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Clima extremo pressiona setor elétrico por inovação

Publicado em

Reportagem:
Jeferson Nunes

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Setor elétrico defendem mais inovação, monitoramento e capacidade de antecipação para proteger a infraestrutura brasileira

Uma torre de transmissão projetada para permanecer décadas em operação pode ser retorcida em minutos por um fenômeno meteorológico severo. Uma árvore derrubada sobre a rede pode deixar milhares de imóveis sem energia. E uma sequência de ocorrências simultâneas pode transformar a recomposição do sistema em uma operação que mobiliza centenas de equipes. É diante desse novo nível de risco que representantes do setor elétrico defendem mais inovação, monitoramento e capacidade de antecipação para proteger a infraestrutura brasileira.

O tema foi discutido nesta quinta-feira (20), em Brasília, no encontro “Super El Niño e a Resiliência do Setor Elétrico Brasileiro”, promovido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A própria agência definiu o evento como um debate sobre os impactos dos extremos climáticos no sistema elétrico e as estratégias necessárias para fortalecer segurança, confiabilidade e sustentabilidade.

O alerta chega poucas semanas depois de vendavais causarem interrupções de grande escala no Rio de Janeiro e danos severos à infraestrutura elétrica na região de Ribeirão Preto, em São Paulo. Ao mesmo tempo, o El Niño já está presente e se fortalece: a atualização de agosto do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos aponta probabilidade superior a 90% de que o fenômeno atinja intensidade muito forte durante o segundo semestre de 2026 e o início de 2027.

A rede precisa se preparar para eventos fora do padrão

O desafio discutido em Brasília não é simplesmente reconstruir equipamentos depois de uma tempestade. A pergunta para o setor passou a ser como preparar uma infraestrutura extensa e essencial para fenômenos que podem superar parâmetros usados em seu dimensionamento.

A presidente-executiva da Associação Brasileira das Empresas de Transmissão de Energia Elétrica (Abrate), Talita Porto, afirmou durante o encontro que as empresas têm investido em modernização, infraestrutura e resiliência, mas defendeu um salto adicional em inovação.

Segundo ela, o Instituto Abrate prevê aportar R$ 5 bilhões em pesquisa, desenvolvimento e inovação, em um projeto com horizonte de 17 meses voltado a ferramentas de análise e ao aumento da resiliência diante das mudanças climáticas.

A preocupação decorre da posição que a transmissão ocupa no sistema. As linhas e torres fazem a ligação entre grandes centros de geração e os locais onde a energia será distribuída e consumida. Uma falha relevante nesse caminho pode atingir diferentes etapas do fornecimento.

“Nós estamos falando de um segmento estratégico em que qualquer queda de torre afeta tanto a geração quanto a distribuição e o consumo”, afirmou Talita Porto.

A vulnerabilidade não significa que toda ocorrência meteorológica provoque um apagão de grandes dimensões. O risco depende da intensidade e localização do evento, do tipo de infraestrutura atingida, da redundância disponível na rede e da capacidade de resposta operacional.

Vendavais recentes transformaram o risco em problema concreto

Os episódios de julho ajudam a explicar por que a discussão sobre resiliência ganhou urgência.

No Rio de Janeiro, a ventania de 29 de julho provocou interrupções que, no momento mais crítico, chegaram a afetar 1,1 milhão de clientes no Grande Rio. Dois dias depois, mais de 100 mil ainda permaneciam sem energia nas áreas atendidas pela Light e pela Enel Rio.

A estação meteorológica do Aeroporto Internacional do Galeão registrou rajada de 105,5 km/h. A ocorrência derrubou centenas de árvores, danificou postes e afetou a rede elétrica. A Aneel também registrou o desligamento da Subestação Grajaú, associado à perda de uma linha de transmissão.

Durante o encontro desta quinta, a presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), Patricia Audi, mencionou ventos de 140 km/h no episódio do Rio. Os registros públicos consultados para esta reportagem apontam 105,5 km/h na estação do Galeão, o que indica que as referências podem corresponder a pontos ou métodos de medição distintos. A diferença não deve ser apagada na reconstrução do episódio.

Em Ribeirão Preto, a situação foi ainda mais severa. O temporal de 24 de julho provocou destruição em redes elétricas e estruturas urbanas. Medição citada pelo governo paulista a partir do Instituto Agronômico chegou a 160 km/h, enquanto outro registro oficial mencionado após o evento apontou 121 km/h. A CPFL precisou reconstruir dezenas de estruturas de transmissão e centenas de postes.

O caso entrou diretamente no debate técnico da Aneel. Segundo o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Marcio Rea, análises apontaram uma ação de vento capaz não apenas de derrubar, mas de torcer estruturas de transmissão.

Para Rea, esse tipo de ocorrência expõe o limite de uma estratégia baseada somente em reforçar fisicamente torres para resistirem indefinidamente a qualquer fenômeno.

“Não tem estrutura no país ou no mundo que consegue enfrentar esse tipo de ação”, afirmou durante o encontro.

Resiliência não significa tornar a rede indestrutível

É justamente nesse ponto que inovação passa a significar mais do que usar materiais mais resistentes.

Uma rede resiliente precisa combinar prevenção, capacidade de monitorar condições meteorológicas, automação, redundância, isolamento rápido de trechos afetados, mobilização de equipes e reconstrução eficiente. Em outras palavras, o objetivo não é garantir que nenhuma estrutura jamais falhe, mas impedir que uma falha localizada produza consequências desproporcionais e reduzir o tempo necessário para restabelecer o serviço.

