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Jardim Botânico mostra a força do Cerrado

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Setembro marca o Dia do Cerrado e a virada da paisagem

Setembro tem um peso especial para quem vive no Cerrado. Depois de meses de seca, o bioma começa a mostrar sinais de transformação justamente quando muita gente enxerga apenas poeira, calor e vegetação retorcida. Flores, frutos e novas cores surgem na paisagem e lembram que resistência, no Cerrado, não é metáfora bonita: é modo de sobrevivência.

Em Brasília, um dos lugares onde essa força pode ser vista de perto é o Jardim Botânico de Brasília, no Lago Sul. O espaço reúne visitação pública, conservação da biodiversidade, pesquisa científica e educação ambiental, funcionando como uma espécie de sala de aula viva do bioma.

O dia 11 de setembro é dedicado ao Cerrado. A data chega em um período simbólico: depois de meses de estiagem, árvores e plantas nativas começam a entrar em fases de floração e frutificação.

O que parece seco à primeira vista pode estar apenas preparando a próxima explosão de vida. É nesse intervalo que espécies como cajuzinho-do-cerrado, cagaita, mangaba, ipês, pequi, jatobá e sucupira ganham destaque nas trilhas e jardins do JBB, segundo a Agência Brasília.

Além da beleza, há função ecológica. Flores atraem polinizadores. Frutos e sementes alimentam animais e ajudam na dispersão das espécies. No Cerrado, cor também é trabalho: cada flor e cada fruto participam de uma engrenagem ambiental que sustenta o bioma.

O que o visitante encontra no Jardim Botânico

A área de visitação permite ao público conhecer diferentes fitofisionomias do Cerrado, percorrer trilhas e acessar espaços de contemplação, ciência e educação ambiental.

Entre os locais citados no roteiro de visitação estão o Jardim Sensorial, Jardim Japonês, Jardim Evolutivo, Jardim de Contemplação, Alameda das Nações, Espaço Ciência e trilhas interpretativas. A escolha do caminho pode variar conforme o interesse do visitante: passeio, estudo, observação da flora ou experiência educativa.

O JBB funciona de terça a domingo, inclusive feriados, das 9h às 17h, com entrada permitida e venda de ingressos até as 16h30. O ingresso custa R$ 5 por pessoa. Crianças de até 12 anos incompletos, pessoas com deficiência e maiores de 60 anos têm gratuidade; aos domingos e feriados, a entrada também é gratuita.

O Cerrado que não cabe só no passeio

Parte importante da conservação acontece longe dos olhos do visitante. Enquanto o público vê trilhas, jardins e flores, pesquisadores preservam a memória científica da flora.

No Jardim Botânico, o Herbário Ezechias Paulo Heringer mantém uma coleção dedicada à documentação e conservação da flora do Cerrado. Segundo a Agência Brasília, o acervo reúne 38.824 exsicatas, exemplares de plantas coletadas, preparadas e preservadas para estudos científicos. A coleção reúne 7.111 espécies de 280 famílias botânicas.

Neste ano, o herbário concluiu a instalação de novos armários deslizantes. A mudança ampliou a capacidade de armazenamento de aproximadamente 38 mil para até 52 mil amostras, abrindo espaço para o crescimento da coleção nas próximas décadas.

Pesquisa ajuda a entender flora e fauna

A pesquisa científica é outra frente do trabalho desenvolvido no Jardim. No Laboratório de Fauna, pesquisadores acompanham espécies que vivem na área protegida por meio de iniciativas como monitoramento de borboletas e uso de armadilhas fotográficas.

Esses registros ajudam a compreender biodiversidade, hábitos dos animais e mudanças no ambiente. Entre as espécies já registradas está o lobo-guará, também estudado em pesquisas sobre alimentação e aspectos parasitológicos.

Na área da flora, o Laboratório de Reprodução in vitro trabalha, desde 2025, com a multiplicação de espécies nativas do Cerrado, principalmente raras, endêmicas ou ameaçadas de extinção. Criado em 2003 para reprodução de orquídeas, o laboratório hoje também produz mudas que podem abastecer a Coleção Científica de Plantas Vivas ou projetos de recuperação ambiental.

Preservar o Cerrado não é apenas impedir destruição. Também é estudar, registrar, multiplicar espécies e recuperar áreas onde a natureza já foi ferida.

Educação ambiental aproxima o público do bioma

Para quem quer conhecer o Cerrado com mais profundidade, o Jardim Botânico oferece visitas pedagógicas para escolas, instituições, projetos sociais e outros grupos. As atividades podem ter acompanhamento de educadores ambientais ou funcionar na modalidade de acolhimento, em que a equipe recebe o grupo e apresenta orientações antes da visita independente.

Nas visitas com educadores, os grupos percorrem espaços do JBB com temas como flora, fauna, conservação, água, solo, ecologia e diferentes vegetações do Cerrado. Em 2026, esse atendimento ocorre às terças e quintas-feiras, nos períodos da manhã e da tarde, para grupos com no mínimo 10 pessoas.

O agendamento deve ser feito com antecedência mínima de 15 dias. O próprio JBB alerta que, no segundo semestre, as vagas costumam se esgotar rapidamente, especialmente em setembro, por causa de datas como o Dia do Cerrado e o Dia da Árvore.

Serviço

Jardim Botânico de Brasília
Local: Lago Sul, Brasília
Funcionamento: terça a domingo, inclusive feriados, das 9h às 17h
Entrada: R$ 5 por pessoa
Gratuidade: crianças de até 12 anos incompletos, pessoas com deficiência, maiores de 60 anos, domingos e feriados
Visitas pedagógicas: agendamento com pelo menos 15 dias de antecedência

Atenção para grupos: visitas com atendimento de educador ambiental são voltadas a grupos a partir dos 7 anos, com no mínimo 10 pessoas. Para estudantes a partir de 12 anos, o limite é de 45 estudantes; para crianças de 7 a 12 anos, o limite é de 30 estudantes.

Mais do que cenário bonito

O diretor-presidente do JBB, Allan Freire, afirmou à Agência Brasília que o Mês do Cerrado é uma oportunidade para chamar atenção para um bioma que faz parte da vida de quem mora em Brasília. Segundo ele, conhecer o Cerrado é um dos primeiros passos para compreender por que ele precisa ser protegido.

A frase importa porque toca no ponto central. Ninguém preserva de verdade aquilo que só conhece de passagem. Quando o visitante entra no Jardim Botânico, percorre uma trilha, observa uma flor, reconhece um fruto ou entende a função de uma semente, o Cerrado deixa de ser fundo de paisagem e vira presença concreta.

O Cerrado resiste, mas não é invencível

O Cerrado aprendeu a atravessar a seca. Suas raízes descem fundo, suas plantas se adaptam, suas flores aparecem quando muita gente já desistiu da paisagem. Mas resistência natural não pode virar desculpa humana para descuido.

Brasília nasceu dentro desse bioma e, muitas vezes, age como se ele fosse apenas espaço vazio entre prédios, condomínios, estradas e obras. Não é. O Cerrado é água, alimento, fauna, flora, temperatura, solo, memória e futuro.

O Jardim Botânico ajuda a lembrar isso sem discurso empolado. Ali, o visitante vê que a natureza não é decoração de fim de semana. É sistema vivo, complexo e indispensável.

Setembro, então, serve como convite e como cobrança. Convite para olhar o Cerrado com mais atenção. Cobrança para proteger um bioma que sustenta Brasília mesmo quando Brasília insiste em tratá-lo como paisagem de fundo.

Fontes e Documentos:

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