No Dia Nacional do Voluntariado, iniciativas mostram como escuta, presença e apoio material ajudam pessoas em sofrimento
O voluntariado em saúde costuma começar por uma decisão simples: alguém escolhe estar presente quando outra pessoa atravessa uma dor grande demais para carregar sozinha.
No Dia Nacional do Voluntariado, comemorado nesta sexta-feira (28), histórias de psicólogos, profissionais de saúde, jovens voluntários e redes de apoio mostram que doar tempo pode mudar a vida de quem recebe ajuda — e também de quem oferece.
A atuação aparece em frentes muito diferentes. Há psicólogos treinando equipes para atender vítimas de terremotos. Há jovens oferecendo escuta a pessoas em crise emocional. E há voluntárias acolhendo pacientes com câncer em Brasília, oferecendo alimento, transporte, perucas, próteses, informação e companhia em uma jornada que muitas vezes é longa, cara e solitária.
Rede Feminina mostra que cuidado também é presença cotidiana
A Rede Feminina de Combate ao Câncer de Brasília é um exemplo concreto de voluntariado que permanece quando o tratamento se estende por meses.
Fundada em 1996, a entidade atua no Distrito Federal com acolhimento humano, suporte emocional e assistência material a pacientes oncológicos e suas famílias. O trabalho envolve voluntários, doadores, parceiros e familiares em torno de uma ideia simples e poderosa: nenhum paciente deveria enfrentar o câncer sozinho.
Na prática, isso significa estar nos corredores, nas salas de espera, nas conversas difíceis e nas necessidades básicas que aparecem durante o tratamento.
A própria Rede resume o problema social de forma direta: pacientes de baixa renda muitas vezes enfrentam o câncer sem recursos para transporte, alimentação ou apoio emocional. Quando isso acontece, a doença deixa de ser apenas um diagnóstico médico e passa a reorganizar toda a vida da família.
Da alimentação à autoestima
O trabalho da Rede Feminina alcança necessidades que, para quem está de fora, podem parecer pequenas. Para quem está em tratamento, não são.
Em 2024, a entidade registrou 95,7 mil lanches distribuídos a pacientes e acompanhantes nas longas esperas do Hospital de Base do DF. Também foram distribuídas 4.362 cestas básicas, além de medicamentos, fraldas, cadeiras de rodas e materiais hospitalares.
Outro eixo é o programa Doando Autoestima. A iniciativa oferece próteses mamárias, perucas, cortes de cabelo, barba e unha. Segundo relatório da RFCC, foram 1.873 atendimentos realizados nessa frente, incluindo 286 próteses mamárias, 174 perucas e 756 cortes de cabelo.
Esses números ajudam a entender uma parte invisível do tratamento. O câncer não atinge apenas o corpo. Ele mexe com imagem, rotina, renda, alimentação, deslocamento, medo, silêncio e esperança.
Quando uma voluntária entrega uma peruca, um lanche ou uma cesta básica, ela não resolve sozinha o tratamento. Mas reduz uma camada de sofrimento. E, às vezes, é essa camada que impede a pessoa de desistir.
Voluntariado também acolhe traumas em desastres
A psicóloga Esly Carvalho, que atua em Brasília e tem 45 anos de experiência profissional, decidiu levar seu conhecimento para causas humanitárias.
Especializada em atender pessoas que passaram por traumas, ela se disponibilizou a treinar equipes para lidar com pacientes em situações de estresse pós-traumático. Sua atuação inclui o uso da abordagem EMDR, terapia voltada ao processamento de memórias dolorosas.
Na Venezuela, após os terremotos de junho, Esly desenvolveu um programa de intervenção para profissionais. Segundo o relato publicado pela Agência Brasil, mais de 100 colegas foram formados nesse manejo e atenderam mais de 500 pessoas.
O atendimento também segue de forma online. Ela e a equipe venezuelana se reúnem às quintas-feiras para oferecer exercícios gratuitos a quem procura ajuda.
