Conscientização sobre epilepsia destaca acolhimento, tratamento e resposta correta durante crises
A história de Jéssica Sousa ajuda a traduzir, em escala humana, um problema de saúde que ainda costuma ser cercado por medo, desinformação e preconceito. Ela tinha 16 anos quando teve a primeira crise epiléptica. Depois disso, os episódios passaram a acontecer a cada três dias e alteraram profundamente sua rotina. Hoje, aos 36 anos, faz acompanhamento para epilepsia no Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), unidade administrada pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF).
Nesta quinta-feira, 26 de março, é celebrado o Dia Mundial de Conscientização sobre a Epilepsia, conhecido como Purple Day. A mobilização internacional ocorre todos os anos nessa data com o objetivo de ampliar a conscientização sobre a doença e reduzir o estigma enfrentado por quem convive com ela.
Doença neurológica ainda é cercada por estigma e desconhecimento
A epilepsia é uma condição neurológica crônica marcada por crises causadas por alterações temporárias na atividade cerebral. Segundo a Associação Brasileira de Epilepsia (ABE), cerca de 50 milhões de pessoas vivem com epilepsia ativa no mundo.
No material divulgado no DF, o chefe da Neurologia do Hospital de Base, André Ferreira, explica que as crises podem se manifestar de formas diferentes, desde alterações breves de consciência e desvio do olhar até convulsões com contrações intensas, gritos e perda de controle esfincteriano. O ponto central, segundo ele, é que o paciente fica vulnerável durante o episódio e depende da reação correta de quem está por perto.
É aí que mora um dos maiores problemas: muita gente ainda acha que sabe ajudar, quando na verdade atrapalha. Em epilepsia, improviso mal informado pode custar lesão, sufocamento e mais trauma para quem já está em sofrimento.
Protocolo C.A.L.M.A orienta como agir durante uma crise
Para orientar a população, a ABE divulga o protocolo C.A.L.M.A., voltado aos primeiros socorros em crises convulsivas. A orientação inclui colocar a pessoa de lado, apoiar e proteger a cabeça, afrouxar roupas, monitorar o tempo da crise e acompanhar até a recuperação, sempre evitando intervenções inadequadas.
No conteúdo sobre o caso de Jéssica, os especialistas também reforçam medidas práticas como proteger a pessoa de quedas, facilitar a respiração, permanecer ao lado dela até o fim da crise e manter a calma.
O que não deve ser feito também importa: não se deve segurar braços e pernas à força nem tentar colocar objetos na boca da pessoa. Essas condutas ainda circulam no senso comum, mas podem agravar o quadro e provocar ferimentos.
Tratamento e adesão mudam o curso da doença
Jéssica relata que demorou a aceitar o diagnóstico e, por muito tempo, recusou o tratamento medicamentoso. Segundo ela, a mudança de postura só veio depois de uma situação extrema, quando percebeu a gravidade do quadro e a necessidade de seguir corretamente o acompanhamento médico.
A experiência dela ajuda a iluminar um aspecto decisivo do cuidado: epilepsia não é apenas uma questão de crise convulsiva, mas também de adesão ao tratamento, apoio familiar e acompanhamento contínuo. Esse tripé costuma separar o controle possível do descontrole recorrente.
Saúde mental e acolhimento também entram no debate
O neurologista ouvido no DF ressalta que pessoas com epilepsia podem enfrentar impactos importantes na vida social e emocional. Segundo ele, estudos apontam maior risco de ansiedade e depressão, além de dificuldades nas relações pessoais, o que reforça a necessidade de acolhimento e informação pública qualificada.
O Purple Day existe justamente para isso: transformar desconhecimento em orientação e preconceito em entendimento. A cor roxa até chama atenção, mas o que realmente importa é o que vem junto dela — menos julgamento, mais informação e uma chance maior de alguém saber agir certo quando a crise acontece.
Fontes e documentos:
– Saiba o que fazer em uma crise epiléptica e ajude a salvar vidas (Agência Brasília)
– Epilepsia (Associação Brasileira de Epilepsia)
– CALMA (Associação Brasileira de Epilepsia)
– Purple Day – Supporting Epilepsy Around The World! (Purple Day)
– Purple Day (Epilepsy Foundation)

