulheres carregam a maior parte da carga

Dados recentes reforçam que o cuidado ainda é distribuído de forma desigual entre homens e mulheres. No Brasil, mulheres dedicam 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e cuidado de pessoas, enquanto homens dedicam 11,7 horas; para mulheres pretas e pardas, a carga fica acima da média das mulheres brancas.

Essa diferença de quase dez horas semanais não é um detalhe doméstico. É tempo que deixa de ir para qualificação, renda, descanso, participação política e projetos pessoais. Quando essa sobrecarga se repete todos os dias, ela vira uma engrenagem silenciosa de desigualdade.

A discussão sobre cuidado, portanto, também é uma discussão sobre democracia. Se parte da população vive ocupada demais para estudar, trabalhar fora, participar de decisões ou buscar seus direitos, a sociedade perde voz, trabalho, renda e representação.

Política Nacional de Cuidados criou marco legal recente

O Brasil passou a ter uma Política Nacional de Cuidados com a Lei nº 15.069, sancionada em dezembro de 2024. A lei reconhece o cuidado como direito e prevê ações para pessoas que precisam de cuidado e para trabalhadoras e trabalhadores remunerados e não remunerados dessa área.

A política estabelece que o Estado deve atuar de forma gradual e progressiva por meio de um Plano Nacional de Cuidados. O governo federal define o direito ao cuidado como o direito de cuidar, ser cuidado e praticar o autocuidado, articulando União, estados, Distrito Federal, municípios, sociedade civil, setor privado e organismos internacionais.

Entre os objetivos estão ampliar serviços, reduzir a sobrecarga familiar e promover trabalho decente para quem cuida. A política prevê formação, qualificação, proteção social, direitos trabalhistas, apoio a cuidadores não remunerados e medidas para dividir melhor a responsabilidade entre Estado, famílias, comunidade, setor privado e sociedade.

Plano prevê creches, centros-dia e apoio às famílias

A implementação depende de serviços que cheguem ao território onde as famílias vivem. O Plano Nacional de Cuidados prevê medidas como ampliação de creches, atendimento domiciliar, centros-dia para pessoas idosas e pessoas com deficiência, lavanderias públicas e cozinhas comunitárias.

Esses serviços reduzem a sobrecarga porque transformam uma tarefa solitária em responsabilidade compartilhada. Uma vaga em creche, um centro-dia ou apoio domiciliar não resolve apenas uma demanda individual; pode liberar tempo para trabalho remunerado, estudo, descanso e participação social.

O desafio é fazer a política sair do papel com orçamento, coordenação e presença local. A lei prevê articulação entre União, estados, Distrito Federal e municípios, além de planos estaduais, distrital e municipais de cuidados, justamente porque o cuidado acontece no bairro, na casa, na escola, no posto de saúde e no serviço de assistência.

Guia também olha para grupos em maior vulnerabilidade

O material lançado dá atenção a públicos que enfrentam camadas adicionais de desigualdade. Entre eles estão mães solo, mulheres chefes de família, famílias em extrema pobreza, pessoas privadas de liberdade e seus familiares, parentes de vítimas de feminicídio, populações indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e imigrantes.

Esse recorte importa porque o cuidado não pesa da mesma forma para todas as pessoas. Uma mulher com renda estável, rede familiar e acesso a serviços públicos vive uma realidade diferente daquela enfrentada por uma mãe solo periférica, uma avó responsável por netos ou uma cuidadora sem vínculo formal de trabalho.

Política pública de cuidado precisa enxergar essas diferenças para não tratar desigualdades profundas como se fossem apenas escolhas familiares. Quando o Estado reconhece quem cuida e quem precisa de cuidado, ele também passa a enxergar onde a ausência de apoio produz pobreza, adoecimento e isolamento.

Trabalho doméstico e cuidado remunerado exigem proteção

Quem exerce cuidado como profissão também precisa de direitos, formação e proteção social. A Política Nacional de Cuidados inclui a promoção do trabalho decente para trabalhadoras e trabalhadores remunerados do cuidado, com garantia de direitos trabalhistas, proteção social e enfrentamento da precarização.

Esse ponto é decisivo para trabalhadoras domésticas, babás e cuidadoras. São funções muitas vezes marcadas por informalidade, baixos salários, jornadas longas e pouca valorização, apesar de sustentarem a rotina de milhares de famílias.

Valorizar o cuidado significa reconhecer que ele não é favor, dom natural ou tarefa menor. É trabalho essencial para a vida, para a economia e para o funcionamento da sociedade.

O que o guia revela sobre o cuidado no país

O lançamento do guia mostra que o Brasil começou a transformar o cuidado em assunto de Estado. O tema saiu da esfera exclusivamente doméstica e passou a ser tratado como direito, política pública e condição para reduzir desigualdades de gênero, raça, renda, idade, deficiência e território.

A mudança mais importante é de perspectiva. Durante muito tempo, a pergunta feita às mulheres foi como elas davam conta de tudo; agora, a pergunta pública precisa ser por que elas foram deixadas para dar conta quase sozinhas.

Cuidar de quem cuida não é gesto simbólico. É garantir tempo, renda, proteção, serviços públicos e reconhecimento para pessoas que sustentam a vida cotidiana do país — muitas vezes sem descanso, sem salário e sem que a sociedade perceba o tamanho desse trabalho.

Fontes e Documentos:

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