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Inflação cai a 0,32%, mas alimentos sobem em outubro

Publicado em

Reportagem:
Fabíola Fonseca

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Tomate sobe 24,54% e lidera pressão sobre os preços; queda nas passagens aéreas e na conta de luz ajuda a conter a inflação, que chega a 4,62% em 12 meses

Inflação desacelera para 0,32% em outubro, mas alimentos ficam mais caros e índice supera teto da meta

A inflação perdeu força em outubro, mas quem foi ao supermercado encontrou uma realidade bem diferente da sugerida pelo resultado geral. A prévia da inflação oficial brasileira ficou em 0,32%, menos da metade dos 0,70% registrados em setembro. O alívio veio principalmente das passagens aéreas e da energia elétrica, enquanto alimentos importantes na mesa das famílias ficaram consideravelmente mais caros.

Os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), divulgados nesta sexta-feira (23 de outubro), também mostram uma situação que merece atenção: apesar da desaceleração mensal, a inflação acumulada em 12 meses subiu de 4,47% para 4,62%, ultrapassando o limite superior de 4,5% estabelecido para a meta de inflação.

O contraste ajuda a entender por que os números da economia nem sempre correspondem à sensação de quem faz compras. A inflação pode perder velocidade no conjunto dos produtos e serviços, enquanto despesas essenciais continuam pressionando o orçamento.

Alimentos puxam a inflação e pesam mais no orçamento das famílias

O grupo Alimentação e bebidas teve alta de 0,88% em outubro e foi o principal responsável pela inflação do mês. Sua contribuição chegou a 0,19 ponto percentual dos 0,32% registrados pelo indicador nacional.

A pressão foi especialmente forte nos produtos comprados para consumo em casa. A alimentação no domicílio aumentou 1,01%, depois de ter subido 0,38% em setembro.

O tomate liderou as altas, com aumento de 24,54%, seguido pela cebola, pela batata-inglesa e pelo arroz. São produtos presentes em muitas refeições e cujas variações podem ser percebidas rapidamente por quem precisa abastecer a despensa.

Quais alimentos ficaram mais caros e mais baratos?

Entre os principais aumentos, o tomate foi o destaque tanto pela intensidade da alta quanto por sua contribuição para o índice geral.

  • Tomate: alta de 24,54%.
  • Cebola: alta de 13,63%.
  • Batata-inglesa: alta de 10,96%.
  • Arroz: alta de 5,80%.

Nem todos os alimentos, porém, seguiram a mesma direção. A cenoura ficou 10,67% mais barata, enquanto as frutas recuaram 1,37% e o café moído apresentou queda de 1,16%.

A diferença entre os produtos mostra que a inflação não atinge toda a cesta de compras de maneira uniforme. Para uma família que consome mais os itens que subiram, o impacto pode ser maior do que aquele indicado pela média nacional.

A alimentação fora de casa também apresentou aceleração. O aumento passou de 0,44% em setembro para 0,56% em outubro, com reajustes tanto nas refeições quanto nos lanches.

Passagens aéreas e energia elétrica ajudam a segurar o índice

Duas despesas contribuíram decisivamente para evitar que a inflação de outubro fosse ainda maior: as passagens aéreas e a energia elétrica residencial. A redução desses preços compensou parte dos aumentos registrados em alimentos e outros serviços.

As passagens aéreas ficaram, em média, 9,24% mais baratas. Esse foi o item com maior contribuição negativa para o IPCA-15, retirando 0,08 ponto percentual do resultado geral.

No grupo Habitação, a variação foi negativa em 0,10%, sendo o único dos nove grandes grupos pesquisados a apresentar queda.

A conta de luz residencial recuou 0,89%, beneficiada pela mudança da bandeira tarifária amarela para verde. Com a bandeira verde, o consumidor deixa de pagar o valor adicional que vinha sendo cobrado pelo sistema de bandeiras.

Em setembro, a energia elétrica havia subido 7,42% e exercido forte pressão sobre a inflação. Naquele mês, o resultado também foi influenciado pelo encerramento do desconto relacionado ao bônus de Itaipu concedido anteriormente.

Combustíveis continuam pressionando os transportes

Enquanto as passagens aéreas ficaram mais baratas, os combustíveis subiram 1,20% e impediram uma redução maior no grupo Transportes. O comportamento foi diferente entre os produtos utilizados pelos motoristas.

  • Óleo diesel: alta de 3,70%.
  • Etanol: alta de 2,73%.
  • Gasolina: alta de 0,92%.
  • Gás veicular: queda de 0,18%.

Mesmo com esses aumentos, o grupo Transportes terminou outubro com variação de apenas 0,05%, influenciado pelo recuo no preço das viagens de avião.

O resultado reforça que a inflação de um setor pode esconder movimentos bastante diferentes entre seus componentes. Quem compra passagem aérea encontrou preços menores, enquanto motoristas enfrentaram aumento nos combustíveis.

Como ficaram os nove grupos pesquisados pelo IBGE

Oito dos nove grupos de produtos e serviços registraram aumento de preços em outubro. Alimentação e bebidas apresentou a maior variação e a maior contribuição para o índice, enquanto Habitação foi o único grupo com resultado negativo.

Variação dos preços em outubro de 2026

  • Alimentação e bebidas: +0,88% | impacto de +0,19 ponto percentual.
  • Despesas pessoais: +0,55% | impacto de +0,06 ponto percentual.
  • Vestuário: +0,53% | impacto de +0,02 ponto percentual.
  • Comunicação: +0,43% | impacto de +0,02 ponto percentual.
  • Artigos de residência: +0,28% | impacto de +0,01 ponto percentual.
  • Saúde e cuidados pessoais: +0,15% | impacto de +0,02 ponto percentual.
  • Educação: +0,09% | impacto de +0,01 ponto percentual.
  • Transportes: +0,05% | impacto de +0,01 ponto percentual.
  • Habitação: -0,10% | impacto de -0,02 ponto percentual.