As distribuidoras afirmam já aumentar os recursos destinados a essa transformação. Segundo a Abradee, os investimentos anuais das empresas do segmento passaram de R$ 18 bilhões em 2021 para R$ 41 bilhões em 2025. Mais de 40% desse último montante, de acordo com a associação, foi destinado à modernização das redes, especialmente digitalização.

Entre as tecnologias utilizadas estão automação, redes inteligentes, monitoramento em tempo real, inspeções preventivas e manutenção baseada em risco. Sistemas mais digitalizados também permitem identificar uma falha e realizar manobras para limitar a quantidade de consumidores atingidos.

Ainda assim, tecnologia não elimina a vulnerabilidade física. Uma árvore sobre uma linha, uma inundação em instalação estratégica ou ventos extremos podem causar danos mesmo em redes modernizadas. A diferença está na capacidade de antecipar, isolar e responder.

El Niño amplia a necessidade de antecipação

O encontro da Aneel foi organizado em torno do avanço do El Niño, mas a relação entre o fenômeno e cada tempestade precisa ser feita com cautela.

O El Niño corresponde ao aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial, acompanhado por mudanças na circulação atmosférica. Ele altera as probabilidades de determinados padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta, mas não permite atribuir automaticamente um vendaval específico ao fenômeno.

Essa distinção ficou evidente após as tempestades de julho. Meteorologistas ouvidos pela Agência Brasil afirmaram que não era possível associar diretamente a ventania que atingiu Rio de Janeiro e São Paulo ao El Niño. No caso daquele episódio, fatores atmosféricos regionais explicavam a formação da instabilidade.

Ao mesmo tempo, não há mais dúvida de que o fenômeno já começou. O Centro de Previsão Climática da NOAA registrou condições de El Niño em junho. Na atualização publicada em agosto, informou que o aquecimento se intensificou durante julho e que existe mais de 90% de probabilidade de um episódio muito forte no outono e inverno do Hemisfério Norte de 2026-2027, período correspondente à primavera e ao verão no Brasil.

A própria NOAA ressalta que nem mesmo um El Niño muito forte produz todos os impactos esperados em todos os lugares. O fenômeno altera probabilidades; não funciona como uma previsão determinística de cada tempestade.

É essa incerteza que torna planejamento e antecipação mais relevantes para o sistema elétrico.

Um problema que chega à vida cotidiana

Falar em resiliência de torres, subestações e redes inteligentes pode parecer uma discussão restrita a engenheiros. Os apagões recentes mostram o contrário.

Quando a energia falta por muitas horas, o efeito atravessa residências, comércio, transporte, telecomunicações e serviços essenciais. A Empresa de Pesquisa Energética lembra que interrupções prolongadas também podem comprometer abastecimento de água, conservação de alimentos, vacinas e medicamentos.

No Rio, a ventania de julho chegou a paralisar temporariamente metrô, trens e operações no Aeroporto Santos Dumont, além de deixar grande número de consumidores sem eletricidade.

Por isso, o custo da adaptação não deve ser observado somente como investimento empresarial. Ele se relaciona à confiabilidade de uma infraestrutura da qual dependem praticamente todas as demais atividades econômicas e serviços urbanos.

Ao mesmo tempo, a discussão sobre quem paga por essa transformação permanece relevante. Soluções como enterramento de redes podem ter custos muito superiores aos das redes aéreas, e especialistas e concessionárias divergem sobre como distribuir esses investimentos.

O desafio deixa de ser apenas reagir

Para Marcio Rea, do ONS, o El Niño de 2026 evidencia a necessidade de ampliar a capacidade de antecipação, planejamento e adaptação.

A ideia resume a mudança de lógica discutida em Brasília. Durante décadas, boa parte do planejamento de infraestrutura trabalhou com séries históricas para estimar quais condições uma estrutura provavelmente enfrentaria ao longo de sua vida útil. Quando eventos extremos ultrapassam esses padrões, olhar apenas para o passado deixa de ser suficiente.

Isso não torna inúteis os critérios de engenharia existentes nem significa reconstruir toda a rede para suportar qualquer fenômeno imaginável. O que muda é a necessidade de combinar infraestrutura física, informação meteorológica, inovação tecnológica e planejamento de contingência.

O setor elétrico passa, assim, a enfrentar um problema semelhante ao de outras infraestruturas críticas diante das mudanças climáticas: decidir onde reforçar, onde criar redundância, quais riscos aceitar e como recuperar o serviço rapidamente quando um evento ultrapassa aquilo que a estrutura consegue suportar.

Entre não poder prever tudo e não poder esperar

Os vendavais de julho expuseram um ponto que números de investimento, sozinhos, não conseguem resolver. Uma rede pode receber bilhões de reais em modernização e ainda enfrentar fenômenos capazes de superar a resistência física de seus componentes.

Isso muda o significado de resiliência. Preparar o sistema elétrico para o clima extremo não é prometer uma rede que nunca falha. É construir uma rede que falhe menos, limite melhor os danos e consiga voltar a funcionar mais rapidamente.

O El Niño torna essa discussão mais urgente, mas não deve servir como explicação automática para cada tempestade. A própria ciência climática trabalha com probabilidades, e os eventos recentes mostraram que diferentes mecanismos meteorológicos podem produzir danos severos.

O desafio do setor está justamente nessa combinação de certeza e incerteza. Há certeza de que eletricidade é infraestrutura crítica e de que episódios severos podem interrompê-la. Existe incerteza sobre exatamente quando, onde e com que intensidade o próximo extremo ocorrerá.

É nesse espaço entre não poder prever tudo e não poder esperar que tudo aconteça que inovação, monitoramento e planejamento passam a fazer parte da segurança energética.

Fontes e Documentos:

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