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Iury Eminergídio transforma trajetória em marco acadêmico na UnB

Publicado em

Reportagem:
Janaina Lemos

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Iury Moraes Eminergídio concluiu mestrado profissional em Educação com pesquisa produzida inicialmente em Libras e voltada à formação de professores e à acessibilidade

Primeiro mestre surdocego da UnB transforma própria trajetória em pesquisa sobre inclusão

Iury Moraes Eminergídio tornou-se o primeiro estudante surdocego a concluir um mestrado na Universidade de Brasília. O marco acadêmico ocorreu em setembro, dez anos depois de ele iniciar na própria UnB uma trajetória que passou pela graduação e chegou à pesquisa sobre educação, acessibilidade e formação de professores.

No mestrado profissional em Educação da Faculdade de Educação, Iury escolheu colocar a própria experiência no centro da investigação. A dissertação, intitulada O saber na experiência do trabalho com pessoa surdocega: uma escrita autobiográfica, discute como uma pessoa surdocega aprende, trabalha, participa da universidade e constrói estratégias para superar barreiras encontradas ao longo da formação.

A pesquisa não fala apenas sobre pessoas surdocegas. Ela parte do conhecimento produzido por uma pessoa surdocega sobre sua própria experiência.

Uma trajetória acadêmica iniciada em 2016

Iury chegou à Universidade de Brasília em 2016 para cursar Língua de Sinais Brasileira–Português como Segunda Língua. Concluiu a graduação em 2020 e depois avançou para a pós-graduação.

A defesa do mestrado ocorreu em setembro de 2026, no Programa de Pós-Graduação em Educação — Modalidade Profissional.

Ao chegar ao fim dessa etapa, Iury também ampliou um espaço de representação ainda pouco ocupado por pessoas surdocegas na produção acadêmica.

Sua pesquisa percorre experiências da infância, da educação básica, da universidade e da vida profissional. Em vez de separar essas fases, o trabalho busca entender o que elas revelam sobre aprendizagem, autonomia, acessibilidade e preparação dos profissionais que atuam com pessoas surdocegas.

O ponto de partida é uma pergunta que atravessa toda a dissertação: como o conhecimento construído na experiência de uma pessoa surdocega pode ajudar no ensino e no trabalho com outras pessoas surdocegas?

Pesquisa nasceu em Libras

A própria forma de produzir a dissertação também precisou romper com o caminho mais convencional da escrita acadêmica.

O trabalho foi inicialmente construído em Língua Brasileira de Sinais, primeira língua de Iury, e depois traduzido para o português escrito como segunda língua.

Esse processo exigiu produção de vídeos, organização do conteúdo sinalizado e posterior transformação do material em texto acadêmico.

A rotina envolveu o apoio de monitora, orientadora e guias-intérpretes, além do uso do laboratório de Libras da universidade.

Para Iury, produzir uma dissertação significou trabalhar também com o tempo e as condições necessárias para tornar o conhecimento acessível entre línguas e formas diferentes de comunicação.

Textos longos e com vocabulário acadêmico complexo exigiam mais tempo de leitura. Em determinados momentos, as horas disponíveis na universidade não bastavam para concluir as atividades, e parte do trabalho continuava em casa com apoio familiar.

Acessibilidade aparece como condição para participar

A experiência relatada na dissertação ajuda a deslocar uma ideia recorrente sobre inclusão.

Ingressar em uma universidade é apenas uma parte do processo; permanecer, pesquisar e participar plenamente da vida acadêmica exige condições concretas de acessibilidade.

No caso de Iury, isso passou pela presença de guias-intérpretes, disponibilidade de espaços adequados, tecnologias assistivas, adaptação das atividades e tempo suficiente para leitura e produção acadêmica.

A pesquisa também discute a preparação dos professores.

Iury defende que o trabalho educacional não seja organizado apenas em torno do diagnóstico da deficiência, mas das capacidades, formas de comunicação e necessidades de cada pessoa.

