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Pesquisa aponta quilombolas alinhados à justiça climática

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Reportagem:
Repórter: Paulo Andrade

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Levantamento mapeia comunicação e cultura como força política nos territórios

Uma pesquisa do Instituto Sumaúma mapeou práticas culturais e comunicacionais em comunidades quilombolas de todo o país e concluiu que esses territórios estão fortemente conectados às agendas de justiça climática, justiça racial e justiça territorial. O estudo, apresentado inicialmente na COP30, buscou documentar como ações de comunicação comunitária, memória, oralidade e produção cultural também funcionam como formas de organização política e defesa do território.

Segundo a pesquisadora quilombola Juliane Sousa, que atuou como consultora da pesquisa, o levantamento ajuda a tornar visíveis iniciativas que já existem há muito tempo, mas que costumam ficar fora do radar institucional. Para ela, esse tipo de dado também pode facilitar o acesso a editais e apoiar organizações que atuam com territórios quilombolas a pensar formas mais estratégicas de financiamento e fortalecimento dessas ações.

Estudo revela produção cultural ativa e pautas ligadas a direitos

De acordo com a pesquisa, foram ouvidos 53 agentes de comunicação por formulário online e realizado um grupo focal com oito lideranças quilombolas. Entre os conteúdos mais produzidos aparecem registros de comemorações locais (81%), plantio e colheita de alimentos (73,6%), artesanato (68%) e contação de histórias (64,2%).

Nas pautas debatidas por essas iniciativas, com possibilidade de múltiplas respostas, aparecem racismo (87%), políticas públicas (85%), educação (77,4%), problemas ambientais (70%), demarcação territorial (64%), titulação territorial (62,3%), acesso à renda (60%) e justiça climática (53%). O dado é importante porque desmonta a ideia de que comunicação quilombola trata apenas de tradição ou identidade cultural. Na prática, ela articula memória, denúncia, organização social e disputa por direitos.

Falta de dados e de apoio ainda limita direitos e visibilidade

A própria Juliane Sousa chama atenção para um déficit histórico de informação sobre a população quilombola. Ela lembrou que o primeiro Censo Demográfico do IBGE a identificar especificamente localidades e população quilombola ocorreu apenas em 2022. O IBGE informou que o país tinha 8.441 localidades quilombolas associadas a 7.666 comunidades naquele levantamento, um marco inédito para dar escala estatística a uma população historicamente subdimensionada.

Esse atraso na produção de dados não é mero detalhe técnico. Ele afeta diretamente o acesso a políticas públicas, orçamento e reconhecimento institucional. A pesquisa do Sumaúma também mostra dificuldades concretas na produção de conteúdo digital, sobretudo em áreas rurais, com relatos de falta de internet, limitação financeira para equipamentos e softwares e barreiras para compreender ou operar essas ferramentas. Além disso, mais de 40% dos entrevistados disseram não receber nenhuma renda pelas atividades culturais e comunicacionais que desenvolvem.

Mapa interativo tenta conectar comunidades, público e financiadores

Como desdobramento do estudo, o Instituto Sumaúma lançou um mapa interativo de acesso aberto para localizar iniciativas culturais e comunicacionais quilombolas. Segundo o instituto, a ferramenta permite mapear e compartilhar essas práticas em diferentes regiões do país, além de facilitar contato com comunicadores e agentes culturais dos territórios.

Entre os coletivos citados está a Rede Kalunga de Comunicação, criada em 2021 para contar, a partir do próprio território, as histórias das comunidades do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, em Goiás. A proposta do coletivo, segundo a pesquisa, é justamente romper a lógica de narrativa de fora para dentro e afirmar uma comunicação feita por quem vive a realidade quilombola.

Comunicação quilombola não é apêndice cultural, é infraestrutura de resistência

O ponto mais forte do estudo está em mostrar que comunicação, para os quilombos, não é só divulgação de evento ou registro folclórico. É ferramenta de permanência, afirmação identitária, circulação de conhecimento e defesa política do território. Quando uma comunidade registra colheita, oralidade, festa, denúncia ambiental ou disputa por titulação, ela não está apenas narrando a si mesma. Está produzindo existência pública.

Isso ajuda a entender por que justiça climática aparece junto de raça e território. Nos quilombos, essas agendas não andam separadas em gavetas acadêmicas. Elas se encontram no cotidiano. O mérito da pesquisa está justamente em dar forma mensurável a algo que essas comunidades vêm dizendo há muito tempo: sem visibilidade, o direito chega tarde; sem comunicação própria, às vezes nem chega.

Fontes e documentos:
– Quilombolas estão alinhados a agendas de justiça climática, diz estudo (Agência Brasil)
– Quilombolas implementam soluções para enfrentar a crise climática: pesquisa inédita do Instituto Sumaúma (Instituto Sumaúma)
– Censo 2022: Brasil possui 8.441 localidades quilombolas, 24% delas no Maranhão (IBGE)
– Instituto Sumaúma (site oficial)

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