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Fé pesa na escolha eleitoral para 81% dos brasileiros

Publicado em

Reportagem:
Marta Borges

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Oito em cada dez pessoas ouvidas, 81%, consideram fundamental que seus candidatos acreditem em Deus

Para a maioria dos brasileiros, a crença religiosa não fica restrita à vida privada quando chega a hora de avaliar quem disputa um cargo público. Oito em cada dez pessoas ouvidas, 81%, consideram fundamental que seus candidatos acreditem em Deus, segundo pesquisa do Laboratório de Estudos Socioantropológicos em Política, Arte e Religião (LePar), da Universidade Federal Fluminense (UFF). Entre quem recebe até um salário mínimo, o percentual chega a 89%; na faixa de 10 a 20 salários mínimos, cai para 57%.

O contraste de renda é apenas uma das dimensões do levantamento. Os resultados mostram um país no qual a referência a Deus tem forte presença na percepção sobre política, comportamento e educação, mas essa valorização não se transforma automaticamente em confiança nas instituições religiosas. Também revelam uma tensão com o próprio significado de Estado laico: 54% dos entrevistados disseram defender que o Estado não seja laico, embora pesquisadores responsáveis pelo estudo apontem que parte dos participantes demonstrou compreender o conceito de maneiras diferentes de sua definição constitucional.

Pesquisa foi feita com cerca de 1.500 pessoas

Os números apresentados nesta quarta-feira (19), na abertura do 1º Congresso Internacional e Multidisciplinar sobre Sociedade, Religião, Política e Valores Sociais, realizado no campus Praia Vermelha da UFRJ, fazem parte da pesquisa “Religião, política e valores dos brasileiros: entre extremismos e mediações”. O congresso ocorre de 19 a 21 de agosto, no Rio de Janeiro.

Há uma distinção temporal importante: embora parte dos resultados tenha ganhado nova divulgação em agosto de 2026, o survey nacional foi aplicado pelo Instituto Datafolha em 2024, com cerca de 1.500 entrevistados de diferentes regiões do país. A pesquisa é mais ampla e foi estruturada também com análise de redes sociais e grupos focais.

Essa informação ajuda a interpretar corretamente os percentuais. Eles retratam as respostas da amostra pesquisada naquele período e não uma medição realizada nesta semana ou uma previsão direta de como os brasileiros votarão nas eleições de 2026.

Deus aparece com mais força que as próprias igrejas

Um dos contrastes mais claros do estudo surge quando a pesquisa separa crença em Deus de confiança em instituições religiosas.

Ao todo, 74% dos entrevistados concordaram com a afirmação de que Deus faz as pessoas serem melhores. Entre quem vive com renda de até um salário mínimo, o índice chegou a 86%. Outros 82% consideraram que as escolas deveriam ensinar crianças e adolescentes a acreditar em Deus.

Quando a pergunta passa para instituições concretas, porém, os percentuais diminuem. A Igreja Católica recebeu a confiança de 56% dos entrevistados, seguida pelas igrejas protestantes, com 51%, e pelos centros kardecistas, com 19%.

Para a socióloga Christina Vital, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFF e coordenadora do LePar, essa distância é significativa porque mostra que a valorização de Deus não pode ser interpretada simplesmente como confiança institucional nas igrejas.

O retrato também precisa ser observado dentro de um país religiosamente diverso. Os resultados preliminares do Censo 2022 mostram que 56,7% das pessoas com 10 anos ou mais se declaravam católicas, enquanto o Brasil registrou crescimento proporcional de evangélicos e de pessoas sem religião em relação a 2010.

O que significa dizer que o Estado é laico

O percentual de 54% favorável a um Estado não laico chama atenção porque toca diretamente na relação entre religião e instituições públicas.

Segundo Christina Vital, as respostas qualitativas indicaram confusão entre participantes sobre o significado de laicidade. A expressão, no sentido constitucional, não determina que cidadãos, candidatos ou agentes públicos deixem de ter religião, nem exclui manifestações religiosas da sociedade.

A Constituição estabelece outro princípio. O artigo 19 proíbe União, estados, Distrito Federal e municípios de estabelecer cultos ou igrejas, financiá-los, dificultar seu funcionamento ou manter relações de dependência ou aliança com instituições religiosas, ressalvada a colaboração de interesse público prevista em lei.

Estado laico, portanto, não é sinônimo de sociedade sem religião. A separação constitucional procura impedir que o poder público adote uma religião como oficial ou estabeleça privilégios incompatíveis com a liberdade e a igualdade religiosas.

Essa diferença é especialmente relevante quando pesquisas de opinião perguntam se o Estado deveria ou não ser laico: responder à questão depende também do que cada entrevistado entende pela palavra.

