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Marajó une tradição e ciência na era dos búfalos

Publicado em:

Repórter: Fabíola Fonseca

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Entre búfalos, sabores e saberes: o Marajó que se reinventa antes da COP30

Em Soure, na Ilha de Marajó, as crianças trocam o videogame por um cenário singular: nadar e brincar entre búfalos nas áreas alagadas. O que começa como uma tarefa de adestramento vira um mergulho no imaginário local, onde o animal símbolo do arquipélago é também companheiro de infância. O búfalo é onipresente no cotidiano marajoara. O rebanho, estimado entre 650 mil e 800 mil cabeças, é o maior do país e concentra-se principalmente nos municípios de Soure, Chaves e Cachoeira do Arari. Está nas ruas em esculturas, nas fazendas como meio de transporte, na culinária em forma de queijo e carne, e até na polícia montada. O animal representa não apenas a economia local, mas a identidade e o orgulho da região. Essa relevância inspirou a família da Fazenda e Empório Mironga a idealizar um projeto inédito: o Centro de Estudos da Bubalinocultura, ou como o proprietário Carlos Augusto Gouvêa, o Tonga, chama, “a universidade do búfalo”. O espaço, ainda em fase de concepção, pretende ser o primeiro do país voltado ao estudo da genética, manejo e aproveitamento integral do búfalo. “Precisamos estudar o búfalo em todas as dimensões — genética, nutrição, manejo, sanidade, aproveitamento do leite, da carne e do couro. E isso envolve várias áreas, da zootecnia ao turismo”, explica Tonga. Enquanto o centro não sai do papel, a fazenda encontrou outra forma de difundir conhecimento: a Vivência Mironga, criada em 2017. A iniciativa de turismo pedagógico permite que visitantes conheçam o cotidiano rural, acompanhem a produção de queijo artesanal e aprendam sobre práticas agroecológicas. “O turismo se tornou nosso principal negócio. Hoje, dois terços da renda vêm das visitas. Em setembro, tivemos um recorde de 400 turistas”, afirma Gabriela Gouvêa, filha de Tonga e presidente da Associação dos Produtores de Leite e Queijo do Marajó (APLQM). O queijo do Marajó, feito de leite cru com técnicas centenárias, conquistou Indicação Geográfica do INPI e uma regulamentação sanitária própria após longa luta dos produtores — um marco que teve participação ativa da família Mironga, com apoio do Sebrae.

Culinária afetiva e novos sabores marajoaras

No centro de Soure, o Café Dona Bila traduz o encontro entre tradição e afeto. À frente do negócio está Lana Correia, uma cearense que transformou o amor pela cozinha em empreendimento cultural. “Comecei com delivery e abri o espaço porque queria que tivesse o clima de casa. As pessoas dizem que, quando comem aqui, lembram da infância e da casa da avó”, conta. O cardápio mistura a culinária nordestina com os ingredientes do Marajó, e os pratos mais pedidos são a tapioca molhada com queijo e carne de búfalo, o cuscuz recheado e o bolo de milho cremoso. Com a aproximação da COP30, que será realizada em Belém, Lana criou dois pratos especiais: o Cuscuz de Murrá, com filé de búfalo, e o Cuscuz Praia do Amor, feito com camarão e queijo marajoara. “Descobri um talento que nem sabia que tinha. O turismo e a gastronomia têm o poder de transformar vidas e fortalecer nossa cultura”, diz.

Entre tradição e sustentabilidade

A presença dos búfalos, contudo, também traz desafios. A pecuária é a segunda maior emissora de gases de efeito estufa no Brasil, segundo o SEEG (2023), com 405 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, resultado, em grande parte, da liberação de metano (CH₄) durante a digestão dos animais. O dilema ambiental pode se tornar um dos temas centrais da COP30, e a expectativa é que o futuro Centro de Estudos da Bubalinocultura contribua para investigar soluções sustentáveis.

O Marajó vive um momento de transição simbólica e econômica. Ao mesmo tempo em que reafirma suas tradições — o queijo artesanal, a culinária afetiva, o turismo comunitário — também se abre à ciência, à sustentabilidade e à economia criativa. A universidade do búfalo e as iniciativas de empreendedores locais representam uma nova fronteira amazônica: a que alia saber tradicional, conhecimento técnico e consciência ambiental. No horizonte da COP30, o arquipélago se apresenta não apenas como um recanto exótico, mas como um laboratório vivo da convivência entre cultura, economia e natureza — e isso, por si só, já é uma lição ao mundo.

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