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Festival de Brasília começa após quase virar cancelamento

Publicado em

Reportagem:
Paulo Andrade

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Festival começa com mais de 70 filmes

O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro começa nesta sexta-feira (11) com uma história que parece saída da própria tela. A 59ª edição do evento mais longevo do cinema nacional chega ao Cine Brasília depois de quase ser cancelada, virar crise pública, mobilizar a classe artística e ser confirmada novamente pelo Governo do Distrito Federal.

A abertura será às 19h30, na Sala Vladimir Carvalho, no Cine Brasília. Às 20h, a programação exibe os filmes de abertura: A Pele Morta, de Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres, e Brasília — Planejamento Urbano, curta de Fernando Coni Campos, de 1965.

A edição de 2026 recebeu quase 2 mil inscrições e terá mais de 70 filmes selecionados em diferentes mostras. A programação reúne sete longas e 12 curtas na competição nacional, além de homenagens, mostras paralelas e apresentação de episódios da série inédita Delegado.

O número de inscritos mostra que o festival não chega enfraquecido do ponto de vista artístico. Pelo contrário: mesmo depois do susto administrativo, a edição desembarca com volume, diversidade e uma programação que tenta reafirmar Brasília como lugar de encontro do audiovisual brasileiro.

Além das mostras competitivas de longas e curtas, o festival terá mostras paralelas, sessões especiais, debates, oficinas, atividades de mercado e a 6ª Conferência Audiovisual. O site oficial afirma que a edição de 2026 amplia atividades de formação, encontros profissionais, ações de mercado e espaços de diálogo sobre o presente e o futuro do setor.

A Pele Morta abre a edição

O filme de abertura tem ligação direta com Brasília. A Pele Morta foi concebido pelo cineasta Geraldo Moraes, radicado na capital federal e morto em 2017, e acabou dirigido por seus filhos, Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres.

A escolha carrega peso simbólico: o festival reabre as portas com uma obra atravessada por memória, continuidade e cinema feito a partir de Brasília. Não é apenas uma sessão inaugural. É também uma forma de recolocar a cidade dentro da própria narrativa do evento.

A programação oficial também prevê, no sábado (12), às 10h, debate sobre o filme de abertura na área de convivência do Cine Brasília.

Sábado tem Delegado, Tata Amaral e Mostra Competitiva

O sábado (12) concentra parte dos primeiros destaques. Às 11h, a programação traz a mostra História(s) do Cinema Brasileiro, com Brasília segundo Feldman e Adeus, Brasília. Às 15h, ocorre sessão especial do Prêmio Leila Diniz com Pitico — Hermes Ayres Azevedo (1881-1959) — Historiador da Província.

Às 18h, o festival exibe três episódios de Delegado, série dirigida por Marcelo Lordello e Leonardo Lacca, com produção de Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux. A Folha confirmou a apresentação dos episódios no sábado e destacou a participação da produção ligada a O Agente Secreto.

A presença de uma série no Cine Brasília ajuda a mostrar como o festival tenta dialogar com o audiovisual de hoje, sem abandonar a sala escura, o debate presencial e a tradição cinematográfica.

Às 21h, começa a Mostra Competitiva Nacional com Mariposa, Vejo Você de Repente e Ana, En Passant, segundo a programação oficial.

Domingo tem programação infantil e masterclass

No domingo (13), a programação começa às 11h com o Festivalzinho, voltado ao público infantil, com Folclórica. Às 15h, haverá sessão especial com Música Secular e Histórias de Terror e Delicadeza.

Às 16h, Emilie Lesclaux participa da masterclass Produzir cinema, construir trajetórias. Às 19h, está previsto o lançamento do livro O Agente Secreto — Um roteiro de Kleber Mendonça Filho. Às 21h, a Mostra Competitiva Nacional exibe Gastronomia do Olho e Pequenas Tragédias.

