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Sarampo nos EUA acende alerta para o negacionismo

Publicado em

Reportagem:
Jeferson Nunes

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Sarampo bate maior nível em 35 anos nos EUA e aumenta alerta para o Brasil

Os Estados Unidos enfrentam em 2026 o maior número anual de casos de sarampo em mais de 35 anos, em um cenário de queda da cobertura vacinal e mudanças na política federal de imunização. Até 15 de outubro, o país havia confirmado 4.410 casos da doença e três mortes.

A situação também pressiona os demais países das Américas. No Brasil, 61 casos importados ou relacionados à importação foram confirmados neste ano, mas o país continua reconhecido como livre da circulação endêmica do vírus. A manutenção desse status depende de impedir que cada introdução do sarampo dê origem a cadeias sustentadas de transmissão.

Maioria dos casos nos EUA ocorre entre não vacinados

A baixa proteção vacinal aparece como um dos principais elementos do surto norte-americano. Entre os casos com informações consolidadas pelas autoridades de saúde dos Estados Unidos, 95% envolvem pessoas não vacinadas ou sem situação vacinal conhecida.

A cobertura da tríplice viral entre crianças que ingressam na escola também caiu nos últimos anos. No ano letivo de 2019-2020, 95,2% dos alunos do jardim de infância estavam vacinados contra sarampo, caxumba e rubéola. Em 2025-2026, essa proporção chegou a 92,4%.

Para uma doença tão transmissível quanto o sarampo, alguns pontos percentuais fazem diferença. Quando a vacinação cai, acumulam-se grupos de pessoas suscetíveis nos quais o vírus consegue circular com maior facilidade.
Duas doses da vacina tríplice viral oferecem proteção estimada em 97% contra o sarampo.

Surto já crescia antes das novas decisões de Trump

A explosão de casos nos Estados Unidos começou antes das mudanças federais anunciadas em agosto pelo governo Donald Trump. Isso impede atribuir o surto inteiro a uma única decisão política tomada recentemente.

As alterações, porém, passaram a integrar um cenário já marcado pela redução da cobertura e pela hesitação em relação às vacinas.
Em 10 de agosto, Trump assinou uma ordem executiva que reorganizou as recomendações federais para vacinação infantil.

A nova política passou a reunir 11 doenças no grupo de imunizações recomendadas rotineiramente para todas as crianças. Outras vacinas foram deslocadas para categorias destinadas a grupos de maior risco ou a decisões compartilhadas entre famílias e profissionais de saúde.

A Casa Branca afirma que as mudanças buscam ampliar a escolha dos pais e aproximar as recomendações americanas das adotadas em outros países desenvolvidos.

Governo americano quer separar a tríplice viral

Uma das mudanças mais controversas envolve justamente a vacina usada contra o sarampo. A ordem de Trump determina que o governo trabalhe para oferecer vacinas individuais contra sarampo, caxumba e rubéola no lugar da aplicação combinada da tríplice viral.

A própria ordem condiciona essa mudança à disponibilidade desses produtos no mercado norte-americano e prevê a continuidade do acesso às vacinas combinadas.
Hoje, a tríplice viral reúne as três proteções em uma única formulação consolidada há décadas.

Não existe evidência de que separar a vacina ofereça vantagem de segurança em relação à aplicação combinada. A Organização Mundial da Saúde também afirma que não há base científica para preferir rotineiramente imunizantes separados contra as três doenças.

Para Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, a proposta ainda cria um problema prático: as formulações individuais deixaram de integrar a rotina produtiva em diversos mercados.

Vacina e autismo não têm relação causal

Outro ponto que preocupa especialistas é a retomada, no debate político norte-americano, da associação entre vacinação e autismo.

A relação já foi examinada durante décadas por estudos envolvendo grandes populações em diferentes países.
Em 2025, uma nova revisão do comitê global de segurança de vacinas da Organização Mundial da Saúde analisou estudos publicados entre 2010 e 2025 e reafirmou a conclusão anterior: não existe evidência de relação causal entre vacinas e transtorno do espectro autista.

