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Conflitos no campo crescem no Brasil, mas assassinatos caem

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Levantamento da CPT aponta 841 conflitos no primeiro semestre e alerta para disputa por terra, água, minérios e territórios tradicionais

O Brasil registrou aumento dos conflitos no campo no primeiro semestre de 2026, mas teve queda no número de assassinatos em relação ao mesmo período do ano passado.

Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (2) pela Comissão Pastoral da Terra, a CPT. Entre janeiro e junho, foram contabilizados 841 conflitos no campo, contra 798 no primeiro semestre de 2025.

O número de assassinatos caiu de forma expressiva. Foram seis mortes registradas nos primeiros seis meses deste ano, diante de 27 no mesmo período do ano anterior.

A queda dos assassinatos é relevante, mas não autoriza leitura de pacificação. O próprio levantamento mostra que a disputa pela terra, pela água e pelos recursos naturais segue atravessando comunidades rurais, povos indígenas, quilombolas, posseiros, seringueiros e trabalhadores sem-terra.

Maranhão lidera conflitos no campo

O Maranhão foi o estado com mais conflitos no campo no primeiro semestre de 2026, com 156 registros.

Na sequência aparecem Pará, com 90 casos; Bahia, com 85; Rondônia, com 63; e Amazonas, também com 63.

Esses números ajudam a mostrar onde a tensão rural aparece com mais força. São áreas marcadas por disputas territoriais, pressão econômica sobre a terra, expansão de atividades produtivas, conflitos ambientais e presença de comunidades tradicionais.

A CPT afirma que os dados parciais servirão para avaliar tendências do ano e vão compor o relatório anual “Conflitos no Campo Brasil”, previsto para 2027.

Terra concentra a maior parte dos casos

A maior parte dos conflitos registrados envolve disputa por terra. Foram 711 casos no primeiro semestre.

Esses registros incluem episódios de violência e também formas de resistência, como ocupações e acampamentos.

As violências ligadas à terra subiram de 584 para 663 casos. Já as ações de resistência mantiveram uma tendência de queda observada nos últimos anos, passando de 66 para 48.

O Maranhão também lidera esse recorte, com 153 conflitos por terra. Depois vêm Bahia, com 76; Pará, com 68; e Rondônia, com 54.

O Amazonas chamou atenção pela alta de 140% nos conflitos por terra, que passaram de 37 para 52 registros na comparação com o primeiro semestre de 2025.

Agrotóxicos aparecem como violência mais frequente

A contaminação por agrotóxicos foi a forma de violência mais frequente nos conflitos por terra.

Os registros passaram de 98 para 169 casos. Depois aparecem invasão de territórios, que subiu de 96 para 109; desmatamento ilegal, que passou de 67 para 107; e ameaça de despejo, que avançou de 63 para 70.

A CPT atribui parte dessas violências à expansão do agronegócio, com destaque para o Maranhão.

Esse dado desloca a compreensão da violência no campo. Ela não aparece apenas como confronto armado ou assassinato. Pode vir pelo veneno lançado sobre lavouras, casas, rios, animais e pessoas. Pode vir pela entrada irregular em territórios. Pode vir pela derrubada da floresta. Pode vir pela ameaça de expulsão.

A coordenadora nacional da CPT, Cecília Gomes, afirmou à Agência Brasil que o uso de agrotóxicos pode funcionar como “arma química”, porque não mata necessariamente no primeiro momento, mas adoece aos poucos.

Conflitos pela água mais que dobram

Os conflitos pela água também cresceram no primeiro semestre.

A CPT registrou 100 ocorrências em 20 estados, contra 47 no mesmo período de 2025.

O Pará teve o maior número de casos, com 16 registros. Em seguida aparecem Minas Gerais, com 11; Amazonas, com 10; e Mato Grosso, também com 10.

No Pará, segundo a CPT, os primeiros meses de 2026 foram marcados por lutas de povos indígenas contra a privatização de rios, pela resistência à ação de garimpeiros e por conflitos envolvendo ribeirinhos e outros povos diante da atuação de mineradoras.

A disputa pela água revela uma camada profunda da crise no campo. Não se trata apenas de acesso a um recurso natural. Trata-se de sobrevivência, alimentação, saúde, transporte, cultura e permanência no território.

Trabalho escravo rural teve queda

As ocorrências de trabalho escravo rural caíram no primeiro semestre de 2026.

Foram 30 registros, contra 101 no mesmo período de 2025. O número de trabalhadores vitimados também caiu, de 842 para 355.

Mesmo com a queda, o dado continua grave. Trabalho escravo contemporâneo não é uma imagem do passado. Ele aparece em jornadas exaustivas, alojamentos degradantes, servidão por dívida, restrição de liberdade e exploração extrema.

São Paulo teve o maior número de trabalhadores resgatados, com 148 pessoas, e também o maior número de casos registrados, com cinco ocorrências. Em três delas, os trabalhadores estavam em atividades de plantio e corte de cana-de-açúcar.

Violência contra a pessoa aumentou em casos e vítimas

O número de assassinatos caiu, mas os casos de violência contra a pessoa aumentaram.

