O dinheiro público que aparece na decisão
A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, sobre a Operação Make Up abre uma janela rara para dentro de uma investigação sobre dinheiro público, emendas parlamentares, empresas privadas e a produção de Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. O documento não apresenta apenas uma suspeita genérica. Ele descreve um roteiro de recursos, contratos, cotações, notas fiscais, entidades, fornecedores e movimentações financeiras que, segundo a Polícia Federal, podem ter servido para maquiar o destino real de valores públicos.
A investigação parte de emendas parlamentares, termos de fomento e contratos públicos que chegaram ao Instituto Conhecer Brasil, entidade presidida por Karina Ferreira da Gama, produtora ligada ao filme Dark Horse.
A decisão cita como núcleo federal mais direto da apuração os R$ 2 milhões em emendas de Mário Frias efetivamente recebidos pelo Instituto Conhecer Brasil. O documento também menciona contratos e recursos municipais ligados ao ICB, especialmente no contexto de projeto de wi-fi gratuito em comunidades periféricas de São Paulo.
R$ 1.000.000,00
Origem indicada: Emenda nº 202444230008, de Mário Frias.
Destinatário indicado: Instituto Conhecer Brasil.
Situação descrita: recurso recebido pelo ICB e vinculado ao Termo de Fomento nº 971232.
R$ 1.000.000,00
Origem indicada: Emenda nº 202444230014, de Mário Frias.
Destinatário indicado: Instituto Conhecer Brasil.
Situação descrita: recurso recebido pelo ICB e vinculado ao Termo de Fomento nº 964068.
R$ 108 milhões
Origem indicada: contrato entre o ICB e a Prefeitura de São Paulo.
Destinatário indicado: Instituto Conhecer Brasil.
Situação descrita: valor inicial estimado para implantação e manutenção de wi-fi gratuito em comunidades periféricas, posteriormente ampliado por aditivos.
R$ 26.000.000,00
Origem indicada: recursos de projeto cultural provenientes da Prefeitura de São Paulo.
Destinatário indicado: Instituto Conhecer Brasil.
Situação descrita: valor identificado em comunicação financeira do ICB.
R$ 47.345.605,00
Origem indicada: Prefeitura Municipal de São Paulo.
Destinatário indicado: Instituto Conhecer Brasil.
Situação descrita: valor apontado como principal fonte de créditos em outra comunicação financeira do ICB.
O bloco federal e o bloco municipal aparecem conectados porque, segundo a investigação, o ICB passou a ocupar papel de principal captador de recursos dentro da rede analisada. A partir daí, os relatórios financeiros apontam circulação expressiva de valores entre o Instituto Conhecer Brasil, empresas contratadas, a Academia Nacional de Cultura e pessoas ligadas ao núcleo investigado.
Para onde os recursos deveriam ir
O Termo de Fomento nº 971232 tinha destinação oficial vinculada ao projeto “Jovem Empreendedor”. O documento menciona materiais pedagógicos físicos, kit pedagógico digital, plataforma de treinamento, manutenção de plataforma, divulgação, serviços jurídicos, serviços contábeis e acompanhamento na plataforma Transferegov.
O Termo de Fomento nº 964068 tinha como objeto a implementação e o desenvolvimento do projeto “Lutando Pela Vida” no Estado de São Paulo. A decisão cita atividades ligadas a esportes de combate, atendimento de beneficiários, instrutores e materiais como quimonos, faixas, uniformes e placas de tatame.
O contrato municipal citado na decisão tinha como finalidade a implantação e manutenção de pontos de wi-fi gratuito em comunidades periféricas de São Paulo. A investigação, porém, passou a examinar a capacidade técnica do ICB, a subcontratação de empresas privadas e a circulação posterior dos valores.
Uma teia de empresas aparece no caminho do dinheiro
A decisão descreve um emaranhado de entidades, empresas, fornecedores, prestadores de serviço e pessoas físicas que aparecem ligados aos projetos financiados com recursos públicos. O ponto central não é apenas a quantidade de nomes. É a forma como eles se cruzam.
No centro da engrenagem estão o Instituto Conhecer Brasil e a Academia Nacional de Cultura, ambos presididos por Karina Ferreira da Gama. Também aparece a Go Up Entertainment, empresa relacionada à produção de Dark Horse, além da GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural, ligada ao mesmo núcleo empresarial.
