Expansão da criação de tilápia impulsiona produção de pescado no Distrito Federal
A produção de pescado no Distrito Federal ganhou escala e passou a ocupar um espaço mais estratégico no agro local. Em 2025, o volume total chegou a 2.636.952 quilos, alta de 21,9% em relação a 2024, quando haviam sido registrados 2.163.472 quilos. Nesse avanço, a tilápia domina com folga e representa mais de 95% de tudo o que é produzido no DF.
Esse crescimento aparece com nitidez na rotina de Guilherme Pereira, de 32 anos, produtor da Ponte Alta do Gama. Em uma propriedade de 70 hectares da família, a criação começou com três tanques. Hoje, já são 21 tanques e uma produção superior a 200 mil quilos de peixe por ano, com foco na proximidade com o mercado consumidor, o que ajuda a agregar valor ao produto e acelerar sua chegada fresca às prateleiras.
A assistência técnica virou alavanca para sair do pequeno porte
O salto da atividade não ocorreu por acaso. Segundo o produtor, a expansão veio acompanhada do suporte da Emater-DF, desde a regularização e obtenção de licenças até a construção dos viveiros, além da assistência técnica e sanitária que continua mesmo com a operação já consolidada. Esse detalhe importa porque, no campo, muita atividade promissora trava não na porteira, mas na papelada, na sanidade e na falta de orientação técnica contínua.
De acordo com o coordenador do Programa de Aquicultura da Emater-DF, Adalmyr Borges, a tilápia reúne características que favorecem a expansão: facilidade de criação, aceitação de mercado e adaptação a diferentes perfis de consumo. Além disso, o DF já exporta para outros estados o filhote do peixe, movimento associado ao domínio técnico e às boas práticas que asseguram a qualidade sanitária dos alevinos produzidos localmente.
Reservatórios de irrigação podem mudar o tamanho do setor
Para 2026, a expectativa oficial é de continuidade da expansão, sobretudo com a incorporação de novas áreas e o uso múltiplo de reservatórios de irrigação para a criação de peixes. Em 2025, um projeto com a Secretaria da Agricultura, Abastecimento e Desenvolvimento Rural implantou 247 reservatórios de irrigação, e a avaliação técnica é que essa estrutura, usada também para piscicultura antes do uso na lavoura, tem potencial para dobrar a produção de peixe no DF.
Aqui está o ponto central da notícia. O crescimento da piscicultura no DF não depende apenas de mais consumo ou mais produtores. Depende, sobretudo, de infraestrutura produtiva adaptada ao território. Quando a mesma água atende irrigação e criação de peixes, o setor deixa de ser um nicho limitado e passa a operar com lógica de escala. Não é milagre. É engenharia rural aplicada com alguma inteligência, o que, convenhamos, costuma render mais do que discurso entusiasmado em seminário.
Alimentação escolar e mercado interno ajudam a puxar a demanda
Outro vetor de estímulo vem da alimentação escolar. Segundo a coordenação da aquicultura da Emater, um edital lançado no fim de 2025 para fornecimento de filé de tilápia à rede pública teve uma cooperativa do DF como vencedora, e as entregas já estão em fase de início. A leitura do setor é que essa contratação ajuda a organizar produtores, induz investimento e cria previsibilidade de demanda, algo raro e valioso para quem trabalha com ciclo produtivo longo.
Além disso, o mercado sazonal da Semana Santa reforça a importância da cadeia local. Nesse período, produtores como Guilherme ampliam equipe e planejamento para dar conta da demanda, enquanto o governo intensifica a fiscalização sanitária do pescado que entra no DF ou é produzido aqui. O consumidor, nesse cenário, passa a ter mais oferta, mas também precisa observar procedência e inspeção, porque peixe sem controle sanitário pode virar prejuízo antes mesmo de chegar à frigideira.
Com o campo e o mercado perto, o peixe vira negócio robusto
O caso da tilápia no DF mostra uma combinação rara de fatores favoráveis: mercado consumidor próximo, assistência técnica presente, infraestrutura em expansão e uma demanda institucional capaz de dar fôlego ao setor. Não se trata apenas de produzir mais peixe. Trata-se de montar uma cadeia com capacidade de sustentar renda, sanidade e previsibilidade comercial.
Se essa trajetória se confirmar em 2026, a piscicultura local pode deixar de ser vista como atividade complementar e passar a ocupar um papel mais relevante no abastecimento regional. Em tempos de custo alto, disputa por mercado e pressão logística, vender proteína fresca perto do consumidor talvez seja menos glamour rural e mais estratégia de negócio — o que, no fim do dia, costuma ser o tipo de conta que fecha melhor.
Fontes e documentos:
– Produção de pescado no DF cresce 21,9% e chega a 2,6 milhões de quilos em 2025 (Agência Brasília)
– Venda de pescados cresce na Semana Santa e DF reforça fiscalização sanitária (Agência Brasília)

