Cinema brasileiro leva feminicídio e Justiça a Cannes
Inspirado em casos reais de violência contra mulheres no Brasil, o longa A Versão da Lei, dirigido por Ninna Fachinello, será apresentado no dia 18 de maio no VDF Showcase do Brasil, dentro do Marché du Film, em Cannes. O filme acompanha a trajetória de Sol, advogada negra e lésbica que atua na Vara da Família defendendo mulheres em situação de violência, e chega ao mercado internacional em um momento de recorde de feminicídios no país.
A Versão da Lei parte de casos reais
Produzido pela ColetivA DELAS, com roteiro de Ninna Fachinello e Mariana Queiroz, o filme aborda a violência doméstica pelo olhar de quem acolhe, orienta e enfrenta o sistema judiciário ao lado das vítimas. A diretora afirmou que vários casos atendidos pela personagem foram inspirados em fatos reais e notícias sobre agressões que se repetem no país.
A escolha narrativa desloca o ponto de partida do crime para o trabalho de cuidado. Em vez de abrir apenas pela dor da vítima, o longa acompanha as marcas deixadas em quem tenta sustentar a proteção jurídica, emocional e institucional dessas mulheres. Esse recorte amplia a discussão: a violência não termina no boletim de ocorrência, nem se resolve automaticamente quando entra no fórum.
Feminicídios bateram recorde em 2025
O tema encontra um país ainda incapaz de conter a escalada da violência de gênero. Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, alta de 4,7% em relação a 2024 e maior número da série histórica iniciada em 2015. Desde a criação da lei do feminicídio, mais de 13,7 mil mulheres foram assassinadas por razões de gênero no país.
Esse contexto torna a presença do filme em Cannes mais que uma vitrine cultural. A obra leva ao maior mercado de cinema do mundo uma pauta que, no Brasil, continua sendo urgência cotidiana. Quando a ficção nasce de notícias recorrentes, o problema já deixou de ser apenas roteiro. Virou espelho — e dos incômodos.
Produção teve consultoria jurídica
Para construir o universo da Vara da Família e das personagens, a produção contou com consultoria da juíza de Direito Camila Rocha Guerin, especialista em Gênero e Direito, além de apoio jurídico para dar verossimilhança às cenas e aos encaminhamentos legais da trama. A intenção foi aproximar o filme da experiência real de mulheres que buscam proteção em meio a disputas familiares, ameaças, abuso psicológico e violência física.
O elenco é liderado por Tati Villela, intérprete da advogada Sol. A atriz venceu o Troféu Redentor na Première Brasil 2021 e foi eleita Melhor Atriz no Brazil New Vision International Film Festival 2026. Também estão no elenco Karen Julia, Vitória Rodrigues, Aliny Ulbricht, além de participações de Mariana Xavier, Cacau Protásio e do ator português Pedro Carvalho.
Longa está em fase de finalização
A Versão da Lei será apresentada em Cannes em uma versão ainda sujeita a ajustes finais. O projeto está em fase de finalização neste mês de maio e tem previsão de lançamento comercial em 2027, após uma possível estreia em festival internacional. O filme conta com financiamento da Ancine e do BRDE, instrumentos públicos que ajudam a viabilizar produções independentes brasileiras com circulação internacional.
O VDF Showcase funciona como plataforma para filmes independentes em fase de finalização e pós-produção. Portanto, a apresentação no Marché du Film pode abrir portas para vendas, coproduções, festivais e distribuição. Para uma obra sobre violência contra mulheres, essa circulação importa porque amplia o debate para além das fronteiras nacionais.
Quando o cinema faz a lei olhar para dentro
A força de A Versão da Lei está em tratar a violência contra a mulher não como tragédia isolada, mas como percurso institucional. A vítima precisa sobreviver ao agressor, ao medo, à dependência, à vergonha, à lentidão e, muitas vezes, à descrença. A personagem Sol parece carregar justamente esse ponto: a lei existe, mas entre o texto legal e a proteção real há um corredor longo demais.
O cinema não substitui política pública, delegacia especializada, abrigo, defensoria, juiz atento ou rede de proteção. Mas pode fazer uma coisa rara: obrigar o público a permanecer diante daquilo que a rotina empurra para baixo do tapete. Se uma história consegue transformar incômodo em consciência, já não é apenas filme. É alerta com luz de projetor.
Fontes e documentos:
– Circo ganha reconhecimento legal como arte popular (Fonte em Foco)
– Governo quer ampliar bibliotecas e leitores no país (Fonte em Foco)
– Mulheres recolocam o graffiti no centro de São Paulo (Fonte em Foco)
– Filme brasileiro sobre violência doméstica será apresentado em Cannes (Agência Brasil)
– A Versão da Lei será apresentado na seção First Look do VDF Showcase do Brasil (Revista de Cinema)

