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Automedicação cresce e coloca idosos em risco

Publicado em

Reportagem:
Jeferson Nunes

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Quem cruza com Maria das Dores*, 69 anos, caminhando pelo shopping, não imagina o peso que ela carrega: décadas de automedicação. Moradora de Ceilândia há quase meio século, ela sempre recorreu ao balcão da farmácia para lidar com dores e incômodos do dia a dia. A ideia de que “um remedinho não faz mal” foi ganhando força, até virar um hábito difícil de abandonar.

O costume começou ainda na juventude, com comprimidos para dor de cabeça, garganta e cólicas. Ao longo dos anos, surgiram crises na coluna e, depois, vieram as preocupações com os filhos. O que era exceção virou rotina.

O episódio mais grave foi durante um quadro de herpes zóster. Sem procurar atendimento, Maria buscou orientação diretamente na farmácia. “Indicaram uma pomada e outros medicamentos. Depois, tive uma paralisia facial e passei a tomar ainda mais remédios. Quando percebi, estava cercada por cartelas e frascos”, lembra. A virada de chave veio quando o filho questionou a quantidade de medicamentos consumidos. “Agora sei que é perigoso, mas ainda tenho dificuldade de controlar. Tenho hipertensão, mas qualquer sintoma me faz procurar outro remédio.”

O risco por trás do hábito

A história de Maria é parte de uma realidade que se espalha pelo país. Dados do Ministério da Saúde mostram que o Brasil está entre os países que mais praticam automedicação, impulsionado pela facilidade de acesso, pela pressa cotidiana e pela crença equivocada de que certos medicamentos são inofensivos.

Para Álvaro Modesto, clínico e gastroenterologista do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal, a prática traz riscos importantes e, muitas vezes, invisíveis. Ele alerta que o alívio rápido pode mascarar doenças graves e atrasar diagnósticos. “Cada organismo reage de um jeito. O que funciona para um vizinho pode ser perigoso para outra pessoa. Aliviar o sintoma não resolve a causa, que pode piorar com o tempo”, explica.

Entre os problemas mais frequentes estão as interações entre medicamentos, lesões no fígado e nos rins — comuns no uso prolongado de analgésicos e anti-inflamatórios — e a resistência antimicrobiana, gerada pelo uso inadequado de antibióticos.

No caso de idosos, o risco é ainda maior. O metabolismo mais lento aumenta os efeitos das substâncias, e muitos já fazem uso diário de remédios para doenças crônicas. “Misturar medicamentos sem orientação pode causar tonturas, quedas, confusão mental e até internações”, afirma o médico.

O que fazer diante dos primeiros sintomas

O especialista reforça que o caminho mais seguro é sempre procurar atendimento médico. A automedicação só deve ser utilizada em situações muito específicas, com orientação profissional e limite claro de uso.

Principais recomendações:
• Nunca iniciar medicamentos sem orientação profissional.
• Não seguir sugestões de vizinhos, familiares ou internet.
• Manter apenas prescrições atualizadas.
• Evitar misturar remédios sem avaliação médica.
• Buscar acompanhamento regular, principalmente no caso de doenças crônicas.

Maria tenta, agora, mudar a própria história. Embora reconheça a dificuldade, segue orientação profissional e reduz gradualmente o hábito de recorrer ao balcão da farmácia. “Estou aprendendo que nem tudo precisa de remédio. Às vezes, o que eu precisava mesmo era de cuidado e atenção”, diz.

*Nome fictício para preservar a identidade da paciente.

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