COP17 entra em semana decisiva com foco em financiamento
A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação entrou na última semana de negociações em Ulaanbaatar, capital da Mongólia, com uma pergunta central: quem vai pagar a conta da restauração dos solos e da preparação contra secas cada vez mais severas. Nesta segunda-feira, 24 de agosto de 2026, o foco das delegações foi o financiamento, mas os anúncios ainda ficam muito distantes do tamanho do problema.
Novos recursos somam US$ 1,3 bilhão
Os anúncios financeiros desta segunda somam US$ 1,3 bilhão.
O valor parece expressivo, mas é pequeno diante do déficit anual estimado por especialistas das Nações Unidas. Segundo a cobertura da Agência Brasil, faltam US$ 278 bilhões por ano para financiar ações de restauração da terra, combate à degradação e preparação para os efeitos da seca.
A diferença entre o que foi anunciado e o que é necessário mostra o tamanho do impasse. A degradação do solo afeta produção de alimentos, disponibilidade de água, renda rural, biodiversidade, migração e estabilidade social. Mesmo assim, a agenda da desertificação continua recebendo menos recursos e atenção política do que outras frentes ambientais.
UNCCD defende financiamento como investimento
A secretária executiva da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, Yasmine Fouad, fez um apelo para que governos e setor privado ampliem o engajamento.
A mensagem dela foi direta: o financiamento não deve ser tratado apenas como doação, mas como investimento em pessoas, economias e prevenção. A lógica é que restaurar solos e preparar comunidades para a seca pode evitar perdas econômicas, conflitos em áreas de pastagem, deslocamentos forçados e agravamento da insegurança alimentar.
A própria UNCCD afirma que a degradação da terra já afeta até 40% das áreas terrestres do planeta, com impactos sobre alimentos, água, meios de vida e estabilidade econômica. A entidade também destaca que restaurar terras é parte da redução de instabilidade, prevenção de deslocamentos e fortalecimento da segurança humana em regiões vulneráveis.
Pastagens viram prioridade da conferência
O maior anúncio econômico da COP17 está ligado às pastagens.
A Rangelands Flagship Initiative, lançada em parceria pelo governo da Mongólia e a UNCCD, reúne uma carteira de 45 projetos avaliada em US$ 1,2 bilhão. Segundo os organizadores, é a maior mobilização financeira da história da Convenção voltada especificamente para esses ecossistemas.
As pastagens ocupam mais da metade da superfície terrestre, sustentam diretamente a subsistência de cerca de 500 milhões de pessoas e fornecem um sexto das necessidades nutricionais do mundo, segundo a UNCCD. Ainda assim, permanecem entre os ecossistemas mais negligenciados e degradados.
Para a Mongólia, o tema tem peso interno evidente. O país abriga vastas áreas de estepe e comunidades que dependem da criação de animais. A conservação dessas paisagens está ligada à renda, à alimentação, à cultura pastoril e à capacidade de enfrentar secas e degradação.
Setor privado ainda participa pouco
O setor privado responde por cerca de 6% do financiamento global destinado à restauração de terras.
Esse número ajuda a explicar por que a UNCCD tenta aproximar empresas, governos e investidores. Uma das iniciativas anunciadas na COP17 é a rede Business4Land, formada por centros nacionais voltados a conectar projetos de restauração, negócios, setor financeiro e políticas públicas.
O debate não se limita a responsabilidade ambiental genérica. Agricultura, alimentos, moda, fibras, bebidas e cadeias industriais dependem de solo saudável e água disponível. Quando a terra degrada, empresas também enfrentam perdas de produtividade, instabilidade no fornecimento, aumento de custos e risco reputacional.
Por isso, a conferência discute instrumentos capazes de reduzir risco para investidores privados, como garantias, seguros, capital de primeira perda, financiamento concessional e modelos de negócio associados à recuperação ambiental.
GEF anuncia programa de US$ 140 milhões
Outra aposta da COP17 é ampliar recursos para preparação contra a seca.
O Fundo Global para o Meio Ambiente anunciou um programa integrado de gestão de terras, com previsão inicial de US$ 140 milhões. A proposta é ajudar países a sair de uma lógica de resposta emergencial e investir em prevenção, monitoramento, planejamento e soluções baseadas na natureza.
Essa mudança de abordagem é decisiva. Quando governos agem apenas depois da seca virar desastre, o custo costuma ser maior: perda de lavouras, morte de animais, escassez de água, migração, insegurança alimentar e necessidade de ajuda humanitária. Preparação não elimina a seca, mas reduz sua capacidade de destruir economias locais.
