back to top
24 C
Brasilia
quarta-feira, 10 junho 2026, 16:31
Publicidade
Publicidade
InícioBrasilJustiçaDo mercado ao STF, caso Master expõe rede de poder

Do mercado ao STF, caso Master expõe rede de poder

Publicado em

Reportagem:
Repórter: Marta Borges

Cobertura relacionada

STF veta atuação de enfermeiros em aborto legal

O Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria de votos...

STF debate pejotização e vínculo trabalhista em audiência pública

O Supremo Tribunal Federal (STF) realiza nesta segunda-feira (6)...

STF muda regra sobre posts ilegais nas redes

Artigo 19 do Marco Civil foi parcialmente derrubado pelo STF, ampliando responsabilidade das redes por posts ilegais.
Publicidade

Quando bilhões circulam com facilidade, a política costuma abrir caminho e o Judiciário vira arena de disputa. O caso do Banco Master revela como interesses econômicos avançaram sobre o Congresso, o mercado de carbono e chegaram ao Supremo Tribunal Federal.

A ascensão meteórica do Banco Master, comandado por Daniel Vorcaro, não se explica apenas por operações financeiras bem-sucedidas. Ela caminhou lado a lado com uma rede de alianças políticas, articulações legislativas e disputas abertas no Judiciário, agora sob escrutínio.

No centro desse enredo está o chamado mercado de carbono. Em 2024, uma emenda apresentada pelo deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), na reta final da tramitação da lei que regulamentou o setor, criou um mercado compulsório para créditos ambientais. O texto obrigava seguradoras e empresas de previdência privada a investir parte de suas reservas técnicas nesses ativos.

O impacto estimado: entre R$ 7 bilhões e R$ 9 bilhões por ano. Um volume comparável a todo o mercado voluntário global de créditos de carbono em 2024, segundo a CNSeg.

Autoridades passaram a suspeitar de uma possível conexão entre a emenda e investimentos feitos por Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, no mercado de carbono. O setor de seguros reagiu, alegando que a medida não tinha fundamento ambiental e criava uma distorção econômica grave. A norma foi judicializada.

No STF, o relator Flávio Dino votou pela inconstitucionalidade da emenda. Em seu entendimento, o Congresso escolheu quem tinha dinheiro disponível, não quem mais polui. Para o ministro, houve violação do princípio do poluidor-pagador, já que o ônus da política ambiental foi imposto a um setor que não figura entre os maiores emissores de gases de efeito estufa.

Enquanto isso, empresas ligadas aos Vorcaro, como Global Carbon e Golden Green, passaram a ser avaliadas em R$ 40 bilhões, apesar de terem sido criadas com capital social de apenas R$ 600. Na prática, a única comercialização confirmada de créditos ambientais declarada foi de cerca de US$ 6 mil.

O valor bilionário seria lastreado em supostos créditos gerados em uma área de 150 mil hectares na Amazônia, em Apuí (AM). O problema é que a área está sob disputa fundiária e sobreposta a um assentamento do Incra, o que coloca a propriedade da terra sob questionamento da União. Pela lei, qualquer projeto ali deveria beneficiar os assentados.

Paralelamente, o caso chegou de vez ao STF por outro flanco. O ministro Dias Toffoli decidiu permanecer como relator das investigações envolvendo o Banco Master, mesmo após pedido da Procuradoria-Geral da República para seu afastamento. Toffoli afirmou que todos os requerimentos da Polícia Federal e do Ministério Público Federal foram autorizados e que as apurações seguem sob responsabilidade dos órgãos de investigação.

A decisão não passou sem ruído. Toffoli foi enfático ao afirmar que não abriria mão do caso e lembrou, a críticos internos, que relações entre ministros e empresários não são episódios inéditos na história da Corte. Determinou novos depoimentos de diretores do banco e indicou que pretende alinhar diretamente com a cúpula da PF os próximos passos da investigação.

O resultado é um retrato incômodo: ganhos financeiros sob suspeita, legislação moldada para criar mercados bilionários e um Judiciário pressionado a arbitrar conflitos onde dinheiro e poder caminham juntos.

O caso Master, portanto, já não é apenas um problema de mercado. Tornou-se um teste de resistência institucional. E, até aqui, quem observa de fora tem a sensação de que o sistema segue funcionando — para poucos.

Newsletter

- Assine nossa newsletter

- Receba nossas principais notícias

Publicidade
Publicidade

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.