A questão deixa de ser apenas “qual deficiência esse estudante tem?” e passa a incluir uma pergunta mais importante: “de que condições ele precisa para aprender e participar?”.

Bolsa ajudou na permanência e na circulação da pesquisa

Durante o mestrado, Iury recebeu bolsa da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal por meio do Programa de Desenvolvimento da Pós-Graduação.

O programa financia bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado em instituições de ensino superior do Distrito Federal e tem entre seus objetivos apoiar a formação de pesquisadores.

Para Iury, o recurso teve impacto não apenas na permanência no curso, mas também na possibilidade de levar sua experiência acadêmica para outros espaços.

A bolsa contribuiu para despesas relacionadas à acessibilidade, deslocamentos e participação em atividades acadêmicas.

Ao longo desse período, ele participou da Semana Universitária da UnB, de encontros com estudantes de pedagogia, da Conferência Nacional de Libras e de atividades fora do Distrito Federal.

Também apresentou sua experiência no Congresso das Apaes, em Minas Gerais.

A circulação permite que uma pesquisa construída a partir de uma trajetória individual produza efeitos para além da própria universidade.

Formação de professores está no centro do trabalho

Um dos objetivos de Iury é atuar diretamente com quem estará diante de estudantes surdocegos nas escolas e em outros espaços educativos.

Para ele, formar professores significa prepará-los para enxergar possibilidades de aprendizagem antes de enxergar limitações.

Essa preocupação aparece na dissertação ao lado de temas como tecnologias assistivas, comunicação, atuação de guias-intérpretes e participação social.

A surdocegueira combina perdas auditivas e visuais em diferentes graus e pode exigir estratégias específicas de comunicação e acesso à informação.

Por isso, as necessidades de uma pessoa não necessariamente serão iguais às de outra.

A inclusão se torna mais efetiva quando deixa de tratar grupos inteiros como se todos aprendessem e se comunicassem da mesma maneira.

Pesquisa transforma experiência em conhecimento

A utilização da autobiografia não aparece no trabalho apenas como relato pessoal.

A própria trajetória é tratada como material de investigação para compreender barreiras, relações, estratégias e formas de aprendizagem.

A dissertação percorre situações vividas por Iury para discutir questões que alcançam outras pessoas: formação docente, autonomia, acesso ao conhecimento, acessibilidade linguística e presença de pessoas com deficiência nos espaços acadêmicos.

Ao colocar a própria voz no centro da pesquisa, ele também altera quem ocupa a posição de produtor do conhecimento.

A pessoa surdocega deixa de aparecer somente como objeto de estudos elaborados por terceiros e passa a investigar, interpretar e registrar sua própria experiência.

Inclusão começa no acesso, mas só se completa com participação

O pioneirismo de Iury chama atenção, mas o significado mais amplo de sua trajetória aparece justamente nas condições que foram necessárias para que ela pudesse acontecer.

A universidade abriu uma porta em 2016. Depois vieram graduação, mestrado, orientação, apoio familiar, guias-intérpretes, recursos de acessibilidade e financiamento para a pesquisa.

Nenhum desses elementos isoladamente explica o resultado.

A trajetória mostra que inclusão no ensino superior não pode ser medida apenas pelo número de pessoas com deficiência que conseguem entrar na universidade.

Ela também precisa ser observada pela possibilidade de permanecer, produzir conhecimento, apresentar pesquisas, participar dos espaços acadêmicos e avançar para novas etapas da formação.

Iury pretende continuar trabalhando com formação de professores e considera seguir para o doutorado.

Depois de se tornar o primeiro mestre surdocego da UnB, seu próximo passo aponta para uma mudança ainda mais profunda: ajudar outros profissionais a construir ambientes em que esse tipo de pioneirismo deixe de ser tão raro.

Fontes e Documentos:

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