Pediatras alertam para risco de canetas emagrecedoras em crianças
A Sociedade Brasileira de Pediatria alertou para os riscos do uso sem indicação e sem acompanhamento médico de medicamentos agonistas do receptor GLP-1 por crianças e adolescentes. Conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, esses remédios têm indicações específicas, como obesidade e diabetes tipo 2, mas não devem ser usados por motivo estético ou para atender padrões de aparência corporal.
Uso estético preocupa pediatras
A SBP afirma que adolescentes com peso adequado não devem usar esses medicamentos apenas para modificar a aparência.
O alerta mira uma banalização que cresceu nas redes sociais, em grupos de mensagem e em abordagens comerciais que tratam as canetas como solução rápida para emagrecer. Para a entidade, a expressão mais adequada é “medicamentos para tratar a obesidade”, porque reconhece a obesidade como doença crônica e desloca o foco da estética para a saúde.
A diferença não é apenas de linguagem. Quando o medicamento é apresentado como atalho para “secar” ou alcançar um corpo ideal, o risco é transformar um tratamento médico em produto de consumo. Em crianças e adolescentes, isso pesa ainda mais, porque corpo, autoestima, imagem e aceitação social ainda estão em formação.
Riscos podem ir além de náuseas e vômitos
A nota da SBP aponta que o uso inadequado pode aumentar a frequência e a gravidade de eventos adversos.
Entre os riscos citados estão déficit de crescimento e desenvolvimento, desidratação, distúrbios eletrolíticos, perda de massa muscular, pancreatite aguda e problemas na vesícula. A entidade também alerta que o uso com finalidade estética pode funcionar como gatilho para transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, além de ansiedade e quadros depressivos ligados à imagem corporal.
Os eventos adversos mais comuns são gastrointestinais, especialmente durante o aumento gradual da dose. Náuseas, vômitos, refluxo, azia, diarreia e constipação estão entre as reações esperadas, mas sintomas persistentes ou intensos exigem avaliação médica.
Anvisa já havia alertado para pancreatite
A preocupação da SBP se soma a alertas anteriores da Anvisa.
Em fevereiro de 2026, a agência emitiu alerta de farmacovigilância sobre o risco de pancreatite aguda associado ao uso indevido de agonistas de GLP-1, classe que inclui dulaglutida, liraglutida, semaglutida e tirzepatida. A Anvisa informou que esses medicamentos devem ser usados exclusivamente conforme as indicações aprovadas em bula, com prescrição e acompanhamento de profissional habilitado.
A agência destacou que o uso fora das indicações autorizadas, especialmente para emagrecimento sem necessidade clínica, aumenta o risco de efeitos adversos e dificulta o diagnóstico precoce de complicações graves. A orientação é procurar atendimento médico imediato diante de dor abdominal intensa e persistente, especialmente se irradiar para as costas e vier acompanhada de náuseas e vômitos.
Produto clandestino amplia o perigo
A SBP contraindica produtos sem procedência ou sem registro sanitário.
A recomendação inclui preparações clandestinas, manipuladas irregularmente ou importadas sem registro da Anvisa. Esse é um ponto central porque o mercado paralelo de canetas ganhou força junto com a popularização dos medicamentos. O problema não está apenas na falta de prescrição. Está também na incerteza sobre o que há dentro do produto.
A Anvisa e a Polícia Federal anunciaram, em maio, análise conjunta de medicamentos de GLP-1 irregulares apreendidos no país. Segundo a agência, as irregularidades verificadas incluem contrabando de canetas sem registro no Brasil e manipulação em condições inadequadas, com risco de contaminação, perda de efeito e ausência de garantia de composição, pureza, qualidade e conservação.
Prescrição não é automática
Mesmo quando há obesidade ou diabetes tipo 2, a indicação não deve ser automática.
A SBP orienta que o médico avalie a resposta da criança ou do adolescente a intervenções anteriores, farmacológicas e não farmacológicas, além da gravidade da doença, presença de comorbidades, riscos potenciais, capacidade de acompanhamento e expectativas do paciente e da família.
Isso significa que o remédio pode fazer parte do tratamento em situações específicas, mas não substitui acompanhamento clínico, alimentação adequada, atividade física, cuidado psicológico quando necessário e monitoramento de efeitos adversos. Em pediatria, a decisão também precisa considerar crescimento, puberdade, massa muscular, hidratação, saúde mental e contexto familiar.
Medicamentos têm indicações específicas
Os agonistas de GLP-1 não formam uma única categoria livre para qualquer idade ou objetivo.
