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Obras contra erosão avançam, mas cobram preço ambiental

Publicado em:

Repórter: Paulo Andrade

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Engordas e muros tentam segurar o mar, porém podem agravar o litoral

Obras como engordamento artificial de praias, molhes de pedra e muros de contenção têm avançado pelo litoral brasileiro como resposta ao aumento da erosão costeira. O problema é que, embora essas intervenções possam oferecer alívio localizado e imediato, pesquisadores alertam que elas também podem alterar a dinâmica natural das praias, afetar a qualidade da água e até deslocar a erosão para áreas vizinhas. Na semana passada, esse debate ganhou novo peso depois que o Ibama multou o governo do Paraná em R$ 2,5 milhões pelo uso de sacos plásticos com areia na contenção emergencial da erosão em Matinhos.

A multa impôs uma camada de constrangimento técnico e político a uma prática que, em muitos casos, é apresentada como solução rápida para um problema complexo. No litoral, a pressa costuma render obra visível. Já a conta ambiental, essa costuma chegar depois, com juros de maré.

Engorda de praia resolve um ponto e pode desorganizar outro

Municípios como Balneário Camboriú e Piçarras, em Santa Catarina, se tornaram vitrines do engordamento de praia, técnica que amplia artificialmente a faixa de areia. Mas pesquisadores da UFSC vêm alertando que esse tipo de intervenção não é neutro. Em nota técnica de 2025, o grupo apontou evidências de piora na balneabilidade e aumento do risco de afogamentos em praias alargadas, além de mudanças na circulação da água e no comportamento das ondas.

O oceanógrafo Alexander Turra, da USP e da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, resume o problema de forma direta: estruturas emergenciais podem conter areia de um lado, mas intensificar a erosão do outro. O resultado é o velho efeito dominó da ocupação costeira mal planejada: faz-se uma obra para salvar um trecho, depois outra para remediar o estrago da primeira, e assim o litoral vai sendo empurrado para uma engenharia reativa que nunca termina.

Quando se destrói a barreira natural, o concreto vira vício

Parte da vulnerabilidade atual não nasceu no mar, mas em terra firme. Ao longo de décadas, muitas áreas costeiras receberam empreendimentos turísticos e ocupação urbana sobre regiões naturalmente frágeis, com supressão de restingas, dunas e outros ecossistemas que funcionavam como proteção natural. Quando o avanço do mar chegou, a resposta foi frequentemente endurecer a borda com estruturas artificiais. O problema é que praia sem restinga e sem duna perde resiliência; praia com muro ainda por cima perde mobilidade.

Em vários pontos do litoral, isso já gerou uma distorção conhecida: hotéis, ruas e imóveis protegidos por contenções rígidas, enquanto a faixa de areia praticamente desaparece na maré alta. A obra salva a construção, mas sacrifica a praia. E uma praia sacrificada deixa de ser apenas paisagem afetada; vira também problema econômico, ambiental e urbano.

Soluções baseadas na natureza deixam de ser discurso lateral

É nesse ponto que pesquisadores e organizações ambientais defendem a ampliação das chamadas soluções baseadas na natureza. Em vez de tratar o litoral como uma linha fixa que precisa ser congelada por concreto, a proposta é reforçar ecossistemas que já cumprem, por conta própria, funções de proteção costeira. Manguezais, restingas, dunas e recifes de coral absorvem energia das ondas, ajudam a manter sedimentos no lugar e amortecem impactos de tempestades e ressacas.

A Fundação Grupo Boticário coordenou estudo segundo o qual os recifes de coral do Nordeste evitam algo em torno de R$ 160 bilhões em danos à infraestrutura costeira. Em outras palavras, a natureza presta serviço de proteção em escala bilionária sem nota de inauguração, sem placa de obra e sem cerimônia com autoridade de capacete.

Manguezais, dunas e restingas protegem mais do que a paisagem

A defesa dessas soluções não é romântica. Ela é funcional. Manguezais também armazenam grandes quantidades de carbono e sustentam fases do ciclo de vida de cerca de 70% das espécies pesqueiras exploradas comercialmente no Brasil, segundo a reportagem. Restingas e dunas, quando preservadas, conseguem acumular sedimentos e crescer verticalmente, acompanhando a elevação do nível do mar. Isso faz delas estruturas vivas, adaptativas, muito mais compatíveis com a lógica costeira do que barreiras rígidas.

O ponto central é simples: a praia é dinâmica; o concreto, não. Quando a política pública ignora isso, o mar costuma oferecer aula prática sem precisar de PowerPoint. O Brasil ainda reage mais do que planeja

O caso de Matinhos escancarou esse dilema. A multa do Ibama não surgiu só por causa de uma medida emergencial mal executada, mas porque ela simboliza um padrão mais amplo de reação improvisada diante de um problema estrutural. O avanço do mar, agravado pelas mudanças climáticas, exige planejamento territorial, controle de ocupação, ciência aplicada e proteção de ecossistemas costeiros. Sem isso, o país seguirá tratando sintoma com obra pontual e chamando de solução aquilo que muitas vezes apenas transfere o dano alguns quilômetros adiante.

A discussão, no fundo, não é entre fazer obra ou deixar a natureza “se virar”. A discussão séria é outra: onde a intervenção física é inevitável, onde ela piora o problema e onde a proteção dos ecossistemas pode gerar resposta mais eficiente, durável e barata. O litoral brasileiro já está dando sinais de esgotamento. Persistir em remendos duros para problemas dinâmicos é insistir numa engenharia que até parece firme, mas frequentemente afunda no próprio raciocínio.

Fontes e documentos:
Especialistas alertam para riscos ambientais de intervenções em praias (Agência Brasil)
– Pesquisadores da UFSC alertam para mais riscos de afogamento e piora na balneabilidade de praias alargadas (UFSC)
– PES 05/2025: Nota Técnica sobre os aterros de praia e a degradação de praias arenosas em Santa Catarina (Repositório UFSC)
– Corais podem evitar R$ 160 bilhões em danos ao litoral do Nordeste (Agência Brasil)
– Recifes de corais geram até R$ 167 bilhões ao Brasil em serviços de proteção costeira e turismo (Fundação Grupo Boticário)

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