Esse tipo de voluntariado tem uma força multiplicadora. Quando uma profissional treina outros profissionais em uma região atingida por desastre, o conhecimento não para nela. Ele se espalha por quem está no território, fala a língua da comunidade e acompanha a dor de perto.
Projeto Help nasceu de seis amigos e chegou ao país inteiro
Outra iniciativa voltada à saúde mental nasceu em 2017, em São Paulo. Seis amigos, depois de viverem crises de depressão, começaram a amarrar mensagens em viadutos e pontes do centro da cidade, oferecendo ajuda a quem estivesse sofrendo.
Eles deixavam um número de telefone. As pessoas ligavam.
Hoje, o Projeto Help reúne cerca de 7 mil voluntários em todas as unidades da Federação. A iniciativa oferece palestras em escolas, escutas em espaços públicos e atendimento remoto, com primeiro contato por WhatsApp.
As ações presenciais são chamadas de “cantinho do desabafo”. Elas acontecem em locais como rodoviárias, parques e estações. A proposta é simples: criar um lugar em que a pessoa possa falar antes que a dor vire isolamento absoluto.
Segundo Felipe Santos, coordenador nacional do projeto, há atenção especial aos jovens, que têm procurado ajuda com frequência por ansiedade, depressão, dependência de tecnologia e apostas online.
Em Brasília, escuta chega a escolas, ruas e espaços públicos
Em Brasília, o Projeto Help é coordenado por Thiago Domingos, militar da Marinha de 31 anos que se tornou voluntário depois de conhecer casos de suicídio entre jovens nas Forças Armadas.
Ele afirma que o projeto trabalha com prevenção e tenta ajudar pessoas que não têm recursos para consultas com psicólogos. No DF, segundo o relato publicado pela Agência Brasil, o grupo já atendeu cerca de 5 mil pessoas nos últimos anos e conta com 15 psicólogos voluntários que atuam regularmente.
A escuta também aparece nas escolas. Em palestras, voluntários relatam ouvir casos de bullying e outros problemas emocionais.
Esse ponto é importante porque muitos jovens não chegam dizendo “preciso de ajuda”. Eles chegam irritados, calados, cansados, agressivos ou distantes. Às vezes, a crise aparece antes da palavra.
O voluntariado não substitui a rede pública de saúde mental. Mas pode funcionar como ponte. Uma conversa responsável pode ajudar alguém a procurar atendimento, falar com a família ou perceber que não precisa enfrentar tudo sozinho.
Mulheres aparecem com mais frequência nos pedidos de ajuda
A psicóloga Juliana Cei, de 38 anos, encontrou no voluntariado uma nova relação com a própria profissão.
Ela trabalha na área organizacional de uma empresa e, nas horas livres, atende pessoas de forma voluntária em espaços públicos. Para ela, o país vive uma crise de saúde mental marcada por solidão, pouca convivência de qualidade e redes de apoio frágeis.
Juliana relata perceber maior número de mulheres em busca de ajuda. Muitas chegam com histórias sensíveis, que exigem escuta atenta e cuidado.
Esse dado dialoga com outras frentes de voluntariado. Na Rede Feminina de Combate ao Câncer, por exemplo, o acolhimento de mulheres em tratamento oncológico passa também pela autoestima, pelo corpo, pelo medo e pela reconstrução da rotina.
Em todos esses casos, o gesto voluntário precisa ser mais do que boa vontade. Ele exige respeito, sigilo, escuta e responsabilidade.
Pessoas trans também buscam espaços seguros
O psicólogo brasiliense Lucas Hedler, de 45 anos, decidiu atuar como voluntário para apoiar outras pessoas trans.
Ele criou um grupo de apoio para que participantes possam falar sobre inseguranças, compartilhar histórias e construir um espaço seguro de cuidado psicológico. Lucas afirma que a comunidade LGBTQIA+ muitas vezes convive com ambientes familiares mais inseguros do que a rua.
