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Pesquisa revela alta percepção de machismo e desrespeito

Publicado em:

Repórter: Paulo Andrade

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Quase metade das mulheres brasileiras — 46% — afirma não ser tratada com respeito no país. Nas ruas, o índice sobe para 49%. O dado é da 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, o maior levantamento do tipo no Brasil, realizado pelo DataSenado e Nexus, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV). O estudo ouviu mais de 20 mil mulheres em todo o território nacional e confirma que a desigualdade de gênero permanece como realidade cotidiana: 94% das entrevistadas classificam o Brasil como um país machista.

Segundo Marcos Ruben de Oliveira, coordenador do DataSenado, a atualização contínua dos dados ajuda o poder público a medir avanços, identificar retrocessos e planejar políticas de proteção. Ele afirma que o acompanhamento bienal permite compreender mudanças na percepção da violência e aprimorar legislações e serviços.

A percepção de machismo segue praticamente unânime desde 2017, quando o índice nunca ficou abaixo de 90%. Em 2025, a parcela que considera o Brasil muito machista subiu de 62% para 70%, o que significa cerca de 8 milhões de mulheres a mais com avaliação crítica sobre a desigualdade de gênero. Apenas 2% das entrevistadas afirmam não ver machismo no país.

O avanço dessa percepção acompanha a avaliação de que a violência doméstica aumentou. Cerca de 79% das mulheres dizem que a violência dentro de casa cresceu nos últimos 12 meses, retomando o maior patamar da série histórica.

As ruas continuam sendo citadas como o ambiente de maior desrespeito desde 2011. Embora tenha havido queda na comparação com 2023, quase metade das entrevistadas (49%) aponta o espaço público como o local onde sentem mais vulnerabilidade. Já o desrespeito dentro de casa cresceu quatro pontos percentuais, o equivalente a 3,3 milhões de mulheres a mais que passaram a enxergar o lar como ambiente inseguro. No trabalho, a percepção permanece estável, mas segue como o segundo espaço onde menos se sentem respeitadas.

Para Beatriz Accioly, antropóloga e líder de Políticas Públicas pelo Fim da Violência Contra Meninas e Mulheres do Instituto Natura, o aumento da sensação de desrespeito no próprio círculo íntimo reforça o vínculo entre desigualdade, violência doméstica e feminicídio. Ela afirma que os dados mostram que o perigo não está apenas na rua, mas também dentro de casa, onde, em tese, deveria haver proteção.

As diferenças na percepção de respeito também variam por região. No Sul, 53% das mulheres dizem que às vezes não são tratadas com respeito, o maior índice do país. No Nordeste, metade das entrevistadas (50%) considera que as mulheres não são respeitadas. O Sudeste aparece com 48%, seguido pelo Centro-Oeste (44%) e pelo Norte (41%). Apesar das variações, o sentimento de instabilidade é generalizado em todas as regiões.

Segundo Maria Teresa Prado, coordenadora do OMV no Senado, os números reforçam que a violência contra a mulher ultrapassa a esfera doméstica e se torna questão estrutural, com impactos sociais e econômicos de longo prazo.

O recorte por escolaridade revela desigualdades ainda mais marcantes. Entre mulheres não alfabetizadas, 62% dizem que as mulheres não são tratadas com respeito, índice bem acima do observado entre aquelas com ensino superior completo (41%). Mesmo entre universitárias, o respeito pleno é exceção: só 8% afirmam vivenciar esse cenário. Nas faixas de ensino médio e superior incompleto, mais da metade diz que o respeito ocorre apenas às vezes, o que evidencia que a escolaridade reduz, mas não elimina o peso do machismo estrutural.

A diretora executiva da Associação Gênero e Número, Vitória Régia da Silva, destaca que o cruzamento entre escolaridade e percepção de respeito mostra como a desigualdade educacional gera vulnerabilidade social. Mulheres com menor acesso à educação enfrentam mais situações de desrespeito e encontram mais obstáculos para denunciar ou acessar serviços de proteção.

Os resultados reforçam que a violência de gênero permanece como uma questão urgente e estrutural no Brasil, exigindo políticas robustas, permanentes e integradas para proteção, prevenção e garantia de direitos.

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