Publicidade
InícioVida & DesenvolvimentoMeio ambientePesca volta à foz do Rio Doce após dez anos

Pesca volta à foz do Rio Doce após dez anos

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

Cobertura relacionada

Receita controlada entra no digital

SNCR passa a permitir emissão eletrônica de notificações de receita e amplia controle digital de medicamentos sujeitos a retenção.

Anvisa proíbe picolé e suplemento; veja quais são

Anvisa proíbe picolé Bentô Gelatos e suplemento Body Strong Proetein, da Equaliv, e determina recolhimento por irregularidades sanitárias.

Anvisa amplia uso do Trodelvy contra câncer de mama

Trodelvy tem novas indicações da Anvisa para câncer de mama triplo-negativo avançado. Entenda o que muda para pacientes adultos no tratamento.

Os riscos das canetas emagrecedoras em crianças

Sociedade Brasileira de Pediatria alerta para riscos do uso sem indicação de agonistas GLP-1 por crianças e adolescentes.

Anvisa aprova remédio para esquistossomose em crianças

Registro do Farmanguinhos Arpraziquantel amplia tratamento da esquistossomose em crianças pequenas.

Anvisa aprova Datroway para câncer de pulmão avançado

Datroway é aprovado para adultos com câncer de pulmão avançado e mutação EGFR após tratamentos prévios. Veja os critérios de uso no país.
Publicidade

Nova regra permite pesca, comercialização e consumo na área marinha entre Aracruz e Linhares, o monitoramento continua e reparação pelo desastre de Fundão permanece em vigor

Pesca volta à foz do Rio Doce após dez anos de restrição

Quase dez anos depois da proibição determinada pela Justiça, a pesca profissional voltou a ser permitida na área marinha próxima à foz do Rio Doce, no Espírito Santo. A liberação alcança a região entre Aracruz e Linhares, atingida pelos rejeitos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, em 2015.

A retomada foi regulamentada pela Portaria Interministerial MPA/MMA nº 75/2026. Com a mudança, os pescados capturados na área poderão novamente ser comercializados e consumidos, desde que sejam respeitadas as regras pesqueiras e sanitárias vigentes.

A decisão considera dados de monitoramento ambiental, acompanhamento da atividade pesqueira e avaliações sanitárias dos pescados. Nas análises utilizadas pelo governo, os contaminantes monitorados não apresentaram, neste momento, indícios que justificassem a manutenção da restrição sanitária.

O que muda para os pescadores

A nova portaria não significa uma abertura da pesca sem regras. Pescadores e embarcações profissionais deverão estar regularizados sempre que a legislação exigir, além de cumprir normas já existentes para cada espécie e modalidade.

Continuam valendo períodos de defeso, áreas específicas onde a captura é proibida, proteção de espécies ameaçadas, tamanhos mínimos, restrições de equipamentos e medidas destinadas a reduzir a captura incidental.

A fiscalização permanece sob responsabilidade dos órgãos competentes.

Na prática, encerra-se a proibição extraordinária ligada diretamente aos impactos do desastre, mas continuam valendo todas as demais limitações ambientais e pesqueiras aplicáveis à região.

Por que a pesca havia sido proibida

A restrição começou em fevereiro de 2016, poucos meses depois do rompimento da barragem de Fundão.

Na época, a Justiça Federal proibiu por tempo indeterminado a pesca na área entre Barra do Riacho, em Aracruz, e Degredo/Ipiranguinha, em Linhares. A medida tinha caráter preventivo: ainda não existiam estudos conclusivos capazes de afastar o risco de contaminação de peixes, crustáceos e moluscos pelos rejeitos que chegaram à costa capixaba.

A ação que levou à proibição também considerava a necessidade de reduzir novas pressões sobre um ecossistema marinho já afetado pelo desastre.

O rompimento ocorreu em 5 de novembro de 2015. Mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração foram lançados no sistema do Rio Doce, atravessando Minas Gerais e Espírito Santo até chegar ao oceano.

Avaliação sanitária abriu caminho para retomada

Um dos elementos decisivos para a nova regulamentação foi a avaliação sanitária dos pescados.

