Indústria sem avanço em 2025 pressiona emprego e renda no Brasil
A indústria de transformação terminou 2025 praticamente parada: o faturamento ficou estagnado, com variação de 0,1% em relação a 2024, segundo os Indicadores Industriais divulgados nesta sexta-feira (6) pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).
O dado tem efeito direto no cotidiano porque, quando a indústria perde ritmo, o ajuste costuma aparecer primeiro em horas de trabalho, massa salarial e contratações, antes de chegar às prateleiras como preço alto ou falta de oferta.
A virada do segundo semestre desmontou o ganho do início do ano
O retrato de 2025 é, sobretudo, um retrato de desaceleração. Em dezembro, o faturamento recuou 1,2% ante novembro, a quarta queda em seis meses, num padrão de perda de fôlego que se consolidou na segunda metade do ano.
Até junho, o acumulado ainda apontava alta de 5,7% frente ao mesmo período de 2024, mas a sequência negativa do segundo semestre virou o sinal.
Depois de 2024 forte, 2025 virou “freio de mão”
A estagnação de 2025 veio logo após um ano raro de expansão: em 2024, o faturamento industrial subiu 6,2%, a maior alta em 14 anos, o que torna o contraste ainda mais expressivo.
O problema é que a indústria não “desacelera” em silêncio: ela costuma reduzir intensidade antes de reduzir estrutura, e isso aparece nos indicadores de produção e no mercado de trabalho.
Horas trabalhadas e capacidade instalada reforçam a perda de tração
Em dezembro, o total de horas trabalhadas na produção caiu 1% na comparação com novembro, também pela quarta vez em seis meses. Ainda assim, o indicador fechou 2025 com alta de 0,8% no ano, sustentado pelo desempenho do primeiro semestre.
A Utilização da Capacidade Instalada (UCI) caiu 0,4 ponto percentual no mês, para 76,8%, e a média de 2025 ficou 1,2 ponto abaixo da de 2024, sinal de parque industrial rodando com menos intensidade.
Mercado de trabalho segurou o ano, mas salário real encolheu
No emprego industrial, dezembro registrou queda de 0,2% frente a novembro, no quarto recuo mensal seguido. Mesmo assim, o setor encerrou 2025 com crescimento de 1,6% no emprego, o que sugere que a desaceleração “mordeu” mais no fim do ano do que no conjunto dos 12 meses.
Já a renda mostrou desgaste mais claro: a massa salarial real caiu 0,3% em dezembro e acumulou redução de 2,1% em 2025; o rendimento médio real ficou praticamente estável no mês (+0,2%), mas fechou o ano com queda de 3,6% ante 2024.
Juros altos e importados entram no centro da explicação
Em nota divulgada junto aos indicadores, a especialista em Políticas e Indústria da CNI, Larissa Nocko, associa o enfraquecimento do setor ao patamar elevado dos juros, que encarece o crédito para empresas e consumidores, e ao avanço de importados — especialmente bens de consumo — ocupando espaço relevante do mercado interno.
O quadro descreve um mecanismo conhecido: com financiamento mais caro e competição externa mais forte, a demanda doméstica migra, a produção local desacelera e a indústria perde capacidade de sustentar ritmo de contratações e salários.

