Mais de 30 milhões já vivem expostos a dois ou mais riscos climáticos no país
O El Niño 2026–2027 chega ao Brasil em um cenário de alta exposição climática para crianças e adolescentes. Mais de 30 milhões de meninas e meninos, o equivalente a seis em cada dez, já vivem expostos a dois ou mais riscos climáticos no país; entre eles, 16 milhões convivem com três ou mais riscos.
A preocupação central é que eventos extremos não atingem a infância da mesma forma que atingem os adultos. Calor intenso, seca, fumaça, enchentes, falta de água, interrupção de aulas e dificuldade de acesso a serviços de saúde podem comprometer direitos básicos justamente na fase em que o corpo, a aprendizagem e a proteção familiar ainda estão em formação.
O alerta ganha força porque o fenômeno deve ser muito intenso no país. O monitoramento oficial do Painel El Niño 2026–2027 aponta probabilidade superior a 95% de o evento alcançar intensidade muito forte no trimestre outubro-novembro-dezembro, com possibilidade de ser um dos mais fortes desde 1950.
O que o El Niño pode provocar no Brasil
O El Niño altera padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões. No Brasil, o cenário projetado indica maior chance de chuva acima da média no Sul, com possibilidade de cheias, enquanto o centro-norte do país tende a enfrentar condições mais secas e maior risco de fogo.
A combinação entre calor, estiagem e fumaça pode atingir diretamente a rotina das famílias. Em áreas afetadas por seca, a falta de água segura pode dificultar higiene, alimentação e atendimento de saúde; em regiões com chuvas intensas, enchentes podem fechar escolas, interromper vacinação e isolar comunidades.
O problema não está apenas no fenômeno climático, mas na vulnerabilidade que ele encontra. Onde já faltam saneamento, transporte, renda, estrutura escolar ou atendimento de saúde, o extremo climático tende a produzir danos maiores e mais duradouros.
Educação, saúde e alimentação ficam mais expostas
Eventos recentes mostram como o clima pode interromper a vida escolar. Em 2024, as enchentes no Rio Grande do Sul afetaram a educação de 741 mil estudantes, enquanto a seca extrema na Amazônia atingiu outros 436 mil; ao todo, 1,17 milhão de crianças e adolescentes tiveram aulas interrompidas.
Na saúde, crianças são mais sensíveis à desidratação, à fumaça, ao calor extremo e a doenças associadas à água contaminada. Alterações de temperatura e umidade também podem favorecer condições para a proliferação do mosquito transmissor da dengue em determinadas regiões e períodos.
Na alimentação, o impacto pode aparecer meses depois do evento climático. Perdas agrícolas, redução de renda e aumento do preço dos alimentos podem ampliar insegurança alimentar e má nutrição, especialmente em famílias que já vivem com orçamento apertado.
Por que crianças sofrem mais
A infância tem menos margem de proteção diante de uma emergência climática. Crianças dependem de adultos, escolas, unidades de saúde, água segura, alimentação regular e serviços públicos funcionando para atravessar períodos de seca, calor, enchentes ou fumaça.
O corpo em desenvolvimento também responde de forma mais sensível. Calor extremo, baixa qualidade do ar, doenças diarreicas, desnutrição e interrupção de vacinas podem produzir efeitos mais graves quando atingem bebês, crianças pequenas e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
Por isso, a preparação precisa começar antes da emergência. Esperar a escola fechar, o posto de saúde ficar isolado ou uma comunidade perder acesso à água significa agir quando o dano já começou.
O que os serviços públicos podem fazer antes da crise
A preparação passa por manter serviços essenciais funcionando mesmo durante eventos extremos. Isso inclui revisar planos de risco nas escolas, garantir alternativas para continuidade da aprendizagem, proteger fontes de água, organizar insumos para tratamento e antecipar medicamentos e materiais de saúde em áreas vulneráveis.
Na saúde, a vigilância epidemiológica precisa observar doenças que atingem crianças com mais força. Vacinação, equipes de saúde da família, medicamentos essenciais, atendimento em áreas remotas e detecção precoce de desnutrição são partes concretas dessa resposta.
Na proteção social, a atualização de cadastros pode reduzir o tempo de resposta. Famílias em áreas de risco precisam ser identificadas antes do desastre para que benefícios, acolhimento, água, alimentação e outros serviços cheguem mais rápido quando o evento extremo ocorrer.
