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Exportações à UE sobem 21% com acordo Mercosul-UE

Publicado em

Reportagem:
Fabíola Fonseca

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Abacate, mel e óleo de milho lideram altas nos primeiros cinco meses de aplicação provisória, a indústria também amplia vendas ao mercado europeu

Exportações beneficiadas pelo acordo Mercosul-UE crescem 21%

As exportações brasileiras de produtos beneficiados pelas novas condições comerciais entre Mercosul e União Europeia cresceram 21% nos primeiros cinco meses de aplicação provisória do acordo. A comparação considera as vendas realizadas entre maio e setembro de 2026 diante do mesmo período de 2025.

O avanço não ficou concentrado em um único setor. Produtos agropecuários, combustíveis, metais e equipamentos industriais aparecem entre os destaques, mostrando que as primeiras mudanças tarifárias alcançam diferentes partes da pauta exportadora brasileira.

As preferências começaram a valer em 1º de maio, após a assinatura dos instrumentos jurídicos entre os dois blocos em janeiro. O acordo provisório de comércio já produz efeitos, embora o acordo de parceria mais amplo ainda dependa da conclusão de procedimentos de aprovação e ratificação.

Abacate, mel e óleo de milho puxam as maiores altas

Os maiores crescimentos percentuais aparecem entre produtos que ganharam melhores condições de acesso ao mercado europeu.

Entre maio e setembro, na comparação anual, as exportações brasileiras registraram:

  • abacates frescos: +421%;
  • mel: +367%;
  • óleo de milho: +266%;
  • ferrossilício-manganês: +173%;
  • alumínio em bruto: +107%;
  • óleos combustíveis: +102%;
  • etanol: +95,2%;
  • óleo essencial de laranja: +75,8%;
  • maçãs frescas: +29%.

Os percentuais mostram uma expansão relevante, mas precisam ser lidos junto com os valores absolutos de cada mercado. Uma taxa muito elevada pode partir de uma base anterior pequena e, sozinha, não revela o peso de determinado produto no conjunto das exportações brasileiras.

Ainda assim, a presença de bens tão diferentes entre os produtos em crescimento mostra que o início da abertura comercial não ficou limitado ao agronegócio.

Transformadores saem de zero para US$ 39 milhões

Um dos exemplos mais claros vem da indústria elétrica.

As exportações brasileiras de transformadores elétricos para a União Europeia chegaram a US$ 39 milhões entre maio e setembro de 2026. No mesmo intervalo do ano passado, não havia vendas registradas desse produto no recorte apresentado.

O resultado chama atenção porque mostra uma possibilidade diferente daquela expressa apenas pelas grandes variações percentuais: o surgimento de fluxo comercial onde antes não havia exportação registrada no período comparado.

Ferrossilício-manganês e alumínio em bruto também tiveram crescimento acima de 100%.

Isso coloca a indústria brasileira entre os setores que começam a testar, na prática, o espaço aberto pelas novas tarifas.

O que mudou com o acordo?

O mecanismo central é relativamente simples: produtos que antes enfrentavam determinadas tarifas de importação passam a pagar alíquotas menores ou, em alguns casos, deixam de pagar a tarifa conforme o cronograma negociado.

Preço de entrada menor pode tornar o produto brasileiro mais competitivo diante de fornecedores de outros países.

Isso não significa, porém, que todas as tarifas desapareceram em maio.

A União Europeia prevê diferentes ritmos de desgravação. A oferta europeia cobre aproximadamente 95% das exportações brasileiras em número de códigos tarifários e cerca de 92% em valor exportado, com reduções imediatas ou graduais em períodos que podem chegar a 12 anos. Parte dos produtos agrícolas está sujeita a cotas ou reduções parciais.

Do outro lado, o Mercosul também reduz progressivamente tarifas cobradas sobre produtos europeus.

Empresa precisa cumprir regras para receber a preferência

A existência de uma tarifa menor não significa que qualquer mercadoria brasileira recebe automaticamente o benefício.

Para acessar as condições preferenciais, o exportador precisa atender às regras previstas no acordo, especialmente os requisitos de origem. Eles determinam quando um produto pode ser considerado originário do Mercosul e, portanto, apto a receber o tratamento tarifário negociado.

O Portal Siscomex reúne tabelas de preferências, cronogramas de desgravação e orientações sobre regras de origem e indicações geográficas.

Entre os documentos disponíveis estão:

  • manual de regras de origem;
  • manual de desgravação tarifária;
  • manual de indicações geográficas;
  • tabelas de preferências tarifárias;
  • requisitos específicos por código de produto.

Para uma empresa interessada em exportar, saber que existe o acordo é apenas o primeiro passo; é preciso identificar exatamente qual regra alcança sua mercadoria.

Aplicação é provisória, mas já produz efeitos comerciais

As negociações entre Mercosul e União Europeia começaram em 1999 e atravessaram mais de duas décadas.

Em janeiro de 2026, foram assinados dois instrumentos: o Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia e o Acordo Provisório de Comércio, conhecido pela sigla em inglês ITA.

É o acordo provisório de comércio que está sendo aplicado desde 1º de maio. Ele reproduz os compromissos comerciais enquanto o instrumento mais amplo segue o processo necessário para sua entrada definitiva em vigor.

O mercado formado pelos dois blocos reúne aproximadamente 720 milhões de pessoas e PIB combinado superior a US$ 22 trilhões.

Cinco meses mostram abertura de espaço, não o resultado final

O crescimento de 21% oferece um primeiro retrato do comércio sob as novas condições, mas ainda não representa um balanço definitivo do acordo.

Primeiro, porque o dado se refere especificamente aos produtos brasileiros beneficiados pelas reduções ou eliminações tarifárias, e não ao conjunto de tudo o que o Brasil exporta para a União Europeia.

Segundo, porque uma comparação entre dois períodos mostra que as vendas cresceram depois do início da aplicação, mas não separa, sozinha, o efeito das tarifas de outras variáveis que também influenciam exportações, como demanda europeia, preços internacionais, câmbio, oferta brasileira e bases de comparação.

Há, contudo, um sinal concreto: produtos que receberam melhores condições de acesso estão vendendo mais no primeiro período observado.

O próximo teste será verificar se esse avanço se sustenta, alcança um número maior de empresas e aumenta também o valor agregado das exportações brasileiras.

É nessa passagem — de grandes percentuais iniciais para presença comercial duradoura — que será possível medir com mais precisão o tamanho econômico da abertura entre Mercosul e União Europeia.

Relacionadas, fontes e documentos:

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