A conclusão vale também para a tríplice viral.
O estudo publicado em 1998 que deu origem à alegação de associação entre a vacina e o autismo foi posteriormente retirado pela revista científica que o publicou depois da identificação de graves problemas metodológicos e irregularidades.

Transformar essa hipótese desacreditada em argumento negacionista de política pública pode afetar algo essencial para qualquer programa de vacinação: a confiança.

Brasil mantém certificado de eliminação do sarampo

O cenário brasileiro é diferente porque o país continua sem transmissão endêmica sustentada do sarampo. O certificado de eliminação foi recuperado em novembro de 2024, depois de o Brasil interromper novamente a circulação contínua do vírus.

O país havia conquistado a certificação pela primeira vez em 2016, mas perdeu o reconhecimento em 2019 após a reintrodução da doença e a formação de longas cadeias de transmissão.
Naquele período, o Brasil chegou a registrar mais de 20 mil casos.

A experiência mostrou que eliminar o sarampo não significa impedir para sempre a chegada do vírus. Significa conseguir detectar rapidamente casos importados e bloquear sua transmissão antes que voltem a estabelecer circulação contínua.
É exatamente esse trabalho que vem sendo feito em 2026.

Brasil registra 61 casos em 2026

Até meados de outubro, o Ministério da Saúde contabilizava 61 casos importados ou relacionados à importação no país.

São Paulo concentra a maior parte dos registros. Também houve casos no Amazonas e no Rio de Janeiro.
A entrada do vírus está relacionada a um cenário continental de forte circulação do sarampo, especialmente em países das Américas.

Mais de 55 mil casos haviam sido confirmados na região até o início de outubro, e a Organização Pan-Americana da Saúde classifica como muito alto o risco associado ao atual cenário regional.
Isso aumenta a probabilidade de uma pessoa infectada chegar ao Brasil durante o período em que ainda consegue transmitir o vírus.

Cada caso exige uma operação para impedir novos contágios

Um único caso de sarampo pode mobilizar uma grande estrutura de vigilância.

Quando existe suspeita, as equipes precisam investigar o paciente, confirmar ou descartar a infecção, descobrir onde ocorreu o contato com o vírus e identificar as pessoas que estiveram próximas durante o período de transmissão.
Esses contatos são acompanhados e, quando indicado, recebem vacinação de bloqueio.
Também podem ocorrer buscas ativas por pessoas não vacinadas e aplicação de doses em regiões onde existe risco aumentado.

O objetivo é construir uma barreira rapidamente em torno de cada caso antes que o vírus encontre novas pessoas suscetíveis.

Essa estratégia tem custo operacional alto, mas é justamente o que diferencia casos importados isolados da retomada da transmissão sustentada.

São Paulo já aplicou milhões de doses extras

A resposta brasileira em 2026 envolveu grandes mobilizações de vacinação nos locais onde surgiram cadeias relacionadas à importação.
Mais de 3,8 milhões de doses foram aplicadas em São Paulo nas ações de intensificação contra o sarampo.

No Amazonas, onde a preocupação aumentou especialmente na região de fronteira com Peru e Colômbia, foram aplicadas cerca de 192 mil doses.
A estratégia inclui vacinação em locais de circulação pública, busca ativa e a chamada dose zero para bebês de 6 a 11 meses em situações de maior risco.

Essa dose antecipada não substitui o esquema regular da criança. Mesmo quando recebe a dose zero, o bebê continua precisando das doses previstas aos 12 e aos 15 meses.

Cobertura brasileira se recuperou, mas ainda tem pontos frágeis

O Brasil conseguiu reverter parte da queda da vacinação infantil observada nos anos anteriores.
Em 2025, a cobertura nacional da primeira dose da tríplice viral chegou a aproximadamente 93%, depois da recuperação iniciada a partir de 2023.

