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Flávio Bolsonaro: possível fuga e investigações no STF

Publicado em

Reportagem:
Marta Borges

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Aliados relatam viagem aos Estados Unidos depois da derrota eleitoral, enquanto a Polícia Federal cancela passaportes e apura o paradeiro do parlamentar

Flávio Bolsonaro teria deixado o Brasil após ordem do STF e possível fuga aumenta pressão sobre o senador

Dois dias depois de perder a eleição presidencial, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) está no centro de uma suspeita de fuga do Brasil. Nesta terça-feira (27 de outubro), pessoas próximas ao senador e uma fonte do governo norte-americano confirmaram sua viagem aos Estados Unidos. O deslocamento teria ocorrido após uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que o proibiu de deixar o país.

A Polícia Federal cancelou os passaportes do parlamentar porque ele não os entregou no prazo determinado pela Justiça. Até as informações disponíveis nesta terça-feira à tarde, não havia confirmação oficial sobre como Flávio teria saído do território brasileiro.

O episódio reúne três questões de grande interesse público: o cumprimento de uma ordem judicial, as investigações criminais em andamento e o fim do mandato de senador, previsto para janeiro de 2027.

Ordem judicial e passaportes cancelados

Na segunda-feira (26), o ministro Alexandre de Moraes determinou que Flávio Bolsonaro entregasse seus passaportes e não deixasse o Brasil. A medida foi adotada no âmbito de uma investigação que envolve o senador e o advogado Willer Tomaz.

Flávio tornou pública a decisão e afirmou que não pretendia sair do país. Também declarou que entregaria os documentos e se defenderia das suspeitas.

Na terça-feira, porém, o prazo terminou sem que a entrega fosse realizada. Diante do descumprimento, a Polícia Federal cancelou os passaportes e iniciou os procedimentos para comunicar o ocorrido ao STF.

Ao mesmo tempo, surgiram informações de que o senador teria atravessado a fronteira com a Argentina e seguido para os Estados Unidos. Autoridades argentinas não confirmaram sua entrada no país.

Relatos de aliados e de uma fonte norte-americana reforçam a informação de que houve uma viagem, mas ainda não esclarecem a rota utilizada nem todas as circunstâncias da saída.

A existência de uma proibição judicial torna essa questão especialmente relevante. O problema deixa de ser apenas a decisão pessoal de viajar e passa a envolver o possível descumprimento de uma determinação da Justiça.

Quais investigações envolvem Flávio Bolsonaro?

O senador é alvo de investigações no Supremo Tribunal Federal que tratam de suspeitas financeiras e de outras possíveis infrações. Nenhuma dessas apurações, por si só, equivale a uma condenação.

Uma das investigações examina suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a movimentações envolvendo empresas de apostas e plataformas de pagamento associadas ao advogado Willer Tomaz.

Outra apura o financiamento de Dark Horse, produção audiovisual sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro. O caso envolve suspeitas relacionadas à origem e à movimentação de recursos destinados ao projeto.

Há ainda uma investigação sobre possível calúnia contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, relacionada a uma publicação nas redes sociais.

Esses procedimentos procuram esclarecer condutas específicas e identificar eventuais responsabilidades. Sua existência não autoriza concluir antecipadamente que o parlamentar praticou os crimes investigados.

O ponto novo é que a discussão sobre o cumprimento da ordem de entrega dos passaportes ocorre enquanto essas apurações continuam em andamento.

Por que o fim do mandato de senador importa?

Flávio Bolsonaro deixará o Senado em 31 de janeiro de 2027, depois de não conquistar a Presidência da República. Com o encerramento do mandato, ele perderá a condição de parlamentar federal que fundamenta parte de suas prerrogativas constitucionais.

Isso não significa, entretanto, que todos os processos contra ele sairão automaticamente do Supremo.

Em março de 2025, o STF estabeleceu que a competência do tribunal permanece, mesmo depois da saída do cargo, para crimes supostamente praticados durante o exercício da função e relacionados a ela.

Na prática, o destino de cada investigação dependerá da natureza dos fatos apurados e das regras de competência aplicáveis. O fim do mandato não extingue investigações nem determina, sozinho, a transferência de todos os casos para a primeira instância.

A derrota presidencial também tem consequências jurídicas próprias. Caso tivesse sido eleito e assumido a Presidência, Flávio estaria sujeito às regras constitucionais específicas de responsabilização criminal do presidente da República.

A proximidade de 2027 pode ter influenciado a decisão?

A perda do mandato é um fator relevante para compreender a situação política e jurídica do senador, mas não comprova o motivo de uma eventual fuga.

O temor de medidas judiciais, a intenção de permanecer no exterior e a possibilidade de buscar proteção política são hipóteses que precisam ser avaliadas à luz de fatos verificáveis.

A sequência dos acontecimentos chama atenção: derrota eleitoral no domingo, determinação de entrega dos passaportes na segunda-feira e relatos de saída do Brasil na terça-feira.

Essa proximidade temporal justifica o escrutínio público. Não permite, porém, afirmar como fato que o senador decidiu viajar por reconhecer sua própria culpa.

Uma possível fuga não é prova de culpa, mas exige explicações

A crítica mais séria à postura atribuída a Flávio Bolsonaro não depende de presumir sua culpabilidade nas investigações. Ela está na possibilidade de um agente público ter desobedecido a uma ordem judicial enquanto ainda ocupa um cargo eletivo.

O senador tem direito à defesa, à presunção de inocência e ao questionamento das decisões judiciais pelos instrumentos previstos em lei. Esses direitos são essenciais, inclusive quando o investigado é uma figura política de grande projeção.

O que não se pode confundir é o direito de contestar uma decisão com a liberdade de simplesmente ignorá-la. Se a saída do país ocorreu depois da proibição determinada pelo STF, será necessário esclarecer como isso aconteceu e quais consequências jurídicas decorrem da conduta.

Há também uma contradição política que merece atenção. Na segunda-feira, Flávio afirmou publicamente que não pretendia deixar o Brasil. No dia seguinte, pessoas próximas a ele relataram uma viagem internacional.

Cabe ao parlamentar esclarecer essa diferença, assim como as razões para não ter entregue os passaportes no prazo estabelecido.

O peso político de evitar o esclarecimento

Se confirmada uma saída deliberada para escapar do alcance da Justiça, a conduta representará uma grave quebra de responsabilidade institucional. Um senador não está dispensado de cumprir determinações judiciais por ter disputado a Presidência, perdido uma eleição ou discordado dos investigadores.

O fim próximo do mandato aumenta a importância da transparência. A sociedade tem o direito de saber se um representante eleito pretende permanecer disponível para responder aos procedimentos que o envolvem.

Mas há uma distinção decisiva: tentar evitar uma investigação pode indicar resistência à atuação da Justiça, não constitui prova de que os crimes investigados foram cometidos. A responsabilidade por esses crimes depende de provas e de decisões judiciais, não de interpretações sobre o comportamento do investigado.

A crítica, portanto, não é que uma eventual fuga demonstre necessariamente culpabilidade. É que um político que reivindica confiança pública deve enfrentar questionamentos institucionais pelos caminhos legais, e não criar novas dúvidas sobre sua disposição de prestar contas.

Para a democracia, essa exigência vale independentemente de partido, sobrenome ou resultado eleitoral.

Relacionadas, fontes e documentos:

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