Publicidade
InícioBrasilPolíticaViolência política atinge mais mulheres pretas e pardas

Violência política atinge mais mulheres pretas e pardas

Publicado em

Reportagem:
Marta Borges

Cobertura relacionada

Redes Sociais descumprem regras eleitorais

NetLab identificou anúncios irregulares na Meta, Kwai e Google e recomendações de vídeos no TikTok e YouTube.

Ataque digital mira candidaturas LGBT+

Monitoramento mostra ataques digitais contra candidaturas LGBT+, com maior incidência sobre mulheres e pessoas negras.

Vai ter segundo turno para o Governo do DF

Celina venceu o primeiro turno com 49,93% dos votos válidos, mas enfrentará Leandro Grass no segundo turno em 25 de outubro.

Mais de 158 milhões votam em 2026

Mais de 158 milhões de eleitores podem escolher presidente, governadores, senadores e deputados neste domingo.

Estados dão força ao PL no primeiro turno

PL elegeu cinco governadores no primeiro turno; PSD fez quatro, PT e Republicanos conquistaram três cada.

Transporte gratuito ajuda eleitor a votar

Transporte gratuito no dia da eleição terá regras diferentes em capitais, regiões metropolitanas e linhas intermunicipais do país.
Publicidade

Ligue 180 registrou 1.564 denúncias entre janeiro e agosto; ataques incluem ameaças, racismo, misoginia e tentativa de afastar mulheres da vida pública

A violência política contra mulheres voltou ao centro do debate nas Eleições 2026 com um dado que revela quem paga o preço mais alto pela disputa de poder. Entre janeiro e agosto, foram registradas 1.564 denúncias de violência política contra mulheres pelo Ligue 180, correspondentes a 1.581 violações identificadas.

Mulheres pretas e pardas concentram a maior parte dos registros. Das 1.564 denúncias, 842, mais de 53%, envolvem violência política sofrida por elas; mulheres brancas aparecem em 590 denúncias, ou 37,72%, e outras 132 ocorrências, 8,44%, atingem mulheres de outras raças.

O número mostra que a violência política não é apenas uma reação a candidaturas femininas: ela também carrega raça, gênero e tentativa de exclusão. Quando uma mulher entra na política e passa a ser atacada por ser mulher, negra, jovem, liderança comunitária, parlamentar ou candidata, o alvo não é apenas uma pessoa; é o direito de participação de todas.

O que é violência política contra mulheres

A violência política contra mulheres ocorre quando uma ação, conduta ou omissão tenta impedir, dificultar ou restringir seus direitos políticos. A Lei nº 14.192, de 2021, estabelece normas para prevenir, reprimir e combater esse tipo de violência nos espaços ligados ao exercício de direitos políticos e funções públicas.

O crime eleitoral alcança condutas como assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar candidatas e mulheres detentoras de mandato. A lei também considera o menosprezo ou a discriminação contra a condição de mulher, cor, raça ou etnia quando a finalidade é impedir ou dificultar campanha eleitoral ou exercício do mandato.

Em linguagem simples, é a tentativa de expulsar mulheres da política pelo medo. Pode aparecer como ameaça direta, ataque racista, violência sexual verbalizada, exposição de dados pessoais, difamação, interrupção sistemática de fala, desqualificação profissional ou pressão para que a mulher desista de ocupar um espaço de decisão.

Ana Elisa denuncia ameaças durante a campanha

O caso da deputada federal eleita Ana Elisa Santos Silva, de Minas Gerais, tornou visível a violência que muitas mulheres enfrentam quando chegam a posições de poder. Eleita aos 21 anos, ela denunciou à Polícia Civil ameaças de morte e violência sexual recebidas durante a campanha.

As mensagens denunciadas incluem ataques machistas, racistas e ameaças de estupro. A parlamentar eleita também relatou exposição de dados pessoais, como endereço residencial, número de telefone e documentos, o que levou à contratação de segurança armada para protegê-la.

Ana Elisa recebeu 524.219 votos e foi a segunda candidata mais votada para deputada federal em Minas Gerais em 2026. Ela também se tornou a mulher mais votada da história do estado para a Câmara dos Deputados e a deputada federal mais jovem já eleita no Brasil.

Quando a ameaça tenta virar recado coletivo

Ataques contra uma mulher em evidência raramente atingem apenas aquela mulher. Eles funcionam como aviso para outras candidatas, ativistas, parlamentares, lideranças comunitárias e mulheres que pensam em disputar poder.

A mensagem implícita é brutal: entre na política e pague com medo. Esse mecanismo tenta transformar a participação pública feminina em risco permanente, especialmente quando a mulher é negra, jovem, de origem popular ou vocal em temas de direitos.

É por isso que a resposta institucional precisa ser rápida e visível. Se a ameaça fica impune ou é tratada como “exagero de campanha”, ela ganha força como instrumento de intimidação.

A violência vai além da campanha

A proteção contra violência política não se restringe às candidatas. Mulheres eleitas, ocupantes de cargos públicos, ativistas, defensoras de direitos humanos, lideranças comunitárias e integrantes de movimentos sociais também podem ser vítimas desse tipo de ataque.

O problema também não desaparece quando a eleição termina. A violência pode continuar no exercício do mandato, em sessões legislativas, nas redes sociais, em atos públicos, dentro de partidos e em ambientes institucionais onde a fala feminina é interrompida, ridicularizada ou deslegitimada.

Essa continuidade revela que a disputa não é apenas eleitoral, mas estrutural. A tentativa de afastar mulheres da política conversa com misoginia, racismo, violência doméstica, feminicídio e outras formas de controle sobre corpos, vozes e decisões femininas.

