Firjan e CNI avaliam que juros seguem restritivos e travam investimentos há 55 meses
O quarto corte consecutivo na Taxa Selic, definido nesta quarta-feira (5) pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em 0,25 ponto percentual — para 14% ao ano — foi bem recebido por agentes econômicos, mas considerado insuficiente por entidades industriais e centrais sindicais. A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) afirmou que o nível elevado da taxa mantém o crédito caro, posterga investimentos e dificulta a modernização produtiva, enquanto a Confederação Nacional da Indústria (CNI) alertou que os juros reais de 10% superam com folga a taxa de equilíbrio de 5% estimada pelo próprio Banco Central.
Setor produtivo cobra corte mais agressivo após quatro reduções consecutivas
Firjan: juro alto atrasa investimentos e limita competitividade
Em nota, a Firjan ressaltou que a continuidade do ciclo de redução representa um sinal positivo, mas que a taxa ainda restringe a atividade produtiva. “O elevado custo de capital posterga investimentos, dificulta a modernização produtiva e limita a capacidade das empresas brasileiras de ganhar produtividade e competir nos mercados interno e externo”, disse a entidade, lembrando que a indústria de transformação cresceu apenas 0,4% no primeiro semestre de 2026, segundo o IBGE.
CNI: Selic está 3,6 pontos acima do indicado pela Regra de Taylor
A CNI argumentou que os juros estão em patamar restritivo há 55 meses e que a Selic de 14% está 3,6 pontos percentuais acima da taxa calculada com base na Regra de Taylor, estimada em 10,4%. Para a confederação, “a taxa de juros real, aproximadamente de 10%, supera com folga a taxa de equilíbrio estimada pelo próprio Banco Central, de 5%, indicando que há espaço para cortes mais expressivos na Selic, sem prejuízos no combate à inflação”.
Força Sindical: juros elevados comprometem emprego e consumo
A Força Sindical também classificou a redução como insuficiente. A central sindical afirmou que os juros elevados encarecem o crédito, reduzem investimentos, desestimulam o consumo e comprometem a geração de empregos. “Perdemos uma excelente oportunidade de promover uma redução drástica da taxa de juros, dar uma injeção de ânimo no setor produtivo e alavancar mais a economia”, disse a entidade.
Copom mantém cautela e sinaliza possível pausa no ciclo de cortes
BC reduz Selic para 14% e cita riscos externos e desancoragem de expectativas
Em comunicado, o Copom afirmou que o ajuste gradual é compatível com a estratégia de convergência da inflação para a meta. O comitê também citou o cenário de indefinição sobre conflitos no Oriente Médio e a incerteza sobre a política monetária em economias avançadas. No fechamento do comunicado, o BC passou a mencionar explicitamente a desancoragem das expectativas e os riscos elevados em torno do cenário-base como justificativa para “serenidade e cautela”.
Analistas avaliam que Copom mantém aberta a possibilidade de continuidade, mas ressalta argumentos para pausa
Camilo Cavalcanti, gestor da Oby Capital, avaliou que o Copom manteve a mensagem de que a magnitude total do ciclo ainda será definida à luz de novos dados, sem pré-compromisso. “Diante desse contraste entre um cenário corrente mais favorável e uma comunicação prospectiva ainda cautelosa, avaliamos que o Copom ainda mantém aberta a possibilidade de continuidade do ciclo de cortes de juros na próxima reunião, mas ressalta os argumentos para uma pausa”, observou.
O quarto corte consecutivo da Selic, somado, reduz a taxa em apenas 1 ponto percentual desde o início do ciclo — de 15% para 14%. Num cenário de inflação sob controle e atividade econômica moderada, o ritmo lento de queda mantém o Brasil como um dos países com os juros reais mais altos do mundo, o que desestimula investimentos produtivos e privilegia a renda financeira em detrimento da indústria.
O argumento da CNI de que a Selic está 3,6 pontos acima da taxa indicada pela Regra de Taylor — e 5 pontos acima da taxa de equilíbrio estimada pelo próprio BC — não é novo, mas ganha força diante da estagnação da indústria de transformação, que cresceu apenas 0,4% no primeiro semestre. Há um descolamento entre o discurso de “convergência da inflação” e a realidade do setor produtivo, que opera com capacidade ociosa e custo de capital proibitivo.
O comunicado do Copom, ao citar explicitamente a desancoragem das expectativas e riscos assimétricos, sinaliza que o BC está mais preocupado em não perder o controle da âncora inflacionária do que em estimular o crescimento. A “serenidade e cautela” exigida pelo comitê pode ser lida como um recado ao mercado de que o ciclo de cortes não é automático — o que, na prática, mantém a economia refém de expectativas e reduz a previsibilidade para o planejamento empresarial.
A divergência entre o BC e o setor produtivo — e mesmo entre o BC e o Ministério da Fazenda, que historicamente defende cortes mais agressivos — tende a se aprofundar à medida que o ciclo eleitoral de 2026 se aproxima. A decisão do Copom revela a autonomia formal da autoridade monetária, mas também expõe o custo político de uma política de juros que beneficia o rentismo em detrimento do emprego e da produção.
Relacionadas, fontes e documentos:
– Emplacamentos avançam 10,17% e somam 504 mil em julho (Fonte em Foco)
– Reunião do Copom começa com Selic em 14,25% ao ano (Fonte em Foco)
– Petrobras encontra gás em novo poço no litoral colombiano (Fonte em Foco)
– CNPJ alfanumérico estreia sem alterar cadastros atuais (Fonte em Foco)
– Lucro do FGTS é creditado nas contas de 138 milhões (Fonte em Foco)
– Banco Central do Brasil (Banco Central do Brasil)
– Redução da taxa de juros ainda é insuficiente, avaliam entidades (Agência Brasil)