O papel da adaptação climática
A adaptação climática precisa colocar crianças e adolescentes no centro do planejamento. Publicação recente sobre adaptação sensível à infância orienta estados e municípios a incorporarem direitos e necessidades de crianças em planos subnacionais, com foco em resiliência, serviços essenciais, gestão de riscos e participação.
O Brasil também tem buscado organizar protocolos para proteção de crianças e adolescentes em situações de riscos e desastres. A revisão apresentada na COP30 envolve articulação entre direitos humanos, defesa civil, assistência social, educação e proteção integral, com participação de órgãos federais e apoio técnico especializado.
Essa articulação importa porque o impacto climático raramente chega por uma porta só. Uma enchente pode afetar escola, renda, moradia, vacinação e alimentação ao mesmo tempo; uma seca pode atingir água, agricultura, transporte, saúde respiratória e permanência escolar.
O que está em jogo para as famílias
Para uma família, o El Niño não aparece como gráfico meteorológico. Ele aparece quando a água falta, quando a fumaça piora a respiração de uma criança, quando a escola fecha, quando o transporte não chega ou quando o preço da comida sobe.
A prevenção custa menos do que a resposta tardia. Preparar escolas, unidades de saúde, sistemas de água, abrigos, cadastros sociais e planos de comunicação pode evitar que um evento climático se transforme em uma emergência prolongada para a infância.
A informação clara também protege. Famílias precisam saber quais riscos podem crescer em sua região, quais serviços procurar, como se hidratar, como agir em enchentes, como proteger crianças da fumaça e onde buscar ajuda quando o serviço local é interrompido.
Infância, clima e desigualdade
O El Niño tende a revelar desigualdades que já existiam antes dele. Crianças que vivem em áreas sem saneamento, em moradias vulneráveis, em regiões de difícil acesso ou em famílias com baixa renda costumam ter menos proteção quando a crise climática chega.
A emergência climática não começa igual para todos. Para quem tem água armazenada, transporte, internet, plano de saúde e moradia segura, o impacto pode ser desconfortável; para quem depende integralmente de serviços públicos frágeis, pode ser perda de aula, doença, fome, isolamento ou deslocamento.
É por isso que proteger crianças durante o El Niño também é política de redução de desigualdades. O objetivo não é apenas atravessar um ciclo climático forte, mas construir uma rede de proteção capaz de responder aos próximos extremos com menos improviso e mais cuidado.
O que o alerta revela sobre o país
O alerta sobre o El Niño mostra que a crise climática já entrou na agenda cotidiana da infância brasileira. Ela afeta a escola, a saúde, a alimentação, a água, a renda da família e a segurança de comunidades inteiras.
O Brasil já sabe onde os extremos costumam machucar mais. A tarefa agora é transformar previsão climática em planejamento público, com prioridade para crianças e adolescentes que têm menos capacidade de se proteger sozinhos.
Quando a infância é colocada no centro da adaptação, o país não protege apenas uma geração. Ele protege escolas, famílias, serviços públicos e territórios que precisarão enfrentar eventos climáticos cada vez mais intensos com mais preparação e menos sofrimento.
Relacionadas, Fontes e documentos:
- Congresso eleito terá maioria distante da pauta ambiental (Fonte em Foco)
- Ciclone muda o tempo no Brasil (Fonte em Foco)
- Prêmio reconhece pesquisas sobre economia e clima (Fonte em Foco)
- Guimarães Rosa já via no Cerrado um personagem ameaçado (Fonte em Foco)
- Jardim Botânico mostra a força do Cerrado (Fonte em Foco)
- Brasil: 30 milhões de crianças estão expostas aos riscos climáticos (Agência Brasil)
- Mais de 347 milhões de crianças em quase 100 países serão expostas a um dos eventos de El Niño mais fortes já registrados (Fundo das Nações Unidas para a Infância)
- Quase metade das crianças do mundo está exposta a pelo menos três ameaças climáticas, alerta UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância)
- Boletim do Painel El Niño nº 04 aponta El Niño muito forte e impactos distintos entre as regiões (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais)
- Painel El Niño 2026-2027: quarto boletim sobre o monitoramento do fenômeno no Brasil é publicado (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)
- Adaptação sensível a crianças e adolescentes (Fundo das Nações Unidas para a Infância)

