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Cerrado úmido guarda carbono oculto

Publicado em:

Repórter: Paulo Andrade

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Estudo revela que veredas e campos úmidos podem armazenar até seis vezes mais carbono por hectare do que a média da Amazônia

As áreas úmidas do Cerrado podem guardar um estoque de carbono muito maior do que se imaginava. Estudo publicado nesta quinta-feira, 12 de março, na revista científica New Phytologist mostra que veredas e campos úmidos do bioma armazenam cerca de 1.200 toneladas métricas de carbono por hectare, valor até seis vezes superior à densidade média de carbono da biomassa da Amazônia.

A pesquisa é apresentada como a primeira avaliação aprofundada dos estoques de carbono nos solos dessas áreas alimentadas por água subterrânea. O trabalho foi liderado por Larissa Verona e teve participação de cientistas ligados à Unicamp, ao Cary Institute of Ecosystem Studies, ao Instituto Max Planck, à UFMG e à UFRJ, conforme a lista de autores divulgada junto ao estudo.

O dado central ajuda a recolocar o Cerrado no debate climático. Durante décadas, quando se falava em grandes reservatórios naturais de carbono, o foco quase sempre recaía sobre florestas tropicais densas. O novo estudo sugere que parte relevante desse carbono estava escondida em um ambiente menos óbvio, sob o solo encharcado de áreas úmidas da savana brasileira.

Carbono antigo e subestimado

Para medir esse estoque, os pesquisadores coletaram amostras de solo em profundidades de até quatro metros. Essa estratégia permitiu enxergar camadas que estudos anteriores não alcançavam. Segundo os autores, pesquisas mais rasas, limitadas a faixas entre 20 centímetros e 1 metro, subestimavam o carbono total dessas áreas em até 95%.

Os testes também revelaram que parte desse material orgânico é extremamente antiga. A datação por radiocarbono apontou idade média de 11.185 anos para o carbono encontrado, com registros que ultrapassam 20 mil anos. Isso significa que o estoque foi acumulado ao longo de milênios e não pode ser recomposto em prazo curto caso seja destruído.

Esse ponto é decisivo. Uma floresta derrubada pode, ao menos em tese, ser restaurada com o tempo. Já um solo orgânico antigo, formado ao longo de milhares de anos sob condições hídricas muito específicas, não volta por decreto, campanha publicitária ou boa intenção tardia. Quando esse carbono escapa, a perda é lenta para ser construída e rápida para ser liberada. A interpretação decorre diretamente da idade e da dinâmica de acúmulo descritas pelos autores.

Por que essas áreas armazenam tanto carbono

O mecanismo é relativamente claro. As condições úmidas dessas áreas reduzem a presença de oxigênio no solo e desaceleram a decomposição de plantas e resíduos orgânicos. Como resultado, a matéria orgânica se acumula durante longos períodos e transforma o subsolo em um reservatório climático de grande escala.

Os autores ressaltam que o Cerrado ocupa cerca de 26% do território brasileiro, é a savana mais biodiversa do mundo e abriga nascentes que alimentam aproximadamente dois terços das grandes bacias hidrográficas do país, incluindo sistemas ligados ao rio Amazonas. Ou seja, o peso ambiental do bioma já era enorme. O estudo agora adiciona outro componente: sua relevância como estoque de carbono de longo prazo.

Ameaças transformam reserva em fonte de emissões

O estudo também aponta as principais ameaças a esse carbono subterrâneo: expansão agropecuária, drenagem de áreas úmidas, rebaixamento do lençol freático, captação de água para irrigação e o avanço de períodos secos mais longos sob aquecimento climático. Quando o solo perde umidade, a decomposição acelera e o carbono acumulado passa a ser liberado como dióxido de carbono e metano, dois gases que intensificam o aquecimento global.

Medições da equipe indicam ainda que cerca de 70% das emissões anuais desses ambientes ocorrem durante a estação seca. Com temperaturas mais altas e estiagens mais prolongadas, a tendência é de maior liberação do carbono hoje armazenado. Em linguagem menos acadêmica: o que hoje funciona como cofre climático pode virar passivo climático, e rápido.

Os autores defendem ampliação da proteção das áreas úmidas e maior reconhecimento do papel climático dessas formações. Embora a legislação brasileira já preveja proteção para ambientes alimentados por água subterrânea, estimativas citadas pelos pesquisadores indicam que, em algumas regiões, até 50% dessas áreas já sofreram algum grau de degradação.

O Cerrado que o país insiste em subestimar

A conclusão do estudo é incômoda para um modelo de ocupação que historicamente tratou o Cerrado como espaço de conversão mais fácil. Quando a preservação nacional concentra seus holofotes em um único bioma, o risco é empurrar a pressão econômica para outro. E o Cerrado, há tempos, tem pago essa conta. Essa leitura é compatível com o diagnóstico apresentado pelos pesquisadores sobre a subestimação climática e a pressão do agronegócio sobre áreas úmidas do bioma.

Se os dados forem incorporados de forma robusta aos cálculos climáticos, o país terá mais um argumento técnico para rever a lógica que trata o Cerrado como fronteira sacrificável. Não é detalhe ecológico. É infraestrutura climática enterrada no solo, acumulada por milhares de anos e vulnerável a decisões de curto prazo.

Fontes e documentos:

Vast, overlooked peat, and organic soils in Brazil’s Cerrado: carbon storage, dynamics, and stability (New Phytologist)
– O carbono esquecido debaixo do Cerrado (Unicamp)
– Wetlands in Brazil’s Cerrado are carbon-storage powerhouses (Cary Institute of Ecosystem Studies)

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