Sem computador e com dados limitados, brasileiros seguem conectados pela metade
O Brasil ultrapassou, pela primeira vez, a marca de 90% da população de 10 anos ou mais usando internet, mas o avanço da conexão ainda não garante inclusão digital plena. Em 2025, 90,5% dos brasileiros nessa faixa etária acessaram a rede, segundo a PNAD Contínua TIC. O dado mostra expansão do acesso, mas também expõe uma desigualdade menos visível: milhões de pessoas seguem dependentes apenas do celular, sem computador, tablet ou internet fixa de qualidade.
Essa inclusão incompleta aparece com força na comunidade do Pilar, no Recife Antigo. Separada por uma rua do Porto Digital, um dos maiores polos de tecnologia do país, a comunidade vive ao lado de empresas, faculdades, incubadoras e centros de inovação, mas enfrenta dificuldades para acessar o básico da vida digital.
No Pilar, polo tecnológico convive com falta de acesso
A líder comunitária Ana Cláudia Miguel descreve a Rua do Moinho como uma fronteira simbólica entre dois mundos. De um lado, o Porto Digital, que reúne mais de 500 empresas e registrou faturamento de R$ 7,4 bilhões em 2025. Do outro, a comunidade do Pilar, única área residencial do Recife Antigo, formada por famílias de baixa renda.
O contraste é direto. O Porto Digital informa ter alcançado R$ 7,4 bilhões de faturamento em 2025, com 541 empresas e mais de 24 mil colaboradores. A poucos metros dali, moradores do Pilar relatam dificuldade para manter internet fixa, comprar computador e transformar proximidade física com o setor tecnológico em oportunidade real.
Na comunidade, quase 600 domicílios reúnem famílias majoritariamente negras, chefiadas por mulheres, com forte presença de trabalho informal e renda média limitada. O retrato local ajuda a explicar uma contradição nacional: estar perto da tecnologia não significa participar dela.
Acesso pelo celular não resolve estudo, trabalho e cidadania digital
A desigualdade digital brasileira não se resume a estar ou não conectado. O tipo de acesso define o que a pessoa consegue fazer. Celular com franquia limitada permite troca de mensagens e uso de redes sociais, mas impõe barreiras para estudar, trabalhar, preencher formulários, acessar serviços públicos, fazer cursos, produzir documentos ou desenvolver habilidades técnicas.
A PNAD Contínua TIC mostra que o percentual de usuários da internet chegou a 90,5% em 2025, contra 79,4% em 2019. O avanço é expressivo. Ainda assim, a falta de equipamentos adequados e a dependência de planos móveis limitados mantêm parte da população em uma conexão frágil.
Essa diferença pesa especialmente para estudantes. No Pilar, o programa Pilar Universitário passou a oferecer bolsas integrais nas faculdades do Senac para moradores da comunidade. A mensalidade deixou de ser obstáculo, mas outros custos permaneceram. Sem computador e com internet restrita ao celular, a permanência no ensino superior continua difícil.
Falta de notebook interrompe trajetória acadêmica
A história de Eurídize Lima de Santana, de 23 anos, resume o problema. Em 2024, ela entrou no programa Pilar Universitário e se matriculou em Análise e Desenvolvimento de Sistemas. Um ano e meio depois, trancou a faculdade. O motivo foi básico para quem estuda tecnologia: ela não tinha computador.
Nos primeiros meses, conseguiu acompanhar parte das atividades pelo celular. Quando o curso avançou para disciplinas com programação, a ausência de notebook tornou a continuidade inviável. Um equipamento adequado para estudar códigos custa, segundo ela, pelo menos R$ 3,5 mil. Para famílias que vivem com renda apertada, esse valor disputa espaço com aluguel, alimentação e contas da casa.
Depois de trancar a graduação, Eurídize tentou mudar de curso, mas foi informada de que o programa não permitia nova inscrição para estudantes que interromperam a trajetória. Hoje, cursa Gestão Financeira a distância, pagando mensalidade e usando o celular e a franquia de dados do telefone.
