Publicidade
InícioVida & DesenvolvimentoMeio ambienteAdaptaSUS prepara a saúde para os impactos do El Niño

AdaptaSUS prepara a saúde para os impactos do El Niño

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

Cobertura relacionada

Os riscos das canetas emagrecedoras em crianças

Sociedade Brasileira de Pediatria alerta para riscos do uso sem indicação de agonistas GLP-1 por crianças e adolescentes.

São Paulo registra 18 mortes por febre maculosa em 2026

Com 18 mortes por febre maculosa em São Paulo, veja sintomas, quando procurar atendimento e como remover carrapatos com segurança.

Chuva no DF não encerra alerta para tempo seco

Chuva chegou a áreas do DF após 58 dias sem precipitação, mas alerta de baixa umidade e cuidados com hidratação continuam.

Doença de Creutzfeldt-Jakob e o caso Lito Sousa

Entenda o que é a Doença de Creutzfeldt-Jakob, quais tratamentos experimentais estão em estudo e os limites atuais da ciência.

Baixa umidade coloca cinco estados em alerta laranja

Baixa umidade coloca áreas de cinco estados em alerta laranja, com índices de até 12%. Chuva e frio mudam o cenário no Sul do país.

COP17 busca financiamento contra desertificação

COP17 entra em semana decisiva com foco em financiamento A...
Publicidade

Plano do Ministério da Saúde organiza resposta do SUS a calor, secas, queimadas, enchentes e aumento de doenças

O Brasil criou um plano para preparar o setor de saúde diante dos impactos do El Niño 2026-2027. O Plano de Preparação e Resposta a Emergências em Saúde Pública associadas ao fenômeno integra o Plano Setorial de Saúde – AdaptaSUS, estratégia do Ministério da Saúde voltada à adaptação do SUS às mudanças climáticas.

A lógica é direta: quando o clima muda, a saúde também muda. Calor extremo, seca, queimadas, enchentes, poluição do ar e alteração no padrão das chuvas podem aumentar doenças, agravar vulnerabilidades e pressionar hospitais, unidades básicas, vigilância sanitária e equipes de resposta.

O documento foi apresentado na quarta-feira (26), durante a 7ª Assembleia do Conselho Nacional de Secretários de Saúde, o Conass, em Brasília. A janela considerada mais crítica para o El Niño vai de outubro de 2026 a março de 2027.

El Niño pode exigir resposta rápida do SUS

O El Niño é um fenômeno climático natural marcado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera ventos e chuvas em diferentes partes do mundo.

No Brasil, o fenômeno previsto para 2026-2027 está classificado como forte e pode atingir o patamar de muito forte. Os efeitos não serão iguais em todas as regiões.

No Norte e no Centro-Oeste, o plano considera risco de seca, estiagem e queimadas. No Nordeste, a preocupação é o aprofundamento da seca e do calor. No Sudeste, a previsão é de clima mais irregular, com ondas de calor e temporais. No Sul, o risco maior envolve chuvas intensas e inundações.

Para o SUS, isso significa preparar respostas diferentes para problemas diferentes. Não basta um protocolo único. Uma enchente exige uma rede organizada para trauma, água contaminada e deslocamento de famílias. Uma seca prolongada exige atenção à hidratação, à qualidade do ar, às queimadas e ao abastecimento.

Plano tem cinco eixos imediatos

A preparação para os possíveis impactos do El Niño foi organizada em cinco eixos.

O primeiro é a governança federativa, com a Sala de Situação de Emergências Climáticas. O segundo é a governança interna, por meio da Sala de Situação Saúde e Clima.

O terceiro eixo envolve recursos e kits emergenciais de assistência farmacêutica. O quarto prevê atuação da Força Nacional do SUS, com bases regionais capazes de deslocar equipes em até 48 horas.

O quinto trata da organização de serviços e protocolos técnicos conforme as características de cada bioma.

Essa divisão mostra que o plano não olha apenas para a doença depois que ela aparece. Ele tenta antecipar o impacto: onde haverá risco, que tipo de serviço pode falhar, que medicamentos podem faltar, que equipe precisa se deslocar e como cada região deve se preparar.

AdaptaSUS tem metas até 2035

O AdaptaSUS vai além da resposta imediata ao El Niño. No médio prazo, o plano estabelece 27 metas e 93 ações até 2035.

As metas estão distribuídas em quatro áreas: Vigilância em Saúde, Atenção à Saúde, Promoção e Educação em Saúde, e Ciência, Tecnologia, Inovação e Produção.

Na prática, isso significa adaptar o SUS a uma realidade em que eventos climáticos extremos tendem a se tornar mais frequentes, intensos ou imprevisíveis.

O desafio não é apenas atender mais pessoas em uma emergência. É manter o sistema funcionando quando faltam energia, água, acesso por estrada, equipe, medicamento ou estrutura física.

Clima pode mudar o perfil das doenças

O plano aponta que as mudanças climáticas podem alterar o padrão de doenças no país. O aumento de temperatura, a variação das chuvas e a mudança na umidade podem influenciar vetores, reservatórios e ambientes de transmissão.

Isso afeta doenças transmitidas por mosquitos, carrapatos, animais silvestres ou água contaminada. Também pode ampliar riscos ligados à poluição atmosférica, ao calor extremo, ao frio, à seca, à estiagem, às inundações e aos alagamentos.