Religião e voto não formam uma relação única

A apresentação do levantamento também avançou sobre uma questão politicamente sensível: a associação entre identidade religiosa e comportamento eleitoral.

O cientista político Lucio Rennó, da Universidade de Brasília, afirmou no congresso que existe regularidade estatística entre ser evangélico e votar na extrema direita. Para ele, parte desse comportamento passa pela identificação entre eleitor e candidato — pessoas tendem a valorizar representantes que percebem como semelhantes a elas.

Essa relação, contudo, não significa que pessoas evangélicas formem um eleitorado politicamente homogêneo, nem que religião determine individualmente um voto.

Estudos sobre segmentos evangélicos mostram diferenças internas relevantes por gênero, renda, geração, denominação e posicionamento sobre questões sociais. Em levantamento anterior com evangélicos de São Paulo, por exemplo, mulheres apresentaram posições mais progressistas que homens em diferentes temas, embora também atribuíssem importância elevada à religiosidade dos candidatos.

A distinção é importante porque correlações estatísticas descrevem padrões de grupos. Elas não permitem concluir, isoladamente, por que uma pessoa votou em determinado candidato.

Pesquisadores discutem uso político de valores religiosos

Durante o congresso, Michel Gherman, pesquisador ligado à UFRJ, apresentou uma interpretação sobre como setores da extrema direita utilizam valores e símbolos religiosos.

Na avaliação dele, não foi simplesmente o crescimento do protestantismo que fortaleceu politicamente a extrema direita brasileira. O movimento teria ocorrido também no sentido inverso, com grupos políticos aprendendo a mobilizar valores religiosos associados a ideias de ordem, moralidade e recuperação de um passado percebido como perdido.

Gherman citou como exemplo resultados de outra análise segundo os quais sete em cada dez candidatos pesquisados no Rio de Janeiro acreditavam, ou declaravam acreditar, na existência de uma espécie de conspiração progressista voltada à deterioração moral por meio da escola.

Essa leitura deve ser entendida como interpretação apresentada pelo pesquisador, e não como conclusão produzida pelos percentuais nacionais sobre crença em Deus.

Christina Vital também descreveu a presença de uma “retórica da perda”: a percepção de que algo valorizado teria desaparecido ou estaria desaparecendo da sociedade. Em artigo acadêmico publicado antes da apresentação desta semana, a pesquisadora já havia relacionado os dados do survey a disputas contemporâneas envolvendo religião, valores sociais, gênero e política.

O dado eleitoral revela mais que religiosidade

O resultado de 81% não significa que a crença em Deus seja necessariamente o principal critério do eleitor, nem que ela determine a escolha final entre candidatos.

A pergunta mostra outra coisa: para uma parcela muito ampla dos entrevistados, a identidade que se espera de um representante político inclui uma dimensão religiosa. E essa expectativa aparece com intensidade diferente conforme a posição econômica do entrevistado.

O dado se torna ainda mais relevante quando colocado ao lado de outro resultado da mesma pesquisa. Em divulgação anterior, o estudo mostrou que 79% dos entrevistados consideravam a democracia a melhor forma de governo, enquanto 71% estavam insatisfeitos com seu funcionamento no Brasil.

As duas informações não medem a mesma coisa, mas ajudam a enxergar a amplitude da investigação: ela procura compreender como fé, identidade, valores morais e percepção sobre instituições democráticas se cruzam na maneira como brasileiros entendem a vida pública.

Interpretar o papel da religião nas eleições

A pesquisa expõe uma fronteira que costuma ser tratada de maneira simplificada no debate político brasileiro. De um lado está a liberdade individual de acreditar, não acreditar e considerar a religião importante na escolha de representantes. Do outro está a obrigação constitucional de um Estado que não pode estabelecer uma fé oficial nem subordinar o poder público a instituições religiosas.

Os dois princípios podem coexistir. Um eleitor pode exigir de seu candidato uma crença religiosa; o Estado, por sua vez, continua submetido às regras de laicidade estabelecidas pela Constituição.

É justamente nesse espaço que os números do LePar ganham importância. Eles não dizem em quem os brasileiros votarão, não transformam religiosos em um bloco político único e não demonstram que fé, sozinha, determina escolhas eleitorais.

Mostram, porém, que religião permanece como uma linguagem poderosa para uma parcela expressiva da sociedade avaliar valores, caráter e representação política — e que essa força é ainda maior entre os entrevistados de menor renda.

Ao mesmo tempo, a confiança mais baixa nas igrejas indica que acreditar em Deus, confiar numa instituição religiosa e desejar sua presença na política são fenômenos relacionados, mas não idênticos.

Compreender essa diferença é essencial para interpretar o papel da religião nas eleições sem reduzir milhões de brasileiros a uma única identidade política.

Fontes e Documentos:

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