Para quem quer acompanhar o festival além da sessão de gala, o primeiro fim de semana já oferece um cardápio variado: filme, debate, série, livro, masterclass, programação infantil e mostra competitiva.

Cancelamento, reação e volta atrás

A edição quase não aconteceu. Em agosto, o festival foi anunciado como cancelado sob o argumento de falta de recursos, o que provocou reação imediata da classe artística e de representantes do audiovisual.

Horas depois, a governadora Celina Leão confirmou a realização do evento e disse ter determinado à Secretaria de Economia a providência dos recursos necessários. A confirmação foi feita no mesmo dia em que o cancelamento havia sido comunicado à produção.

No dia seguinte, a Secretaria de Economia do DF confirmou o empenho de R$ 2,77 milhões destinados à organização da 59ª edição do festival.

O episódio deixou uma marca incômoda: um patrimônio cultural do DF precisou quase sair de cena para que sua importância fosse novamente lembrada.

Um patrimônio que não cabe no improviso

O Festival de Brasília nasceu em 1965 e se consolidou como um dos principais espaços de debate, exibição e consagração do cinema brasileiro.O evento só deixou de ser realizado em dois anos durante a ditadura militar e, durante a pandemia, ocorreu em formato virtual.

Desde 2007, o festival é considerado patrimônio imaterial do Distrito Federal, conforme o briefing fornecido. Esse dado muda a régua da discussão: patrimônio cultural não pode depender de susto, improviso e socorro de última hora.

A expectativa é superar o número de espectadores, abraçar o público, os realizadores e a comunidade cultural, além de fortalecer o cinema brasileiro. Ela também celebrou a realização do festival como patrimônio formal e afetivo de Brasília e do Brasil.

Serviço

59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Data: de 11 a 19 de setembro de 2026
Local principal: Cine Brasília, na Asa Sul
Abertura: sexta-feira (11), às 19h30
Filmes de abertura: A Pele Morta e Brasília — Planejamento Urbano
Programação completa: site oficial do festival

Dica ao público: confira horários, locais e regras de ingresso antes de sair de casa. A programação se espalha por diferentes mostras, horários e espaços, e algumas atividades podem estar sujeitas à lotação.

O que está em jogo

A realização da 59ª edição vai além da agenda cultural da semana. O festival é vitrine, memória, mercado, formação, encontro e disputa de sentido sobre o cinema brasileiro.

Quando quase é cancelado, o problema não atinge apenas quem comprou passagem, inscreveu filme ou reservou agenda. Atinge realizadores, técnicos, críticos, estudantes, público, salas de cinema, a economia criativa e a própria imagem cultural de Brasília.

O começo nesta sexta-feira, portanto, tem sabor de alívio. Mas alívio não apaga o alerta. Um festival desse tamanho não deveria depender de correção de rota em cima da hora.

O cinema venceu o susto, mas o susto não deve ser esquecido

A 59ª edição do Festival de Brasília começa com final feliz para o público. A tela acende, os filmes entram em cartaz, os debates voltam a ocupar o Cine Brasília e a cidade recupera um pedaço importante de sua vida cultural.

Mas a cultura não pode viver como personagem de suspense administrativo. Não é razoável que um festival histórico, patrimônio imaterial do DF, quase desapareça por falta de garantia orçamentária depois de mobilizar quase 2 mil inscrições e uma cadeia inteira de trabalho.

O cinema brasileiro já enfrenta dificuldade demais para existir, circular e encontrar público. Quando uma capital como Brasília quase deixa cair seu festival mais simbólico, o recado é perigoso: a cultura continua sendo tratada, muitas vezes, como despesa adiável, e não como política pública estratégica.

A confirmação da edição precisa ser celebrada. Sim. Mas também precisa ser lembrada como cobrança.

Um patrimônio não se preserva apenas com aplauso na abertura. Preserva-se com planejamento, orçamento, respeito institucional e compromisso antes que a crise bata na porta da bilheteria.

Relacionadas, fontes e documentos:

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