A análise utilizou resultados laboratoriais do Projeto de Monitoramento da Biodiversidade Aquática e comparou as concentrações encontradas com limites previstos na legislação brasileira e referências sanitárias internacionais.

A conclusão apresentada pelos órgãos federais é que os níveis dos contaminantes monitorados não indicam preocupação sanitária no momento.

A água e os sedimentos do Rio Doce também permanecem sob acompanhamento do Programa de Monitoramento Quali-quantitativo Sistemático de Água e Sedimento. O governo informa que o programa não registra atualmente alertas de não conformidade capazes de impedir a retomada nos termos estabelecidos.

Essa avaliação é importante porque a liberação não se limita à captura. Ela permite que o pescado proveniente da área volte à cadeia de comercialização e consumo.

Liberação poderá ser revista

A autorização não é definitiva no sentido de impedir mudanças futuras.

A pesca poderá voltar a ser restringida se novos dados ambientais ou sanitários apontarem necessidade de intervenção.

O governo prepara um plano de contingência com diferentes níveis de resposta — normalidade, mobilização, alerta e emergência. Dependendo dos resultados do monitoramento, futuras decisões poderão atingir toda a área ou apenas determinados trechos, espécies, equipamentos, modalidades ou períodos.

A retomada também será acompanhada por um Plano de Ação Integrado coordenado pelos ministérios da Pesca e do Meio Ambiente, com participação de órgãos de saúde, vigilância sanitária e instâncias de gestão participativa.

A ideia é substituir uma proibição ampla por um modelo de pesca acompanhada permanentemente por dados ambientais, sanitários e pesqueiros.

Pagamento aos pescadores não termina com a liberação

Um ponto importante para as comunidades atingidas é que a retomada não encerra automaticamente o Programa de Transferência de Renda da Pesca.

O novo ordenamento não altera o pagamento do PTR-Pesca.

O programa integra o novo Acordo do Rio Doce e prevê apoio financeiro aos pescadores artesanais que tiveram suas atividades afetadas pelo desastre. O benefício pode alcançar 48 parcelas mensais: 36 pagamentos equivalentes a um salário mínimo e meio, seguidos por mais 12 parcelas de um salário mínimo.

Em 2025, aproximadamente 22 mil pescadores e pescadoras profissionais artesanais foram atendidos, com R$ 305 milhões pagos no período de julho a dezembro.

A volta da pesca, portanto, não é tratada como encerramento da reparação econômica das comunidades afetadas.

Reparação pelo desastre também continua

A portaria também preserva outro limite importante.

Permitir novamente a pesca não extingue as obrigações de reparação, recuperação ambiental e monitoramento decorrentes do rompimento da barragem.

O novo Acordo do Rio Doce, firmado em 2024, reorganizou as responsabilidades relacionadas ao desastre e estabeleceu recursos para indenizações, recuperação ambiental e reconstrução econômica das regiões atingidas.

O próprio ato que regulamenta a pesca estabelece que o novo ordenamento não substitui essas obrigações.

Voltar a pescar não significa voltar a 2015

A liberação encerra uma restrição que atravessou praticamente uma década, mas não apaga o motivo pelo qual ela existiu.

Para pescadores da costa capixaba, a mudança devolve uma atividade econômica e um modo de vida que foram diretamente afetados pelo desastre. Ao mesmo tempo, a retomada ocorre dentro de uma estrutura que mantém monitoramento, possibilidade de novas restrições e programas de reparação.

Essa combinação é essencial para entender a decisão.

O governo não está declarando encerrados os impactos do rompimento de Fundão. Está afirmando que, diante dos dados hoje disponíveis, já não existe justificativa técnica para manter a proibição geral da pesca naquela área.

Se os indicadores mudarem, as regras também poderão mudar.

Depois de dez anos, portanto, a volta dos barcos à região representa uma retomada econômica importante, mas também inaugura uma fase em que a permanência da atividade dependerá da capacidade de acompanhar continuamente aquilo que acontece na água, nos sedimentos e nos próprios pescados.

Relacionadas, fontes e documentos:

Newsletter

- Assine nossa newsletter

- Receba nossas principais notícias

Publicidade
Publicidade

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.