Mortes e apagões mostram que alertas isolados não protegem a população
Rajadas superiores a 100 quilômetros por hora deixaram ao menos cinco mortos em São Paulo e no Rio de Janeiro, derrubaram centenas de árvores, interromperam o fornecimento de energia e paralisaram serviços de transporte. Temporais também provocaram danos em dezenas de municípios do Rio Grande do Sul.
Os episódios reforçaram um problema que vai além da capacidade de prever a velocidade do vento: cidades com redes elétricas vulneráveis, arborização sem manejo preventivo e planos de emergência pouco incorporados ao cotidiano da população continuam expostas mesmo quando os alertas são emitidos.
A preocupação aumenta diante da previsão de intensificação do El Niño no segundo semestre de 2026. O fenômeno pode favorecer chuvas acima da média no Sul, períodos de seca no Norte e no Nordeste e temperaturas elevadas em grande parte do país.
Ventos extremos deixaram mortes e serviços interrompidos
Na quarta-feira (29), as rajadas chegaram a 125 km/h em áreas de São Paulo e a 105,5 km/h no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro.
Três pessoas morreram no estado de São Paulo. Duas foram atingidas pela queda de árvores, em Santos e Sorocaba, enquanto outra morreu após uma embarcação virar. No Rio, dois homens morreram quando um muro desabou no bairro de Santa Teresa.
No momento mais crítico, a falta de energia atingiu aproximadamente 1,1 milhão de clientes na Região Metropolitana do Rio. Até a noite de quinta-feira (30), cerca de 279 mil permaneciam sem fornecimento.
A Prefeitura do Rio contabilizou 346 árvores derrubadas. A circulação de trens chegou a ser totalmente interrompida, enquanto voos, barcas, ônibus e outros serviços enfrentaram atrasos ou paralisações.
No Rio Grande do Sul, episódios de chuva intensa e ventos superiores a 100 km/h já haviam causado destelhamentos, quedas de postes, bloqueios de vias e danos em dezenas de municípios durante julho.
Alertas no Rio foram emitidos pouco antes das rajadas
O Sistema Alerta Rio informou que publicou um aviso meteorológico às 14h15 de quarta-feira, indicando a possibilidade de rajadas a partir da tarde.
O Centro Estadual de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais do Rio de Janeiro emitiu outro alerta às 15h30. O comunicado alcançava a Costa Verde, o Sul Fluminense, a Baixada Fluminense, a Região Metropolitana, as Baixadas Litorâneas e o Norte Fluminense.
Segundo a Secretaria estadual de Defesa Civil, 44 prefeituras fluminenses têm autonomia para enviar mensagens diretamente à população. Os outros 48 municípios são cobertos pelo serviço estadual.
As rajadas mais intensas no Galeão foram registradas entre 16h e 17h. A proximidade entre os avisos e o início dos impactos levantou dúvidas sobre quanto tempo a população e os serviços públicos tiveram para reagir.
Fenômenos de rápida formação mantêm margens de incerteza meteorológica. Isso, entretanto, não elimina a necessidade de protocolos permanentes para suspender atividades de risco, interromper trabalhos em altura, bloquear áreas vulneráveis e posicionar equipes de emergência.
El Niño pode ampliar extremos no segundo semestre
Uma nota técnica conjunta elaborada por Inpe, Inmet, Funceme e Censipam indica probabilidade superior a 95% de persistência do El Niño ao longo do segundo semestre, com possibilidade de continuidade até o início de 2027.
Os modelos apontam potencial para um evento de intensidade forte ou muito forte. As projeções, contudo, são atualizadas periodicamente e não significam que todas as regiões enfrentarão os mesmos efeitos.
No Sul, o fenômeno costuma favorecer chuvas acima da média e aumentar o risco de inundações e deslizamentos. Norte e Nordeste podem enfrentar redução da precipitação, secas e maior risco de incêndios. No Centro-Oeste e no Sudeste, a preocupação inclui ondas de calor, baixa umidade e pressão sobre o abastecimento de água.
A previsão do El Niño também não permite afirmar, isoladamente, que o fenômeno causou uma ventania específica. A atribuição de um evento meteorológico depende de análise própria. O alerta sazonal serve para orientar o planejamento dos próximos meses, não para oferecer uma explicação automática para todo desastre.
Adaptação exige obras, manutenção e planos de continuidade
O professor de Ciências Ambientais da Unesp Pedro Henrique Campello Torres, selecionado como autor principal do próximo relatório do IPCC, avalia que a gestão urbana brasileira ainda atua de maneira predominantemente reativa.
“Não se trata apenas de ter um melhor alerta. O desafio agora é construir cidades mais resilientes”, afirma.
Entre as medidas defendidas por pesquisadores e organizações ambientais estão:
- Manejo preventivo e inventário da arborização urbana;
- Modernização e proteção das redes de energia;
- Atualização periódica dos mapas de risco;
- Revisão dos planos municipais de adaptação climática;
- Protocolos para transporte, escolas, hospitais e trabalhos em altura;
- Avaliação de risco climático em novos projetos de infraestrutura;
- Planos de contingência das concessionárias de serviços públicos;
- Criação de abrigos climáticos em escolas e equipamentos públicos.
Os abrigos podem proteger moradores durante ondas de calor, ventanias, enchentes ou outros eventos severos. Fora das emergências, esses espaços podem receber atividades educativas e treinamentos comunitários.
O alerta informa mas a infraestrutura decide o tamanho do dano
A previsão meteorológica é a primeira etapa da proteção, não a política inteira. Uma mensagem no celular tem alcance limitado quando árvores sem manutenção caem sobre a rede elétrica, hospitais dependem de estruturas frágeis ou moradores desconhecem onde procurar abrigo.
Rodrigo Jesus, porta-voz da Frente de Justiça Climática do Greenpeace Brasil, defende que a gestão de riscos articule prevenção, resposta durante o evento e reconstrução. “Eventos extremos serão o nosso normal a partir de agora”, afirma.
O ponto central não é exigir que a meteorologia determine com antecedência absoluta onde cada rajada ocorrerá. É garantir que a incerteza já esteja contemplada nos planos das cidades.
Alertas mais rápidos são necessários. Mas redes elétricas protegidas, árvores monitoradas, contratos fiscalizados, rotas de emergência, simulados e educação para o risco impedem que toda nova tempestade seja tratada como uma surpresa administrativa. O vento pode chegar depressa; a preparação não deveria começar depois dele.
Relacionadas, fontes e documentos:
– Rio Grande do Sul enfrenta risco de temporais e inundações (fonte em Foco)
– Área queimada no Brasil cai 31% em 2025 (Fonte em Foco)
– Ruído do turismo reduz sons de peixes em recifes (Fonte em Foco)
– Brasil pode ter 127 dias de calor extremo até 2075 (Fonte em Foco)
– Amazônia tem menor alerta de desmatamento em 20 anos (Fonte em Foco)
– Nota técnica conjunta sobre o El Niño em 2026 (Inpe)
– Mais de 200 mil continuam sem energia no Rio após vendaval (Agência Brasil)