A investigação ainda menciona empresas contratadas pelo ICB nos termos de fomento, como Dinâmica Editora, Instituto Super Poder Educacional, MTS Assessoria, Marcelo Machado 7 Comunica, LF&P Consulting e Projetus. Em vários casos, a decisão aponta relações societárias, vínculos pessoais, participação em campanhas, proximidade com Mário Frias ou inconsistências documentais nas cotações e contratações.
O documento também descreve empresas envolvidas na circulação de valores oriundos de contratos mais amplos do ICB, como Complexsys, Fastfuture, Ultra IP, Urban Connect, Make One, Orbis, Talk Telecom e Tech Solutions. Parte dessas empresas, segundo a decisão, recebeu recursos do ICB e depois fez repasses a outras pessoas jurídicas, à Academia Nacional de Cultura ou a empresas ligadas ao núcleo investigado.
A leitura geral é incômoda: o dinheiro não seguiu uma linha reta. Ele aparece em curvas, ramificações, subcontratações e retornos. E é justamente essa geometria torta que a Polícia Federal tenta decifrar.

O que a investigação aponta sobre direcionamento
A suspeita descrita pela Polícia Federal é que recursos públicos tenham sido distribuídos por meio de contratações com aparência formal, mas com indícios de direcionamento, simulação de cotação, vínculos cruzados e execução insuficiente.
No projeto “Jovem Empreendedor”, a decisão afirma que a contratação da Dinâmica Editora, de R$ 400.000,00, foi precedida por três orçamentos apresentados pelo mesmo valor. A CGU apontou identidade de textos, ausência de especificações técnicas básicas e metadados sugerindo criação dos arquivos no mesmo dia, em curto intervalo e pela mesma usuária.
A empresa contratada, Dinâmica Editora, tem ligação com a HD Cultural por meio de Dayvid Moreira Medeiros. A própria HD Cultural teria reconhecido ter produzido as obras, enquanto a Dinâmica teria atuado na comercialização e distribuição. Para a investigação, esse arranjo enfraquece a ideia de propostas independentes.
No kit pedagógico digital, de R$ 300.000,00, o documento aponta funcionamento semelhante. As mesmas empresas aparecem nas cotações, os arquivos teriam estrutura parecida e a média dos orçamentos era de R$ 210.000,00, enquanto o plano aprovado previa R$ 300.000,00. A diferença, segundo a decisão, não foi justificada previamente nos documentos analisados.
O Instituto Super Poder Educacional, contratado para esse item, é administrado por Pamella Cristiane Dias, irmã de Heric Fabiano Dias. Heric aparece como administrador da NTT Brasil, empresa que depois transferiu R$ 750.000,00 à Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse.
A própria decisão ressalva que os elementos disponíveis não permitem afirmar, de forma conclusiva, que os R$ 750.000,00 enviados pela NTT Brasil à Go Up vieram diretamente dos valores pagos pelo ICB. Ainda assim, a coincidência de montantes, o vínculo empresarial e a proximidade temporal foram considerados relevantes pela autoridade policial.
Contratos, notas fiscais e documentos fora de ordem
A decisão descreve uma sequência de documentos que, segundo a CGU e a Polícia Federal, fragiliza a regularidade das contratações.
Na contratação da Dinâmica Editora, a nota fiscal teria sido emitida antes da criação do orçamento que deveria embasar a contratação. O contrato, segundo o documento, só teria sido assinado em julho de 2026, após pedido formal da CGU. A entrega dos materiais teria ocorrido 465 dias depois da nota fiscal e fora da vigência do termo de fomento.
Para melhor visualizar essa estranheza, imagine uma obra em casa. O prestador apresenta a nota fiscal hoje, só faz o orçamento depois, assina o contrato muito mais tarde e entrega o serviço quando o prazo original já acabou. Mesmo que exista papel para tudo, a ordem dos acontecimentos deixa de contar uma história normal. Será um roteiro de filme?
Na contratação do Instituto Super Poder Educacional, os metadados do orçamento indicariam criação minutos depois da emissão da nota fiscal. A plataforma digital associada ao projeto teria sido registrada apenas em março de 2026, mais de 11 meses após a nota fiscal e depois do fim da vigência do termo.
Na MTS Assessoria, contratada por R$ 150.000,00, a empresa informou que as atividades ainda não haviam sido iniciadas porque a plataforma estava em fase de testes. Mesmo assim, segundo a decisão, recebeu integralmente o valor contratado.
Na Marcelo Machado 7 Comunica, contratada por R$ 50.000,00, a CGU não identificou evidências concretas da execução dos serviços de divulgação. O documento registra ausência de links, peças, registros fotográficos, postagens ou comprovação efetiva das ações descritas.