Segundo reportagem sobre a nota da SBP, a liraglutida está aprovada para pacientes a partir de 10 anos com diabetes tipo 2 e, a partir dos 12 anos, para tratar obesidade em adolescentes com peso superior a 60 quilos. A semaglutida é indicada para obesidade em jovens a partir dos 12 anos com peso superior a 60 quilos. A tirzepatida é liberada para controle do diabetes tipo 2 em jovens a partir de 10 anos, conforme critérios clínicos.
A Anvisa informa que a semaglutida é um agonista do receptor de GLP-1 e que medicamentos dessa classe podem ter indicação para controle de peso ou diabetes, conforme o produto aprovado e a bula correspondente. No caso do Wegovy, a indicação registrada envolve controle de peso associado a dieta hipocalórica e aumento de exercício físico, em adultos com obesidade ou sobrepeso com comorbidade relacionada ao peso.
Receita e acompanhamento são parte da segurança
O uso seguro depende de prescrição, dispensação responsável e acompanhamento.
A Anvisa, o Conselho Federal de Medicina, o Conselho Federal de Farmácia e o Conselho Federal de Odontologia firmaram parceria em abril para promover o uso racional e seguro desses medicamentos. A iniciativa prevê ações educativas, fortalecimento da notificação de eventos adversos e incentivo à prescrição responsável.
A agência também informou que a ampliação da procura tem sido acompanhada por irregularidades em importação, manipulação, prescrição e dispensação. Para a autoridade sanitária, produtos sem registro, empresas sem autorização de funcionamento e práticas incompatíveis com a legislação comprometem diretamente a segurança do paciente.
Famílias devem desconfiar de promessa rápida
O alerta mais prático para pais e responsáveis é desconfiar de promessa de emagrecimento fácil.
Crianças e adolescentes não devem receber medicamento comprado por indicação de influenciador, academia, amigo, farmácia sem avaliação médica ou anúncio em rede social. Também não é seguro usar caneta de outra pessoa, reaproveitar prescrição, importar produto sem controle sanitário ou ajustar dose por conta própria.
Se houver preocupação com peso, alimentação, compulsão, imagem corporal ou diabetes, o caminho correto é procurar pediatra, endocrinologista pediátrico ou serviço de saúde. A avaliação deve olhar para a saúde inteira da criança ou do adolescente, não apenas para o número na balança.
Quando procurar atendimento rapidamente
Alguns sinais não devem ser ignorados durante o uso desses medicamentos.
Dor abdominal forte e persistente, vômitos repetidos, sinais de desidratação, tontura, fraqueza intensa, hipoglicemia, piora importante do estado geral ou sintomas compatíveis com problemas na vesícula exigem avaliação médica. A Anvisa recomenda atendimento imediato diante de dor abdominal intensa e persistente, possível sinal de pancreatite.
Também é preciso atenção a mudanças de comportamento alimentar, medo intenso de engordar, restrição alimentar exagerada, uso escondido de medicamentos, vômitos provocados, tristeza persistente ou ansiedade ligada ao corpo. Nesses casos, a questão deixa de ser apenas metabólica e passa a envolver saúde mental.
O que o alerta revela sobre adolescência, corpo e mercado
A nota da SBP não demoniza medicamentos que podem ser úteis quando bem indicados. O ponto é outro: impedir que uma ferramenta terapêutica seja tratada como atalho estético para crianças e adolescentes.
Essa distinção importa. Obesidade e diabetes são condições de saúde que podem exigir tratamento estruturado. Mas pressão por magreza, vergonha do corpo e promessa de resultado rápido não são critérios médicos. Quando a busca por aparência atravessa a infância e a adolescência, o risco não está apenas no efeito colateral físico. Está também na mensagem de que o corpo em desenvolvimento precisa ser corrigido a qualquer custo.
Para as famílias, a orientação é simples e exigente: não transformar tendência de rede social em decisão de saúde. Medicamento pode ajudar quando há diagnóstico, indicação, bula, receita, acompanhamento e monitoramento. Fora disso, a caneta que parece solução pode virar o início de um problema maior.
Fontes e Documentos:
- São Paulo registra 18 mortes por febre maculosa em 2026 (Fonte em Foco)
- INSS amplia dispensa de carência para 18 condições (Fonte em Foco)
- Sarampo em SP chega a 16 casos e reforça vacinação (Fonte em Foco)
- Multivacinação começa hoje e vai até 1º de setembro (Fonte em Foco)
- Agosto Dourado reforça apoio à amamentação no Brasil (Fonte em Foco)
- Anvisa emite alerta para risco de pancreatite aguda associada ao uso indevido de canetas emagrecedoras (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)
- Anvisa e conselhos profissionais da saúde firmam parceria para uso seguro de canetas emagrecedoras (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)
Canetas emagrecedoras: pediatras alertam para risco de uso em crianças (Agência Brasil)

