Aplicativos já envolvem 1,9% dos ocupados no país
Cerca de 2 milhões de pessoas trabalharam por meio de aplicativos no Brasil em 2025, segundo módulo da Pnad Contínua divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira, 4 de setembro de 2026. O levantamento mostra um retrato incômodo: esses trabalhadores têm jornadas mais longas, menor rendimento por hora, mais informalidade e menor proteção previdenciária que os demais ocupados no setor privado.
O IBGE estimou em 1,959 milhão o número de trabalhadores por aplicativos em 2025. Esse contingente representava 1,9% de todas as pessoas ocupadas no país.
O instituto chama esse grupo de trabalhadores “plataformizados”. A pesquisa considera pessoas de 14 anos ou mais que usam aplicativos para realizar serviços de transporte, entregas e prestação de serviços gerais ou profissionais.
A maior parte está no transporte de passageiros. Cerca de 1,2 milhão de trabalhadores plataformizados utilizavam aplicativos desse tipo, o equivalente a 58,9% do total. Dentro desse grupo, 1,1 milhão usavam plataformas como Uber e 99, enquanto 232 mil atuavam exclusivamente por apps de táxi.
Entregas e serviços gerais completam o retrato
Os entregadores também formam uma parte relevante desse mercado. Em 2025, 376 mil pessoas tinham ocupação como entregadores de aplicativos de comida, produtos e outros serviços, o equivalente a 19,2% dos plataformizados, segundo a base nos dados do IBGE.
A pesquisa também identificou 313 mil trabalhadores em aplicativos de prestação de serviços gerais ou profissionais. Essa categoria inclui atividades como design, tradução e telemedicina quando o profissional usa a plataforma para captar clientes ou realizar o atendimento.
No setor de transporte, armazenagem e correios, a presença dos aplicativos é ainda mais forte. A Pnad aponta que 75% dos trabalhadores dessa atividade econômica eram plataformizados, ou seja, três em cada quatro ocupados do setor utilizavam apps no trabalho.
Comparação com anos anteriores exige cuidado
A Pnad sobre trabalho por plataformas digitais ainda é experimental. O próprio IBGE informa que o módulo está em fase de teste e avaliação, o que exige cautela na leitura dos resultados.
Também há uma diferença metodológica importante. Em 2022 e 2024, a pesquisa investigou apenas trabalhadores que tinham os aplicativos como ocupação principal. Em 2025, o levantamento passou a incluir também quem usava os apps como trabalho secundário. Por isso, o total de quase 2 milhões não deve ser comparado diretamente com os anos anteriores.
Quando a comparação considera apenas quem tinha os aplicativos como ocupação principal, o crescimento aparece com mais precisão: eram 1,3 milhão em 2022, 1,7 milhão em 2024 e 1,8 milhão em 2025. Nessa base comparável, houve alta de 9,1% em um ano e de 36,8% em três anos.
Jornada maior reduz ganho por hora
O rendimento mensal médio dos plataformizados ficou em R$ 3.147 em 2025, praticamente o mesmo patamar dos trabalhadores não plataformizados, que receberam R$ 3.148. A semelhança, porém, esconde uma diferença decisiva: o tempo de trabalho.
Os trabalhadores por aplicativo tinham jornada semanal média de 44,7 horas. Entre os não plataformizados, a média era de 39,3 horas. São 5,4 horas a mais por semana para chegar a rendimento mensal semelhante.
É aí que o rendimento por hora muda a leitura. Segundo o IBGE, os plataformizados recebiam R$ 16,20 por hora, valor 12% menor que os R$ 18,40 dos não plataformizados. A renda mensal pode parecer parecida, mas o relógio mostra outra história.
Informalidade e Previdência ampliam a vulnerabilidade
A informalidade é uma das marcas do trabalho por aplicativos. Em 2025, 72,1% dos plataformizados estavam na informalidade, contra 42,7% dos não plataformizados.
A cobertura previdenciária também era menor. Apenas 34% dos trabalhadores por apps contribuíam para a Previdência, enquanto 63% dos não plataformizados tinham cobertura.