Na LF&P Consulting, contratada por R$ 80.000,00, a investigação destaca que a empresa pertence a Fábio Lago Meirelles, advogado de Mário Frias. A decisão também registra que uma das empresas usadas na cotação, a PMR Advocacia, negou a autenticidade do orçamento apresentado em seu nome.
O circuito financeiro descrito pela decisão
A decisão não descreve apenas contratos problemáticos. Ela apresenta um circuito financeiro.
Segundo a reconstrução da Polícia Federal, o ICB aparece como principal captador de recursos da rede investigada. Depois, valores são distribuídos a empresas como Complexsys, Fastfuture, Ultra IP e Urban Connect. Algumas dessas empresas, por sua vez, repassam dinheiro a outras pessoas jurídicas e à Academia Nacional de Cultura.
A Academia Nacional de Cultura aparece de forma repetida como destinatária de recursos vindos de empresas financiadas pelo ICB. A decisão aponta registro de R$ 6.175.273,64 enviados à entidade. Para a investigação, isso sugere possível retorno de recursos públicos à esfera de disponibilidade dos responsáveis pela organização social.
A Go Up Entertainment também aparece no centro da análise. Entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, período coincidente com as filmagens de Dark Horse, a empresa movimentou R$ 19.033.071,00. Entre os remetentes citados no documento estão Moneycorp Banco de Câmbio, GO7 Assessoria, NTT Brasil e o próprio Mário Frias.
O documento destaca que Mário Frias transferiu R$ 645.400,00 à Go Up em menos de 60 dias. A decisão registra que os rendimentos mensais do parlamentar alcançavam R$ 44.008,52, o que colocou em questão, para a investigação, o lastro financeiro das transferências feitas à empresa de Karina Gama.
Pense em uma caixa d’água abastecida por dinheiro público. Em vez de a água seguir por um cano transparente até o projeto prometido, ela entra em vários ramais: fornecedor, subcontratada, empresa ligada, entidade relacionada, produtora. No fim, a água aparece em outro reservatório, mas a pergunta fica: veio de qual cano, passou por quem e por que deu tantas voltas?
É isso que a decisão tenta organizar. O problema não é apenas o dinheiro sair. É ele sair com uma finalidade, circular por uma rede difícil de enxergar e reaparecer perto de um destino politicamente sensível.

A ponte com o filme Dark Horse
O filme Dark Horse aparece na decisão como ponto de convergência entre a rede empresarial de Karina Gama, a atuação de Mário Frias e os fluxos financeiros analisados.
A Go Up Entertainment é identificada como empresa responsável pela produção do filme. O documento registra que as filmagens ocorreram em São Paulo entre outubro e dezembro de 2025, período próximo às movimentações financeiras da produtora.
Entre os gastos da Go Up, a decisão destaca pagamentos a empresas de hotelaria, alimentação e produção. O Hotel Unique recebeu R$ 906.768,44; a Foodflix Alimentação recebeu R$ 653.155,00; J D da Silva Produções recebeu R$ 264.700,00; e Mazal Produções recebeu R$ 227.561,00.
A investigação não afirma, de forma conclusiva, que recursos públicos de emendas financiaram diretamente o filme. O que ela apresenta é uma hipótese investigativa: valores associados a contratos executados pelo ICB, após passarem por empresas com indícios de fraude, podem ter sido direcionados à Go Up por meio da NTT Brasil.
Essa distinção importa. A hipótese é grave, mas ainda precisa de prova. A decisão autoriza busca, apreensão e medidas cautelares justamente para tentar confirmar ou afastar esse caminho do dinheiro.
Os crimes investigados
A Polícia Federal trabalha, segundo a decisão, com hipóteses de crimes relacionados a desvio de recursos públicos, fraude em contratações, falsificação de documentos, falsidade ideológica, uso de documento falso, lavagem de dinheiro, organização criminosa, emprego irregular de verbas públicas e advocacia administrativa.
O documento cita, em tese, a atuação de Mário Frias, Karina Gama, representantes das entidades beneficiárias, administradores de empresas contratadas e outros indivíduos ainda não identificados.
A suspeita central é que uma organização estruturalmente ordenada tenha atuado para captar, circular, ocultar e reintroduzir valores no sistema econômico formal. A investigação descreve contratações simuladas, produção de documentos, pagamentos sem comprovação suficiente e uso de pessoas jurídicas interpostas.