A preocupação não é abstrata. Quando há enchente, cresce o risco de doenças relacionadas à água contaminada. Quando há seca e armazenamento improvisado de água, podem surgir condições favoráveis à proliferação de vetores. Quando há fumaça de queimadas, pessoas com doenças respiratórias ficam mais vulneráveis.

O clima não cria sozinho todas essas doenças. Mas pode deslocar riscos, agravar cenários e pressionar populações que já vivem com pouco acesso a saneamento, transporte, atendimento e informação.

Vulnerabilidade é ponto central do plano

O Ministério da Saúde afirma que as respostas precisam considerar desigualdades, justiça climática e equidade.

Esse ponto é essencial. Um mesmo evento climático não atinge todos da mesma forma. Uma onda de calor pesa mais sobre idosos, crianças, trabalhadores ao ar livre, pessoas com doenças crônicas e famílias que vivem em casas sem ventilação adequada.

Uma enchente atinge com mais força quem mora em áreas de risco, depende de transporte precário ou não tem como sair rapidamente. A seca afeta de modo mais duro comunidades rurais, povos tradicionais e regiões com menor acesso a água segura.

Por isso, o plano não trata clima apenas como previsão meteorológica. Ele trata clima como fator que atravessa renda, território, saneamento, moradia, trabalho, raça, idade, deficiência e acesso a serviços.

Ferramentas vão ajudar no monitoramento

O AdaptaSUS prevê o uso de ferramentas para monitorar riscos e orientar decisões.

Entre elas estão o Painel Nacional de Excesso de Calor, a Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Poluentes Atmosféricos, o VigiAR, e o GeoRisk, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais.

A estratégia também prevê a integração de sistemas oficiais do Ministério da Saúde usados para detecção precoce, registro, monitoramento e investigação de surtos e outros problemas de saúde pública, como e-SUS Notifica, Sivep-Gripe e Sinan.

Essa integração é importante porque, em uma emergência climática, o tempo da informação pode definir o tamanho do dano. Quanto mais cedo o sistema identifica aumento de casos, deslocamento de risco ou falha em serviço essencial, mais rápido pode agir.

Amazônia terá atenção para áreas de difícil acesso

Na Amazônia, a preparação considera a rede de atenção disponível para populações em áreas de difícil acesso.

Isso inclui equipes de saúde e Unidades Básicas de Saúde Fluviais. Em regiões onde o deslocamento depende de rios, uma emergência climática pode dificultar ainda mais o acesso a atendimento, medicamentos, vacinação, exames e remoção de pacientes.

O plano reconhece que território importa. Uma resposta pensada para uma capital conectada por estradas não serve automaticamente para uma comunidade ribeirinha, uma área rural isolada ou uma região atingida por seca extrema.

Segurança hídrica também entrou no plano

Entre as ações relacionadas à segurança hídrica em áreas sujeitas à seca e à estiagem, a Fundação Nacional de Saúde contratou 18,8 mil cisternas em 397 municípios de sete estados.

O aporte informado é de R$ 226,6 milhões, destinado a unidades de melhoria sanitária.

Esse tipo de ação mostra como clima e saúde se encontram antes da porta do hospital. Água segura reduz risco de doenças. Saneamento reduz exposição. Estrutura básica evita que uma crise climática se transforme rapidamente em crise sanitária.

Risco vai além do atendimento médico

O plano descreve riscos que atingem tanto a saúde das pessoas quanto o funcionamento do próprio sistema.

Entre os efeitos diretos estão doenças associadas a extremos de temperatura, doenças transmitidas por acesso inadequado à água, saneamento e higiene, zoonoses, doenças respiratórias, problemas ligados à poluição atmosférica, lesões e mortes por eventos extremos, desnutrição, doenças não transmissíveis e impactos na saúde mental.

Mas há outro lado: o serviço de saúde também pode adoecer como sistema. Unidades podem ter funcionamento comprometido por alagamento, falta de energia, danos estruturais, dificuldade de transporte, sobrecarga de demanda ou falta de insumos.

Quando isso acontece, a emergência climática deixa de ser apenas um evento ambiental. Ela vira um teste de resistência para o SUS.

O que o AdaptaSUS revela sobre saúde e clima

O AdaptaSUS mostra que mudança climática deixou de ser um tema distante da saúde pública. Ela já aparece na fila do hospital, na falta de água, na fumaça que piora a respiração, na enchente que interrompe atendimento e no calor que derruba quem trabalha exposto.

A resposta precisa ser planejada antes da emergência. Depois que a água sobe, que a fumaça toma a cidade ou que o calor extremo lota os serviços, o sistema já está correndo atrás do prejuízo.

O plano acerta ao tratar adaptação como tarefa do SUS, não como assunto exclusivo de ambientalistas ou meteorologistas. Preparar a saúde para o clima é proteger vidas, reduzir desigualdades e evitar que os mais vulneráveis paguem primeiro — e mais caro — pelos impactos de um problema coletivo.

O desafio agora é sair do papel. Metas, salas de situação, painéis e protocolos só fazem diferença quando chegam ao território, orientam equipes, garantem insumos e mantêm o atendimento funcionando no dia em que a crise bate à porta.

Relacionadas, fontes e documentos:

Newsletter

- Assine nossa newsletter

- Receba nossas principais notícias

Publicidade
Publicidade

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.