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Insegurança alimentar em lares com idosos cae

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Queda foi de 300 mil lares

O número de domicílios com pessoas acima de 60 anos em situação de insegurança alimentar caiu no Brasil entre 2023 e 2024. A melhora é importante, mas o tamanho do problema ainda impede qualquer comemoração confortável: 5,6 milhões de lares com idosos seguem convivendo com algum grau de restrição no acesso à comida.

O levantamento foi feito pela consultoria Nexus a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, a PNAD Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Em 2023, eram 5,9 milhões de domicílios com pessoas 60+ em insegurança alimentar. Em 2024, o número caiu para 5,6 milhões.

A redução foi de 300 mil domicílios entre 2023 e 2024, últimos anos com informações consolidadas. Na prática, isso significa menos casas com idosos enfrentando algum tipo de incerteza, limitação ou privação relacionada à alimentação.

O recuo mais expressivo ocorreu na insegurança alimentar grave. Esse grupo passou de 894 mil lares em 2023 para 744 mil em 2024.

A insegurança moderada também caiu, de 1,2 milhão para 1,1 milhão de domicílios. Já a insegurança leve permaneceu em torno de 3,7 milhões de lares.

O que significa insegurança alimentar

A insegurança alimentar é medida pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, a EBIA. Ela classifica os domicílios conforme a experiência de acesso irregular, insuficiente ou incerto aos alimentos.

Não se trata apenas de “passar fome” no sentido mais extremo. A insegurança pode aparecer em diferentes graus: quando a família passa a reduzir qualidade da alimentação, quando diminui quantidade, quando adultos deixam de comer para preservar outros moradores ou quando a privação se torna mais severa.

No caso de domicílios com idosos, o problema ganha peso adicional. Pessoas acima de 60 anos podem ter necessidades específicas de saúde, uso contínuo de medicamentos, restrições alimentares e maior dependência de renda fixa, aposentadoria, benefício social ou apoio familiar.

Grave caiu mais, mas ainda atinge 744 mil lares

A redução da insegurança grave é o ponto mais positivo do levantamento. Esse é o grau mais duro da escala, associado a situações em que a falta de comida já bateu de forma mais direta dentro da casa.

Mesmo com a queda, 744 mil domicílios com pessoas idosas continuavam nessa condição em 2024. É menos do que no ano anterior, mas ainda é um contingente enorme de famílias vivendo no limite.

A redução da insegurança alimentar grave nos domicílios com brasileiros 60+ é uma notícia importante, mas que os dados mostram que o desafio estrutural permanece.

A frase resume o ponto central. O país avançou, mas ainda não resolveu a pergunta mais básica de uma sociedade decente: se os mais velhos conseguem comer com regularidade e dignidade.

Um em cada cinco lares com idosos ainda tem vulnerabilidade alimentar

Na soma das três categorias — leve, moderada e grave — 21,8% das moradias com idosos no Brasil tinham algum grau de vulnerabilidade com impacto na alimentação em 2024.

Isso significa que mais de um quinto dos domicílios com pessoas acima de 60 anos ainda enfrentava algum tipo de insegurança alimentar.

O dado é incômodo porque mostra que a melhora estatística convive com uma vulnerabilidade persistente. O número caiu, mas o problema segue dentro de milhões de cozinhas, geladeiras, despensas e mesas de refeição.

A insegurança leve, que permaneceu em cerca de 3,7 milhões de lares, também não deve ser tratada como detalhe. Ela pode indicar preocupação com o fim dos alimentos antes da próxima compra, piora da qualidade da dieta ou necessidade de reorganizar refeições por falta de dinheiro.

Por que idosos exigem atenção específica

A presença de idosos muda a leitura social do dado. Em muitos lares brasileiros, a pessoa 60+ não é apenas alguém cuidado pela família; é também quem sustenta a casa.

A aposentadoria, o Benefício de Prestação Continuada ou outra renda fixa podem ser a principal fonte de recursos do domicílio. Quando os preços sobem, quando medicamentos pesam no orçamento ou quando outros moradores dependem dessa renda, a alimentação passa a disputar espaço com contas essenciais.

Também há casos em que idosos vivem sozinhos, têm mobilidade reduzida ou enfrentam dificuldades para acessar serviços públicos, mercados, restaurantes populares, unidades de assistência social ou programas de proteção.

Por isso, olhar apenas para o número nacional pode esconder diferenças importantes. A insegurança alimentar de um idoso não é só falta de alimento; pode ser falta de renda, falta de rede, falta de acesso e falta de política pública chegando na hora certa.

Políticas públicas precisam mirar onde a fome resiste

O levantamento indica melhora entre 2023 e 2024, especialmente no recorte mais grave. Mas também aponta onde o Estado ainda precisa atuar.

Segurança alimentar depende de renda, programas sociais, preços dos alimentos, assistência social, saúde pública, redes locais de proteção, acesso a equipamentos públicos e acompanhamento de grupos vulneráveis.

Quando a comida falta na casa de uma pessoa idosa, o problema raramente começa e termina no prato. Ele costuma envolver renda insuficiente, doenças, isolamento, informalidade familiar, endividamento, moradia precária e ausência de apoio contínuo.

A queda nos números deve ser lida como avanço, não como missão cumprida. A diferença entre 5,9 milhões e 5,6 milhões importa. Mas 5,6 milhões ainda é gente demais.

O dado que precisa virar ação

A pesquisa ajuda a localizar o problema, mas dado social só cumpre sua função quando orienta decisão pública.

Se a insegurança grave caiu, é preciso entender o que funcionou. Se a insegurança leve segue alta, é preciso evitar que ela avance para quadros mais duros.

Isso exige políticas capazes de combinar transferência de renda, alimentação adequada, atendimento socioassistencial, ações de saúde, proteção a idosos em situação de isolamento e monitoramento contínuo dos domicílios mais vulneráveis.

Também exige cuidado na comunicação. Falar em queda não pode apagar quem continua em risco. E falar em risco não pode ignorar que houve melhora.

Melhorou, mas ainda não alimenta todos

A queda da insegurança alimentar em lares com idosos merece registro. Menos 300 mil domicílios nessa condição é notícia boa, especialmente quando o recuo mais forte aparece justamente no grau grave.

Mas o Brasil não pode se acostumar a medir alívio como se fosse solução. Quando 5,6 milhões de lares com pessoas 60+ ainda convivem com algum grau de insegurança alimentar, a pergunta não é se houve avanço. Houve. A pergunta é por que tanta gente continua vulnerável.

A fome e a incerteza alimentar na velhice têm uma crueldade própria. Elas chegam depois de uma vida inteira de trabalho, cuidado, criação de filhos, pagamento de contas e sobrevivência cotidiana. Chegam quando o corpo já cobra mais, quando a saúde pesa mais e quando a margem de erro fica menor.

Uma sociedade revela muito de si pela forma como trata quem envelheceu dentro dela. Se a comida ainda falta ou ameaça faltar na casa de milhões de idosos, o país não está diante de um detalhe estatístico. Está diante de uma cobrança moral, social e política.

O dado de 2024 mostra que é possível melhorar. Agora falta transformar melhora em permanência, e permanência em garantia. Porque idoso não precisa de alívio eventual no prato. Precisa de segurança todos os dias.

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