Ainda assim, o cuidado jurídico é obrigatório. A decisão não é sentença. Os citados não estão condenados pelos fatos narrados. O que existe, nesta fase, é um conjunto de indícios considerado suficiente por Dino para autorizar medidas de busca, apreensão, avocação de investigação e cautelares pessoais.
Impacto político
O primeiro impacto político recai sobre Mário Frias. A decisão o coloca, na leitura da Polícia Federal acolhida para fins cautelares, além da posição de autor de emendas. A representação diz que as movimentações financeiras o colocam como participante ativo da engrenagem investigada.
Isso muda o peso público do caso. Uma coisa é um parlamentar destinar emenda a uma entidade que depois apresenta problemas de execução. Outra é a investigação apontar relações pessoais, políticas e financeiras entre o parlamentar, a entidade beneficiada, empresas contratadas e a produtora do filme.
O segundo impacto atinge o campo político associado a Dark Horse. A obra não é um filme neutro dentro da disputa pública. É uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, produzida por empresa ligada a Karina Gama e com Mário Frias como produtor executivo. Se a investigação avançar sobre a origem do dinheiro usado na produção, a discussão deixa de ser apenas cultural e passa a ser financeira, eleitoral e judicial.
O terceiro impacto envolve o mecanismo das emendas parlamentares. A decisão mostra como a emenda pode sair do gabinete com destino formalmente legítimo, passar por organização social, entrar em contratos e se espalhar por uma rede de fornecedores. Quando a execução é frágil e a prestação de contas não acompanha o dinheiro, o controle público chega atrasado.
O quarto impacto atinge a governança de parcerias com organizações sociais. A decisão aponta falhas de análise técnica, fragilidades em planos de trabalho, ausência de comprovação de capacidade operacional e deficiência de monitoramento. Em português direto: o dinheiro andou mais rápido que a fiscalização.
Quando o dinheiro público veste fantasia de projeto social
A decisão de Flávio Dino é explosiva não porque fale de cinema, mas porque fala de método. O filme é o cartaz na parede. A investigação está olhando para o porão.
O que aparece no documento é uma engrenagem em que emenda parlamentar, termo de fomento, organização social, fornecedor privado, nota fiscal, orçamento, relatório e contrato formam uma espécie de teatro administrativo. Tudo com aparência de legalidade. Tudo com papel. Tudo com carimbo. Tudo com nome bonito de projeto.
Mas papel não ensina jovem empreendedor. Nota fiscal não treina multiplicador. Contrato não entrega tatame. Orçamento igual não prova concorrência. Plataforma criada depois não demonstra serviço prestado antes. E projeto social que só existe quando a fiscalização pergunta não é política pública. É maquiagem.
A Operação Make Up tem um nome quase didático. A suspeita central é justamente essa: uma cobertura formal sobre uma pele institucional cheia de manchas. Em tese, recursos destinados a projetos sociais teriam passado por entidades e empresas até se aproximarem da produção de uma cinebiografia politicamente simbólica. Não é pouca coisa. É dinheiro público entrando por uma porta social e, segundo a hipótese investigativa, podendo sair por um corredor cinematográfico.
O ponto mais grave é que a suposta fraude, se confirmada, não precisou arrombar o Estado. Ela teria usado a chave do próprio Estado. Emenda parlamentar, convênio, termo de fomento, prestação de contas, contrato administrativo, cotação de preços. A linguagem oficial servindo como figurino para uma possível operação de desvio.
É por isso que a resposta pública não pode terminar em busca e apreensão. A pergunta maior não é apenas quem recebeu.
É quem deixou passar?
Quem aprovou plano frágil?
Quem aceitou cotação suspeita?
Quem liberou pagamento sem entrega suficiente?
Quem viu vínculo cruzado e achou normal?
Quem fiscalizou depois que o dinheiro já tinha ido embora?
O Brasil conhece bem essa coreografia: projeto social na vitrine, empresa amiga no bastidor, documento ajeitado na gaveta e cidadão pagando a conta sem sequer saber que entrou como patrocinador involuntário. Se a investigação confirmar a trilha apontada na decisão, Dark Horse deixará de ser apenas um filme sobre poder. Passará a ser também um retrato incômodo de como o poder se financia quando ninguém está olhando direito.
Relacionadas, fontes e documentos:
- Dino proíbe Mario Frias de deixar o país (Fonte em Foco)
- PF mira Mario Frias em operação sobre filme de Bolsonaro (Fonte em Foco)
- Decisão PET 16669/DF — Operação Make Up (Supremo Tribunal Federal)

