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Agropecuária é Ponto Cego na Crise do Cerrado

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Reportagem:
Repórter: Paulo Andrade

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O agronegócio do Brasil é inegavelmente apontado como o “motor” do crescimento econômico nacional. Contudo, este mesmo setor acumula críticas severas. As principais dizem respeito ao potencial de concentração de terras e renda, além disso, aos danos ambientais em larga escala, especialmente no Cerrado.

No centro da crítica está o desmatamento da savana brasileira, conhecida como “berço das águas”. O bioma sedia as nascentes de oito das 12 bacias hidrográficas do país. Nesse sentido, pesquisadores e ambientalistas alertam que o avanço do desmatamento coloca em risco a segurança hídrica nacional, agravando a redução das vazões dos rios.

O Tribunal Permanente dos Povos (TPP) acusou publicamente empresas e estados de “ecocídio” do Cerrado – crime de destruição do bioma – e “genocídio” de povos tradicionais. De fato, a savana mais biodiversa do planeta já teve 47,9% de sua vegetação nativa suprimida. As atividades agropecuárias ocupam 24% do bioma e expandiram sua área em 74% entre 1985 e 2024.

A Disputa pela Definição

Antes de analisar o impacto econômico, há uma disputa sobre o que, de fato, é agronegócio. O professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), Danilo Araújo Fernandes, defende a diferenciação. Ou seja, é preciso separar o agronegócio, que ele classifica como “agricultura patronal” e mecanizada, da chamada agricultura familiar.

Em outras palavras, para o professor Gilberto de Souza Marques, o termo deve ser restrito aos grandes conglomerados. Eles são controlados por complexos financeiros de larga escala que financiam, junto com o Estado, toda essa atividade.

O Poder do PIB e o Contraste Regional

Paralelamente ao debate ambiental, o agronegócio é tido como fundamental para a estabilidade da moeda, geração de empregos e impulsionamento do PIB. O setor primário foi responsável por 6,2% do PIB em 2024. Entretanto, o peso do agro pode chegar a até 25% do PIB quando considerado o efeito cascata na indústria e transporte.

Para compreender a expansão sobre o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), a Agência Brasil visitou Balsas (MA). O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais do município (Sindi Balsas), Airton Zamingnan, defendeu que o agronegócio trouxe desenvolvimento para regiões antes pobres. “O agronegócio é a oportunidade de levar renda, trabalho e economia para essas regiões”, afirmou.

Todavia, críticos locais, como o agricultor familiar José Carlos dos Santos, reconhecem a importância econômica. “Ele tem o lado destruidor, mas, por outro lado, ele traz o alimento para mesa. Ao mesmo tempo, a gente vive lutando para pôr um limite para o grande produtor não acabar com o nosso bioma”, disse.

Apoio Estatal e Domínio Internacional

Mas a força desse setor empresarial se deve ao apoio do Estado nas últimas décadas. Afinal, o Brasil é líder mundial na produção de soja, com 40% da produção global. Fatores como a tecnologia desenvolvida pela estatal Embrapa e os incentivos fiscais foram cruciais. A Lei Kandir, por exemplo, isenta do ICMS produtos primários exportados. Além disso, o setor conta com subsídios recordes pelo Plano Safra, que em 2025 atingiu R$ 516,2 bilhões.

Olhando para o mercado externo, quatro grandes conglomerados multinacionais controlam até 80% do mercado mundial de grãos. Consequentemente, esses oligopólios exercem amplo controle sobre os preços e financiam boa parte dos produtores brasileiros. Por conta dessa dinâmica, o empresário só tem ganhos na “economia de escala”, o que impõe a mecanização e resulta em um baixo nível de emprego direto.

Poder Político e Busca por Solução

A influência desse poder econômico se reflete em Brasília. O projeto “De Olho nos Ruralistas” aponta que os grandes proprietários controlam uma bancada com cerca de 300 deputados e mais de 50 senadores. Nesse sentido, o coordenador Bruno Bassi questiona a disparidade da representação política.

Em resposta, a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) estará na COP30 em Belém. A entidade quer mostrar que o setor é parte da solução do problema ambiental, defendendo a produção sustentável.

Diante do cenário complexo, o Ministério do Meio Ambiente (MMA), por meio da diretora Iara Bueno Giacomini, busca trabalhar em parceria com o setor. “Não é apontar um dedo e falar que ‘você é errado’. Mas no sentido de falar, ‘olha, o seu negócio está em risco’”, afirmou. O governo planeja o projeto Ecoinvest para recuperação de pastagens e prepara um decreto para regulamentar Áreas Prioritárias para Conservação de Águas do Cerrado (APCACs).

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