A pandemia, segundo ele, agravou sofrimentos entre pessoas trans, incluindo agressões e expulsões de casa. O psicólogo pretende ampliar projetos de atendimento voluntário voltados a esse público.
A experiência revela uma dimensão essencial do voluntariado: nem toda ajuda cabe em uma campanha ampla. Algumas dores precisam de espaços específicos, onde a pessoa não precise explicar o básico sobre quem é para só então começar a falar do que sente.
Onde buscar ajuda gratuita em saúde mental
Para quem precisa de apoio em saúde mental, há canais gratuitos que podem ser acionados.
O Centro de Valorização da Vida atende pelo telefone 188. O serviço funciona como apoio emocional e prevenção do suicídio.
A Rede de Atenção Psicossocial do SUS também reúne serviços públicos voltados ao cuidado em saúde mental, incluindo unidades e estratégias de atendimento conforme a organização de cada território.
Alcoólicos Anônimos é outro caminho de apoio gratuito para pessoas que enfrentam problemas relacionados ao álcool.
Esses canais não anulam a importância do voluntariado. Eles mostram que a escuta solidária precisa caminhar junto com serviços estruturados, profissionais qualificados e rede pública de cuidado.
Como ajudar a Rede Feminina
A Rede Feminina de Combate ao Câncer de Brasília informa em seu site formas de apoio como doação, doação de cabelo, voluntariado e parcerias.
A entidade mantém sede no Setor Comercial Sul, Casa Rosa no Hospital de Base do DF e Casa de Apoio no Núcleo Bandeirante. Também divulga canais de atendimento a pacientes, dúvidas e doações.
O trabalho da Rede mostra uma verdade simples: voluntariado em saúde não acontece apenas em grandes emergências. Ele também se faz no lanche entregue ao acompanhante do paciênte durante uma espera longa, na peruca que ajuda uma paciente a se reconhecer de novo, na cesta básica que chega quando a renda aperta e na conversa que sustenta alguém em um dia difícil.
O voluntariado cria pontes
O voluntariado não substitui política pública, tratamento médico, assistência social nem rede de saúde mental. E não deve ser usado como desculpa para o Estado faltar.
Mas ele revela algo que nenhuma estrutura consegue fabricar sozinha: presença humana.
Em desastres, essa presença ajuda a organizar o trauma. Em crises emocionais, abre espaço para a palavra antes do colapso. No câncer, atravessa corredores, esperas e tratamentos com um cuidado que não cabe apenas no prontuário.
A Rede Feminina de Combate ao Câncer, o Projeto Help e a atuação de profissionais como Esly Carvalho mostram que voluntariado não é favor. É responsabilidade compartilhada.
Quando bem organizado, ele cria pontes. Entre o sofrimento e o atendimento. Entre a solidão e a rede de apoio. Entre a doença e a dignidade.
No fundo, o voluntário oferece tempo. Mas, para quem recebe, esse tempo pode chegar como alimento, escuta, passagem, orientação, peruca, abraço, silêncio respeitoso ou esperança prática. E esperança prática é aquela que não promete resolver tudo. Apenas chega, fica ao lado e ajuda a pessoa a dar o próximo passo.
Fontes e Documentos:
- Dia do voluntariado: iniciativas levam saúde mental a vulneráveis (Agência Brasil)
- Rede Feminina de Combate ao Câncer (Rede Feminina de Combate ao Câncer de Brasília)https://rfcc.org.br/
- Relatórios (Rede Feminina de Combate ao Câncer de Brasília)
- CVV (Centro de Valorização da Vida)
- Rede de Atenção Psicossocial (Ministério da Saúde)
- Alcoólicos Anônimos (Alcoólicos Anônimos do Brasil)
- Voluntariado, Rede Feminina Contra o Câncer, Saúde Mental, Câncer, Acolhimento Humanizado, Direitos Sociais,