O recorte racial é central

O fato de mulheres pretas e pardas concentrarem mais da metade das denúncias não é detalhe estatístico. Ele mostra que a violência política também responde à presença de mulheres negras em espaços historicamente ocupados por homens brancos.

Quando uma mulher negra disputa poder, ela enfrenta camadas sobrepostas de ataque. A agressão pode mirar sua atuação política, sua aparência, sua origem, sua cor, seu corpo, sua sexualidade, sua família e sua legitimidade para ocupar aquele lugar.

A democracia perde quando essas mulheres são empurradas para fora da vida pública. Menos mulheres negras na política significa menos experiências, menos prioridades sociais e menos representação em decisões que afetam milhões de pessoas.

O que os dados mostram

As denúncias registradas incluem discriminação, desigualdade de tratamento, ameaças, difamação e divulgação de conteúdo inverídico. Também aparecem desqualificação de habilidades, interrupções frequentes de fala, ataques à aparência, questionamentos sobre vida privada e intimidações de diferentes tipos.

Entre os crimes relatados estão ameaças de morte e estupro, ataques racistas e transfóbicos, vandalização de materiais de campanha, coação, misoginia e constrangimento. Esses registros mostram que a violência política pode assumir forma digital, verbal, física, institucional e simbólica.

O canal oficial também alerta para a subnotificação. Muitas mulheres ainda não conhecem os meios de denúncia, têm medo de retaliação ou não reconhecem como violência situações que foram normalizadas dentro da política.

Canais de denúncia e proteção

Mulheres em situação de violência política podem buscar orientação e registrar denúncia por diferentes canais institucionais. O Ligue 180 oferece atendimento gratuito, humanizado e sigiloso, 24 horas por dia, todos os dias da semana, por telefone, WhatsApp, e-mail e videochamada em Libras.

O TSE mantém canal de denúncias para violência política de gênero com encaminhamento ao Ministério Público Eleitoral. O objetivo é permitir que notícias de violência política contra mulheres cheguem à instituição responsável por apurar e iniciar processos criminais nesse tipo de caso.

Também é possível procurar a Ouvidoria das Mulheres do Conselho Nacional do Ministério Público, a Procuradoria-Geral Eleitoral, a Ouvidoria Nacional da Mulher, a Polícia Federal e a Defensoria Pública da União. Em caso de emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190.

Como identificar uma violência política

Nem toda disputa dura é violência política, mas toda ameaça precisa ser levada a sério. Crítica, cobrança pública e debate de ideias fazem parte da democracia; ataque com intenção de humilhar, calar, constranger ou expulsar mulheres da política ultrapassa esse limite.

A violência aparece quando o alvo deixa de ser a proposta e passa a ser a existência da mulher naquele espaço. Isso ocorre quando a agressão usa gênero, raça, corpo, sexualidade, maternidade, aparência, idade ou vida privada para negar legitimidade política.

O ambiente digital ampliou esse risco. Uma ameaça enviada por e-mail, rede social ou aplicativo pode se espalhar rapidamente, expor dados pessoais, estimular novos ataques e obrigar a vítima a mudar rotina, segurança e atuação pública.

O que fazer ao presenciar ou sofrer ataque

A primeira medida é guardar provas. Prints, links, áudios, vídeos, nomes de perfis, datas, horários, e-mails e qualquer informação sobre o autor ajudam no encaminhamento da denúncia.

A segunda é buscar um canal institucional. O registro pode ser feito pelo Ligue 180, pelo canal de denúncias da Justiça Eleitoral, pelo Ministério Público Eleitoral, pela autoridade policial ou por órgãos de proteção e orientação jurídica.

A terceira é não minimizar o risco. Ameaça de morte, ameaça de estupro, exposição de endereço e perseguição não são “briga de internet”; são sinais de perigo e devem ser tratados com proteção e responsabilização.

Participação política precisa ser livre de medo

A democracia não se mede apenas por quem pode votar, mas também por quem pode disputar, falar e exercer mandato sem ser ameaçada. Se mulheres precisam de escolta para fazer campanha ou assumir cargo, a igualdade formal do processo eleitoral já está comprometida.

A violência política contra mulheres enfraquece a representação. Ela reduz candidaturas, silencia vozes, encarece campanhas, afasta lideranças comunitárias e limita a renovação de espaços de poder.

A resposta precisa combinar lei, acolhimento e responsabilização. Não basta dizer que a violência é inaceitável; é preciso garantir atendimento rápido, investigação, proteção da vítima, punição de agressores e prevenção dentro de partidos, instituições e plataformas digitais.

O que está em jogo nas Eleições 2026

A eleição de 2026 mostra que a presença feminina na política continua sendo disputada também pela violência. O ataque não aparece apenas no palanque, mas no celular, no e-mail, nos comentários, nos corredores institucionais e na tentativa de transformar a vida pública em território hostil para mulheres.

O recado que precisa prevalecer é o oposto. Mulher tem direito de votar, ser votada, fiscalizar, governar, legislar, denunciar, liderar movimentos e ocupar qualquer espaço de decisão sem pedir licença ao medo.

Quando uma mulher é ameaçada por participar da política, a democracia inteira deve reagir. Porque defender essa mulher não é defender um partido ou uma candidatura; é defender o direito de todas as pessoas a uma vida pública sem violência e sem discriminação.

Relacionadas, fontes e documentos:

Newsletter

- Assine nossa newsletter

- Receba nossas principais notícias

Publicidade
Publicidade

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.