O país já havia alcançado patamares próximos ou superiores a 95% em levantamentos anteriores, mas a segunda dose continua apresentando desempenho inferior.

Essa diferença importa porque a meta necessária para impedir a circulação do sarampo é manter cobertura elevada e homogênea, e não apenas atingir uma boa média nacional.
Um estado pode apresentar indicador satisfatório enquanto bairros ou municípios acumulam grande quantidade de pessoas sem o esquema completo.

É nessas áreas que um vírus importado encontra espaço para avançar.

Crianças pequenas estão entre as mais vulneráveis

O sarampo está longe de ser apenas uma doença que provoca febre e manchas na pele.
A infecção pode causar pneumonia, encefalite e outras complicações graves. Crianças pequenas, pessoas imunossuprimidas e grupos socialmente vulneráveis estão entre os mais expostos às formas severas.

Há ainda pessoas que não podem receber a vacina por contraindicações médicas.
Para elas, a proteção depende também de quem está ao redor.

Quando uma comunidade mantém cobertura próxima ou superior a 95%, o vírus encontra muito menos pessoas suscetíveis e tem dificuldade para sustentar sua transmissão.
É o princípio da proteção coletiva.

Vacina contra o sarampo está disponível gratuitamente no SUS

No Brasil, a tríplice viral continua fazendo parte do Calendário Nacional de Vacinação e é oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde.

Para as crianças, a primeira dose é indicada aos 12 meses. A segunda deve ser feita aos 15 meses.
Pessoas de 5 a 29 anos sem comprovação de vacinação devem completar duas doses, respeitando o intervalo indicado.
Entre 30 e 59 anos, quem não possui comprovação anterior deve receber uma dose.
Profissionais de saúde precisam comprovar duas doses independentemente da idade.

Quem não sabe se está com o esquema completo pode levar a caderneta a uma Unidade Básica de Saúde para avaliação.

Mudanças americanas também atravessam fronteiras digitais

Uma política de vacinação adotada nos Estados Unidos não altera o calendário brasileiro, mas os seus argumentos negacionistas podem circular rapidamente entre países.

É nesse ponto que a preocupação de especialistas brasileiros vai além da entrada física do vírus.
Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações, alerta para o impacto regional de discursos que enfraquecem a confiança nas vacinas.

Juarez Cunha chama atenção para um fenômeno conhecido na saúde pública: quando uma vacina funciona tão bem que determinada doença praticamente desaparece, parte da sociedade passa a esquecer por que deixou de conviver com ela.

A falsa sensação de segurança pode produzir um paradoxo: o sucesso da vacinação reduz o medo da doença e, com o tempo, pode reduzir a própria disposição de continuar vacinando.

O Brasil não precisa esperar o sarampo voltar para lembrar por que vacina

A principal diferença entre o cenário brasileiro e o norte-americano hoje não está na capacidade do vírus de circular — o sarampo é igualmente contagioso nos dois países. Está na quantidade de pessoas suscetíveis que ele encontra e na velocidade da resposta quando aparece.

Os Estados Unidos mostram o que acontece quando bolsões de baixa vacinação crescem o suficiente para sustentar grandes surtos.
O Brasil já viveu experiência semelhante e perdeu sua certificação em 2019.
Reconquistá-la levou anos de vigilância e aumento das coberturas.

Por isso, os 61 casos registrados em 2026 não devem ser lidos como sinal de que a estratégia falhou, mas como um teste permanente da capacidade de impedir que importações se transformem novamente em transmissão endêmica.
Enquanto o sarampo circular intensamente em outros países, nenhuma fronteira elimina o risco de entrada do vírus.

A barreira mais eficaz continua sendo a mesma: vacinação elevada, identificação rápida dos casos e resposta imediata onde houver transmissão.

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