Brasil leva experiência da Caatinga e do Cerrado
O Brasil participa da COP17 com uma agenda voltada ao combate à degradação da terra e à mitigação dos efeitos da seca.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a participação brasileira é coordenada pelo MMA, Itamaraty e ApexBrasil. A programação envolve Metas Voluntárias de Neutralidade da Degradação da Terra, Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca e o Programa Recaatingar.
O governo brasileiro afirma que sua participação inclui discussões sobre regiões semiáridas e subúmidas secas, com atenção especial à Caatinga e ao Cerrado. Os temas incluem conservação do solo, adaptação às mudanças climáticas e contribuição de povos e comunidades tradicionais para o uso sustentável dos territórios.
Essa conexão importa porque a desertificação não é um problema distante do Brasil. O Semiárido brasileiro, áreas da Caatinga e partes do Cerrado enfrentam pressão por seca, degradação do solo, uso inadequado da terra e maior vulnerabilidade climática.
COP17 tenta transformar planos em execução
A conferência ocorre de 17 a 28 de agosto e reúne delegados das 197 partes da UNCCD, além de governos, empresas, cientistas, sociedade civil, juventudes, povos indígenas, agricultores familiares e comunidades pastorilistas.
A fase final busca acelerar acordos em eixos temáticos. O desafio é sair da formulação de planos e avançar para implementação concreta, especialmente em países com menor capacidade financeira para enfrentar seca e degradação.
A UNCCD espera que a COP17 fortaleça soluções práticas e financiáveis, da restauração de solos degradados à gestão sustentável da terra e da água. O ponto sensível é que muitos países já têm diagnósticos, metas e planos, mas não têm dinheiro suficiente para colocá-los em funcionamento.
Financiamento define o alcance das promessas
A restauração de terras exige tempo, técnica e dinheiro.
Não se trata apenas de plantar árvores. Projetos consistentes podem envolver recuperação de vegetação nativa, manejo de pastagens, conservação de nascentes, proteção de bacias, adaptação da agricultura, infraestrutura hídrica, monitoramento por satélite, assistência técnica, crédito rural, seguros e participação de comunidades locais.
Quando o financiamento é insuficiente, os países mais vulneráveis tendem a responder tarde. O resultado é conhecido: a seca vira emergência, a degradação avança, a produção cai e a população mais pobre paga primeiro.
A COP17 tenta inverter essa lógica. O encontro quer tratar prevenção como investimento econômico e não apenas como agenda ambiental. Mas, com um déficit anual estimado em US$ 278 bilhões, a distância entre discurso e escala ainda é o principal obstáculo.
Por que a COP da Desertificação importa para o leitor brasileiro
A desertificação parece um tema remoto quando aparece associada à Mongólia, às estepes e às negociações multilaterais. Mas o assunto chega ao Brasil pelo solo, pela água e pela comida.
Quando a terra perde capacidade produtiva, a agricultura fica mais vulnerável. Quando a seca se torna mais severa, reservatórios, comunidades rurais e cadeias de alimentos sofrem. Quando o financiamento não chega, quem depende diretamente da terra tem menos condições de se adaptar.
Para o Brasil, a COP17 é uma vitrine e um teste. O país leva experiências da Caatinga e do Cerrado, mas também precisa mostrar que consegue transformar programas em recuperação real, com proteção de comunidades tradicionais, agricultores, água e biodiversidade.
A negociação em Ulaanbaatar deixa uma mensagem simples: solo saudável é infraestrutura. Sem ele, a crise climática deixa de ser previsão e passa a aparecer na safra, no preço dos alimentos, na escassez de água e na vida de quem já convive com a seca.
Fontes e Documentos:
- Ciclone e baixa umidade ampliam alertas no Brasil (Fonte em Foco)
- Inventário une ciência e saber Panará na Amazônia (Fonte em Foco)
- Emergência reconhecida em oito cidades do RS (Fonte em Foco)
- Baixa umidade coloca cinco estados em alerta laranja (Fonte em Foco)
- – Ciclone bomba atinge Sul e Sudeste (Fonte em Foco)
- UNCCD 17th session of the Conference of the Parties (Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação)
- COP17 entra em semana decisiva com missão de destravar financiamento (Agência Brasil)
- Brasil apresenta na COP17 na Mongólia experiência de combate à degradação da terra e mitigação dos efeitos da seca (Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima)
- The GEF at UNCCD COP17 (Fundo Global para o Meio Ambiente)