O impacto em pontos percentuais mede quanto cada grupo contribuiu para o resultado geral. Ele depende não apenas da variação dos preços, mas também do peso daquele conjunto de despesas no orçamento considerado pela pesquisa.

É por isso que um aumento de 0,88% em alimentação pode influenciar muito mais a inflação do que uma alta percentual semelhante em um produto de menor participação no consumo das famílias.

Inflação em 12 meses chega a 4,62% e supera o limite de 4,5%

Embora outubro tenha registrado uma inflação mensal menor, o resultado acumulado em 12 meses avançou para 4,62%, acima do teto de tolerância da meta brasileira. Em setembro, esse acumulado estava em 4,47%.

A meta central de inflação é de 3% ao ano, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Isso estabelece uma faixa de 1,5% a 4,5%.

É importante distinguir duas medidas: o IPCA-15 é a prévia da inflação, enquanto o IPCA completo é o indicador utilizado oficialmente para verificar o cumprimento da meta.

Estar acima de 4,5% na prévia não significa, automaticamente, que o Banco Central descumpriu formalmente a meta. Desde 2025, o sistema de metas contínuas considera caracterizado o descumprimento quando o IPCA acumulado em 12 meses permanece fora do intervalo de tolerância durante seis meses consecutivos.

A diferença é relevante porque a política monetária acompanha não apenas um resultado isolado, mas a persistência das pressões inflacionárias.

Por que a inflação mensal caiu, mas o acumulado aumentou?

Uma inflação menor em outubro significa que os preços subiram mais devagar naquele mês, não que ficaram mais baratos de forma generalizada. O índice positivo de 0,32% representa aumento médio dos preços pesquisados.

Já o acumulado de 12 meses reúne as variações registradas ao longo de um período mais extenso. Por isso, ele pode crescer mesmo quando a inflação do mês desacelera.

Em outubro de 2025, por exemplo, o IPCA-15 havia sido de 0,18%, abaixo da taxa registrada neste outubro de 2026. Essa diferença ajuda a explicar por que o acumulado anual avançou.

Para o consumidor, a distinção é simples: desacelerar a inflação não devolve automaticamente o poder de compra perdido com os aumentos anteriores. Para que um produto fique efetivamente mais barato, seu preço precisa cair, e não apenas aumentar em ritmo menor.

O que é o IPCA-15 e como a inflação é calculada?

O IPCA-15 funciona como uma prévia da inflação oficial porque utiliza metodologia semelhante à do IPCA, mas com período de coleta e abrangência geográfica diferentes. O indicador antecipa informações sobre o comportamento dos preços antes do encerramento do mês de referência.

Na divulgação de outubro, os preços foram coletados entre 16 de setembro e 14 de outubro de 2026.

A pesquisa considera despesas de famílias com rendimentos de um a 40 salários mínimos, abrangendo produtos e serviços relacionados à alimentação, habitação, transporte, saúde, educação e outros componentes do consumo.

O IPCA-15 acompanha preços em 11 áreas do país, incluindo Brasília e Goiânia, além de nove regiões metropolitanas. O IPCA completo possui abrangência geográfica mais ampla, com 16 localidades.

A prévia de outubro acumulou alta de 4,15% desde janeiro. Já o resultado definitivo do IPCA referente ao mês está previsto para 12 de novembro.

O que os números de outubro significam para o bolso do consumidor?

A principal mensagem da inflação de outubro é que houve alívio na velocidade geral dos aumentos, mas a pressão sobre despesas essenciais permaneceu. O peso dos alimentos foi particularmente importante, enquanto reduções em passagens aéreas e energia ajudaram a diminuir o resultado médio.

Essa diferença tem consequências concretas. Uma família que utiliza pouca energia, não viaja de avião e concentra a maior parte de seus gastos em supermercado pode perceber menos alívio do que a inflação de 0,32% sugere.

O economista Roberto Luis Troster, coordenador do Centro de Estudos do Financiamento das Empresas Brasileiras (Cefeb), da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), avalia que a desaceleração mensal é positiva, mas ainda não representa uma trajetória consistente de redução das pressões inflacionárias.

O desafio continua sendo transformar a desaceleração pontual em um movimento mais amplo e duradouro, especialmente nos preços que mais afetam o orçamento doméstico.

Por que a inflação menor ainda não significa alívio para todas as famílias

Os números de outubro revelam uma diferença essencial entre a inflação medida pela estatística e a inflação vivida no cotidiano. O índice nacional reúne milhares de preços com pesos diferentes, mas cada família possui uma combinação própria de despesas.

Quando o tomate sobe quase 25%, esse aumento é percebido diretamente por quem compra o produto. Quando uma passagem aérea fica mais barata, o benefício só alcança quem precisa daquele serviço.

A média nacional é indispensável para compreender a economia, mas não descreve perfeitamente o orçamento de cada cidadão.

O resultado de outubro mostra que controlar a inflação exige mais do que registrar um mês de desaceleração: é necessário reduzir a persistência dos aumentos, sobretudo em alimentação e outras despesas indispensáveis. É essa continuidade que poderá determinar se o consumidor sentirá, nos próximos meses, uma melhora real em seu poder de compra.

Relacionadas, fontes e documentos:

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