Essa diferença tem efeito concreto. Sem contribuição previdenciária, o trabalhador fica mais exposto quando adoece, sofre acidente, perde capacidade laboral ou envelhece. No caso de motoristas e entregadores, esse risco ganha peso extra porque a atividade envolve rua, trânsito, longas jornadas e custos próprios.
A maioria trabalha por conta própria, mas depende das plataformas
Aproximadamente 1,6 milhão de pessoas ocupadas por aplicativos se declararam trabalhadores por conta própria. Isso representa 86,8% do total de plataformizados. No conjunto da economia, os conta própria eram 28,9% dos ocupados no setor privado.
Mas o IBGE ressalta que há evidências de dependência desses trabalhadores em relação às plataformas. Entre trabalhadores de apps de transporte de passageiros, 80,2% disseram que o valor recebido por tarefa depende totalmente das empresas digitais. Entre entregadores, esse percentual foi de 78,3%.
A dependência também aparece no controle do tempo e do pagamento. Entre entregadores, 65,9% afirmaram que o prazo para realizar a tarefa depende dos aplicativos, e 71,3% disseram que a forma de recebimento é definida pela plataforma.
Falta de alternativa pesa na decisão de entrar nos apps
Entre trabalhadores de transporte por aplicativo, exceto táxi, e entregadores, o principal motivo para atuar pelas plataformas foi não conseguir encontrar outro trabalho. Também aparecem como razões a flexibilidade e a possibilidade de ganhar mais do que em outras ocupações disponíveis.
No conjunto dos plataformizados, a Folha informou que a flexibilidade foi o motivo mais citado, com 26,8%, seguida da falta de outro emprego, com 24,6%, e da renda maior que em outros trabalhos disponíveis, com 20,8%.
Esse dado ajuda a desfazer uma leitura simplista. Para parte dos trabalhadores, o aplicativo é uma escolha por autonomia. Para outra parte, é a saída possível diante da falta de vaga, da necessidade de renda imediata ou da dificuldade de acessar empregos formais.
Debate chega ao STF em meio à discussão sobre uberização
A divulgação do IBGE ocorre poucos dias depois de o Supremo Tribunal Federal adiar a retomada do julgamento sobre a chamada uberização. Representantes de categorias que trabalham para aplicativos buscam o reconhecimento de vínculo empregatício, enquanto empresas do setor contestam essa tese.
A Procuradoria-Geral da República defende que o STF não reconheça o vínculo trabalhista entre motoristas e aplicativos.
A pesquisa do IBGE não resolve esse debate jurídico. Ela oferece, porém, uma base pública para a discussão: mostra que muitos trabalhadores se declaram conta própria, mas têm pouca margem real sobre preço, prazo e forma de pagamento.
O que os dados revelam sobre o trabalho por aplicativos
O levantamento mostra que o trabalho por aplicativos ocupa um lugar ambíguo no mercado brasileiro. Ele gera renda, abre portas para quem precisa trabalhar e cria formas novas de intermediação. Ao mesmo tempo, concentra jornadas longas, rendimento por hora menor, baixa proteção previdenciária e forte dependência tecnológica.
Para o cidadão, a pergunta central não é se aplicativo é bom ou ruim. A pergunta é que tipo de trabalho está sendo normalizado quando quase 2 milhões de pessoas dependem dessas plataformas, muitas vezes sem carteira, sem proteção suficiente e sem controle pleno sobre o próprio ganho.
Relacionadas, fontes e documentos:
- Indústria cresce 0,2% em julho, mas ainda mostra perda de fôlego (Fonte em Foco)
- PIB cresce 0,5% no segundo trimestre (Fonte em Foco)
- Novo Desenrola termina na segunda (Fonte em Foco)
- Conta de luz e alimentos levam IPCA-15 a -0,40% em agosto (Fonte em Foco)
- Brasil e EUA retomam diálogo sobre tarifas comerciais (Fonte em Foco)
- Brasil tem 2 milhões de pessoas que trabalham por meio de aplicativos (Agência Brasil)
- Apenas 1 em cada 5 motociclistas de app tem cobertura previdenciária (Agência Brasil)
- Trabalhadores de apps são 2 milhões no Brasil, têm jornada maior e contribuem menos para INSS (Folha de S.Paulo)