Planos limitados restringem serviços públicos e educação
A advogada Flávia Lefrève, especialista em telecomunicações e direitos digitais, avalia que a dependência de planos móveis com franquias limitadas compromete o exercício da cidadania. Segundo ela, quando a franquia acaba, muitos usuários perdem acesso amplo à internet e ficam restritos a aplicativos específicos ou à interrupção prática da navegação.
A discussão jurídica se relaciona ao Marco Civil da Internet. A lei estabelece a neutralidade de rede e determina que os responsáveis pela transmissão, comutação ou roteamento tratem de forma isonômica os pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem, destino, serviço, terminal ou aplicação.
Organizações da Coalizão Direitos na Rede levaram ao Ministério da Justiça, em 2023, questionamentos sobre práticas de zero rating, em que o acesso a determinados aplicativos continua mesmo depois do fim da franquia, enquanto o restante da internet fica limitado. Para as entidades, esse modelo pode comprometer a neutralidade da rede e aprofundar a desigualdade entre usuários de diferentes faixas de renda.
Uso concentrado em redes sociais mostra limite da inclusão
A PNAD Contínua TIC indica que, entre as pessoas que usaram a internet, os usos mais comuns continuam associados à comunicação e às redes sociais. Mais de 95% utilizaram a rede para chamadas de voz ou vídeo; mais de 90% para enviar ou receber mensagens de texto, voz ou imagens; e 84,9% para acessar redes sociais.
Essas atividades são importantes, mas não esgotam o conceito de inclusão digital. Acesso pleno exige capacidade de estudar, trabalhar, produzir conteúdo, acessar direitos, resolver demandas públicas, usar serviços bancários, buscar informação qualificada e participar da economia digital. Sem equipamento e conexão estável, a internet vira janela estreita: mostra o mundo, mas não entrega a chave da porta.
O muro digital também incomoda quem está do lado da tecnologia
No Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife, uma das instituições precursoras do Porto Digital, a desigualdade aparece no próprio desenho urbano. A coordenadora de ESG do Cesar, Fabi Andrade, relata que o projeto arquitetônico do prédio previa uma parede que impediria a visão da comunidade do Pilar. A proposta foi recusada, e uma parede de vidro foi instalada no lugar.
A imagem sintetiza o incômodo. O prédio modernizado abriga formação tecnológica e empresas inovadoras, mas ainda não conseguiu transformar a vizinhança imediata em presença efetiva dentro das salas de aula e dos postos de trabalho. O Porto Digital reconhece a existência de uma dívida social e a necessidade de soluções mais organizadas.
Análise da inclusão digital no Brasil
O Brasil conseguiu ampliar o acesso à internet, mas ainda não resolveu a qualidade da inclusão. A diferença entre ter sinal no celular e ter condições reais de estudar, trabalhar e acessar direitos é o centro do problema. Conexão limitada, ausência de computador e dependência de aplicativos específicos produzem uma cidadania digital incompleta.
O caso do Pilar é simbólico porque elimina a desculpa da distância física. A comunidade está ao lado de um polo bilionário de inovação, mas parte de seus moradores ainda não tem as ferramentas mínimas para entrar na economia digital. O muro deixou de ser de pedra, mas continua funcionando como barreira social, educacional e tecnológica.
A política pública necessária não se limita a ampliar cobertura. Ela precisa combinar internet de qualidade, equipamentos, formação, permanência estudantil e integração real entre polos tecnológicos e comunidades vizinhas. Sem isso, o país continuará comemorando índices altos de conexão enquanto uma parcela da população segue conectada apenas o suficiente para consumir, mas não para disputar oportunidades.
Relacionadas, fontes e documentos:
– Proporção de usuários da internet ultrapassou 90% em 2025 (IBGE)
– Lei nº 12.965/2014, Marco Civil da Internet (Planalto)
– Decreto nº 8.771/2016, regulamentação do Marco Civil da Internet (Planalto)

