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Como a desconfiança na urna virou arma política

Publicado em

Reportagem:
Marta Borges

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A dança das cadeiras: como a desconfiança na urna virou o xis da questão

Sabe aquela conversa de boteco sobre se a urna eletrônica é confiável ou não? Pois bem, a história dessa desconfiança não começou com a polarização de 2018, nem com um tuíte de político. Ela é mais velha do que muito eleitor de primeira viagem. E, como uma boa novela das oito, tem camadas, reviravoltas e um elenco de personagens que vão desde os “ninjas” da tecnologia até os arautos do caos eleitoral.

A raiz do problema, pasmem, está na era do voto em papel. Antes da urna virar a queridinha (ou vilã) do Brasil, o que tínhamos era um festival de criatividade criminosa: urnas de lona que sumiam, apuração que mais parecia um bingo de resultados e uma intervenção humana que, digamos, abria margem para “interpretações criativas” da vontade popular. A própria Justiça Eleitoral admite que o uso da tecnologia foi uma resposta direta às fraudes que ocorriam desde o Império, em diversas etapas do processo.

Aí, em 1996, estreou a urna eletrônica, desenvolvida por uma equipe de “ninjas” do Inpe e do CTA (sim, os mesmos caras que colocam satélite no espaço) . A promessa era acabar com a maracutaia manual e trazer agilidade. E funcionou. O Brasil, que vivia o “Caso Proconsult” e outras suspeitas na apuração, passou a ter resultado eleitoral em tempo recorde. A totalização eletrônica chegou em 1994, e a máquina foi se aperfeiçoando: do disquete à biometria, da criptografia aos testes públicos de segurança .

Ironia

A ironia, no entanto, é cruel. A urna resolveu os problemas do papel, mas criou um novo fantasma: a opacidade tecnológica. Afinal, como confiar num negócio que ninguém vê funcionar por dentro? A contagem manual, embora lenta e sujeita a fraudes, era um espetáculo público. A urna, com seus protocolos criptográficos e assinaturas digitais, virou uma caixa-preta para o cidadão comum . A diferença entre transparência visual e transparência técnica passou a ser o calcanhar de aquiles do sistema.

Eis que o debate técnico, que já existia desde os primeiros anos da urna, foi sequestrado pela política. A partir de 2018, o equipamento deixou de ser um problema de engenharia de software para virar o centro do ringue político. Lideranças, de ambos os lados, passaram a usar a desconfiança como trunfo, e a discussão sobre voto impresso ou melhorias na auditabilidade ganhou contornos de guerra santa. A ciência deu lugar à narrativa, e a verificação de dados, à emoção.

Não há provas

Até o momento, não há uma única prova judicial de fraude sistêmica que tenha mudado o resultado de uma eleição com urnas eletrônicas . A própria Justiça Eleitoral, não sem críticas, ampliou os mecanismos de fiscalização: são mais de 40 oportunidades de auditoria, testes públicos com especialistas, e abertura do código-fonte para partidos e entidades . Mas a confiança, essa senhora volúvel, não se compra com laudo técnico. Ela se constrói com comunicação clara e com a capacidade das instituições de explicarem, em bom português, como funciona o negócio.

A urna virou o espelho de uma democracia que desconfia de tudo e de todos

A lição, caro leitor, é que o problema nunca foi só a máquina. O problema é o que a gente projeta nela. A urna virou o espelho de uma democracia que, cada vez mais, desconfia de tudo e de todos. O cidadão, que já não acredita no político, também duvida da ferramenta que deveria garantir a lisura do jogo. E nesse jogo de empurra, o que se perde não é só a credibilidade do TSE, mas a própria fé no voto como instrumento de mudança. Que a história sirva de lição: aperfeiçoar a tecnologia é necessário, mas recuperar a confiança exige mais do que códigos-fontes. Exige que a política pare de tratar a verdade como um produto descartável.

Fontes e Documentos:

– Brasil repudia revogação de visto de embaixadora nos EUA (Fonte em Foco)
– Congresso volta com agenda reduzida antes das eleições (Fonte em Foco)
– TRE-SP aplica multa a Lula por propaganda antecipada (Fonte em Foco)
– Eleições 2026 têm convenções a partir de 20 de julho (Fonte em Foco)
– Informatização do voto (Tribunal Superior Eleitoral)
– Como nasce uma urna: problemas nas Eleições 1994 levaram à criação que modernizou o voto (Tribunal Superior Eleitoral)
– Conheça a evolução da urna eletrônica: de 1996 a 2024 (Tribunal Superior Eleitoral)
–
Proposal of an Electronic Auditing System Applied to the Brazilian Electronic Voting Machine (arXiv)

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