Segundo a CPT, os registros passaram de 418 para 588, enquanto o número de vítimas subiu de 308 para 497.

Entre os seis assassinatos contabilizados até junho estão o massacre de três posseiras em Lábrea, no Amazonas, dois indígenas assassinados em Roraima e Mato Grosso do Sul, e um trabalhador rural sem-terra. As vítimas tinham entre 14 e 45 anos.

A violência com maior incidência foi a contaminação por minérios, com 195 casos. Todos os registros ocorreram em Jacareacanga, no Pará, e estão relacionados ao garimpo ilegal de ouro na Bacia do Rio Tapajós, atingindo a Terra Indígena Munduruku.

Também se destacaram a contaminação por agrotóxicos, que passou de 10 para 132 casos, a criminalização, que subiu de 46 para 51, e os ferimentos, que avançaram de 26 para 42.

Povos indígenas estão entre as principais vítimas

As principais vítimas dos conflitos no campo foram povos indígenas, trabalhadores e trabalhadoras sem-terra, posseiros, seringueiros e quilombolas.

Esse recorte é essencial para entender a natureza da violência. Ela não atinge todos da mesma forma. Recai com mais força sobre grupos que dependem diretamente da terra, da água, da floresta e do território para viver.

Para essas comunidades, perder território não significa apenas perder propriedade. Pode significar perder fonte de alimento, circulação, memória, espiritualidade, trabalho, segurança e continuidade cultural.

Por isso, a disputa no campo não pode ser reduzida a conflito fundiário abstrato. Ela envolve direitos, vidas, modos de existência e modelos diferentes de uso da terra.

Manifestações seguem como forma de resistência

As manifestações não entram no cálculo dos conflitos no campo, mas são contabilizadas pela CPT como forma de resistência.

No primeiro semestre de 2026, houve 284 manifestações, contra 253 no mesmo período de 2025.

A comissão cita atos públicos, marchas, protestos, romarias, bloqueios de rodovias, ocupações de prédios públicos e outras mobilizações.

As principais reivindicações envolvem demarcação de terras indígenas, combate aos agrotóxicos, oposição à mineração e à privatização das águas, além de melhores condições de trabalho.

Essas manifestações mostram que as comunidades não aparecem apenas como vítimas. Elas também atuam politicamente, denunciam violações, cobram direitos e tentam impedir que a violência se transforme em rotina silenciosa.

CPT fala em financeirização da terra

A CPT aponta a intensificação da mercantilização e da financeirização da terra no Brasil.

Na avaliação da coordenadora Cecília Gomes, fundos de pensão e outros agentes econômicos passaram a ter maior interesse sobre terras e recursos, inclusive as chamadas terras raras, muitas vezes presentes em áreas de comunidades tradicionais e camponesas.

A ideia de financeirização ajuda a explicar por que a disputa não envolve apenas fazendas vizinhas ou conflitos locais. A terra passa a ser tratada como ativo econômico, reserva de valor, plataforma de investimento e fonte de recursos naturais estratégicos.

Quando isso acontece, comunidades que vivem no território há décadas podem enfrentar pressões muito maiores do que sua capacidade de defesa institucional.

O que os dados ainda não mostram

Os números da CPT ajudam a enxergar tendências, mas não encerram a compreensão sobre o campo brasileiro.

O levantamento é construído com informações coletadas por agentes da comissão em todo o país, notícias da imprensa, divulgações de órgãos públicos, movimentos sociais e organizações parceiras.

Isso significa que os dados registram o que foi identificado e documentado. Em áreas isoladas, de difícil acesso ou sob forte intimidação, parte das violências pode demorar a aparecer ou sequer chegar ao conhecimento público.

A própria existência de um relatório anual mostra que a violência no campo precisa ser observada em série histórica. Um semestre pode indicar avanço, recuo ou mudança de perfil, mas a estrutura do conflito exige acompanhamento contínuo.

O que o aumento dos conflitos revela sobre o campo brasileiro

O primeiro semestre de 2026 revela um campo em que a morte diminuiu, mas a pressão não desapareceu.

Essa distinção importa. Menos assassinatos é uma notícia relevante. Mas mais conflitos, mais vítimas de violência, mais contaminação por agrotóxicos, mais disputas por água e mais registros ligados a minérios mostram que a violência pode mudar de forma sem deixar de existir.

O conflito agrário brasileiro não cabe apenas na imagem da cerca derrubada ou da arma apontada. Ele também aparece no veneno, no rio ameaçado, no garimpo ilegal, no despejo, na criminalização, no trabalho degradante e na tentativa de transformar território vivo em ativo financeiro.

Para o leitor urbano, essa pauta pode parecer distante. Não é. O campo produz alimento, água, energia, minérios, madeira, riqueza e desigualdade. O modo como o Brasil resolve — ou não resolve — seus conflitos rurais afeta o preço da comida, a preservação ambiental, os direitos de comunidades tradicionais e a qualidade da democracia.

O dado central da CPT é incômodo: o campo ficou menos letal no primeiro semestre, mas não ficou em paz.

Relacionadas, fontes e documentos:

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