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Hanseníase ainda causa sequelas por falhas no diagnóstico

Publicado em

Reportagem:
Marta Borges

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Diagnóstico tardio da hanseníase mantém risco de sequelas no DF

Em pleno século XXI, uma doença com tratamento eficaz segue produzindo incapacidades evitáveis. Esse foi o alerta central da audiência pública realizada nesta segunda-feira (2) na Câmara Legislativa do Distrito Federal, em alusão ao Janeiro Roxo, mês de conscientização sobre a hanseníase. O debate reuniu especialistas, pacientes e parlamentares para discutir gargalos persistentes no diagnóstico, no tratamento e na reabilitação de pessoas atingidas pela doença.

A audiência foi proposta pelo deputado distrital Fábio Felix (Psol) e teve como foco principal o impacto concreto da hanseníase na vida dos pacientes, sobretudo quando o diagnóstico ocorre de forma tardia. O consenso entre os participantes foi direto: a combinação entre desinformação, despreparo profissional e falta de estrutura ainda sustenta um problema que já poderia estar sob controle.

Doença curável, sequelas evitáveis

A hanseníase é causada por uma bactéria que atinge principalmente a pele e os nervos periféricos. Sem tratamento oportuno, o comprometimento neurológico pode evoluir para perda de força, sensibilidade e mobilidade, resultando em deformidades conhecidas como mão em garra e pé caído. A transmissão ocorre, em geral, pela via respiratória, por meio de gotículas.

A dermatologista Roseane de Deus ressaltou que o Brasil permanece em posição crítica no cenário internacional. Segundo ela, o país ocupa o segundo lugar no mundo em número de casos, atrás apenas da Índia. “É inaceitável que uma doença com cura continue deixando milhares de brasileiros com incapacidades físicas permanentes”, afirmou.

A médica explicou que a própria característica da doença contribui para o atraso no diagnóstico. As manchas típicas da hanseníase não costumam doer nem coçar, o que reduz a procura espontânea por atendimento. Além disso, as lesões podem ser confundidas com alergias, urticária ou infecções dermatológicas comuns, o que amplia o risco de erro clínico.

Uma década até o diagnóstico

O impacto dessa falha sistêmica apareceu de forma concreta no relato do paciente Filemon Ferreira. Ele contou que começou a perder sensibilidade e força no pé aos 14 anos, mas só recebeu o diagnóstico correto dez anos depois. Mesmo com sintomas avançados, a hanseníase não foi identificada de imediato.

Após iniciar o tratamento medicamentoso adequado e passar por cirurgias de reabilitação nos pés e nas mãos, Ferreira conseguiu recuperar grande parte da mobilidade. “Hoje eu tenho uma vida normal”, relatou, destacando que o sofrimento poderia ter sido reduzido com um diagnóstico mais precoce.

Capacitação e estrutura como prioridade

Para o deputado Fábio Felix, o problema vai além de casos isolados e revela uma falha estrutural no sistema de saúde. Segundo ele, a hanseníase deixou de integrar o repertório cotidiano de diagnósticos dos profissionais, o que contribui para a invisibilidade da doença. “Precisamos devolver a hanseníase para o centro da formação e da prática clínica”, afirmou.

O parlamentar também apontou a escassez de servidores como fator crítico. De acordo com ele, o déficit de profissionais e a contratação recorrente de temporários fragilizam a continuidade do atendimento e comprometem políticas de longo prazo.

Atendimento multiprofissional ainda insuficiente

O ortopedista e cirurgião de hanseníase Gabriel Rodrigues reforçou a necessidade de ampliar o quadro de especialistas na rede pública do Distrito Federal. Durante a audiência, ele defendeu a contratação de mais cirurgiões e destacou que o tratamento da hanseníase exige abordagem multiprofissional, envolvendo enfermeiros, fisioterapeutas, assistentes sociais, dermatologistas e cirurgiões.

Segundo Rodrigues, enquanto a erradicação não é alcançada, o foco deve ser garantir cuidado integral. “O sonho é erradicar a doença, mas, até lá, precisamos tratar cada paciente de forma completa, com dignidade e continuidade”, afirmou.

A audiência pública está disponível na íntegra no canal da TV Câmara Distrital, no YouTube.

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