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quinta-feira, 5 fevereiro 2026, 18:08:25
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Obesidade ganha novo olhar da OMS e impacta saúde no DF

Publicado em:

Repórter: Jeferson Nunes

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Durante anos, a assessora administrativa Ana Paula Silva conviveu com a obesidade e uma lista pesada de complicações: dores articulares, gordura no fígado, depressão e apneia do sono. Aos 34 anos, pesando 109 quilos, decidiu mudar o rumo. Optou pela cirurgia bariátrica e hoje avalia a escolha sem rodeios: se arrepende apenas de não ter feito antes. O ganho foi além do peso perdido. Vieram mais disposição, melhora da saúde mental e qualidade de vida.

A mudança também alcançou o marido, Rômulo Gomes, que não passou por cirurgia, mas aderiu à reeducação alimentar e à prática diária de exercícios físicos. O resultado impressiona: 43 quilos a menos, conquistados com disciplina e acompanhamento. O caso do casal ilustra uma transformação pessoal que reflete um debate cada vez mais amplo na saúde pública.

Esse cenário ganhou respaldo internacional com a atualização inédita das diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o tratamento da obesidade. O documento reconhece formalmente a condição como doença crônica, progressiva e com alta chance de reincidência. A mudança ocorre em um contexto alarmante: mais de 1 bilhão de pessoas vivem com obesidade no mundo, número que pode dobrar até 2030 se nada for feito.

No Distrito Federal, o tratamento da obesidade, especialmente nos casos mais complexos, segue uma linha de cuidado estruturada na rede pública. Para pacientes com indicação cirúrgica, o Hospital Regional da Asa Norte (Hran) é o único do SUS no DF habilitado para realizar a cirurgia bariátrica, atuando como centro pioneiro com equipe multiprofissional.

Casos graves de diabetes e hipertensão associados à obesidade são encaminhados ao Centro Especializado em Diabetes, Obesidade e Hipertensão Arterial (CEDOH), referência ambulatorial que reúne especialidades como endocrinologia, nutrição e psicologia. Já os transtornos alimentares, como anorexia, bulimia e compulsão alimentar, são tratados no Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), que concentra o atendimento multidisciplinar em um único ambulatório.

Em todos os casos, a porta de entrada obrigatória para o cidadão é a Unidade Básica de Saúde (UBS), responsável pela avaliação inicial e pelo encaminhamento via Sistema de Regulação do DF.

Reconhecer a obesidade como doença crônica muda a lógica do cuidado. Para a endocrinologista do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (IgesDF), Martha Sanjad, a nova diretriz consolida uma visão mais realista. Segundo ela, o tratamento eficaz exige acompanhamento contínuo, integração entre medicação, alimentação equilibrada, atividade física e suporte psicológico. Soluções pontuais, alerta, tendem ao fracasso.

A OMS também incluiu nas recomendações globais os medicamentos das classes GLP-1 e GIP, conhecidos como canetas emagrecedoras, desde que usados com critérios médicos rigorosos. A entidade lembra que a obesidade está associada a mais de 200 doenças, o que amplia seu impacto sobre os sistemas de saúde.

Para o presidente do IgesDF, Cleber Monteiro, a mudança fortalece o planejamento da rede pública. Tratar a obesidade de forma estruturada significa prevenir infartos, AVCs, doenças renais e neurodegenerativas, reduzindo internações e custos futuros. É uma política que olha para o amanhã com base em evidências.

Os efeitos da obesidade, aliás, não se limitam ao coração ou ao metabolismo. Estudos recentes mostram impactos diretos sobre o cérebro. Pesquisa da Universidade de Washington aponta que o excesso de gordura corporal pode acelerar em até 95% marcadores sanguíneos associados ao Alzheimer. Para o neurologista do Hospital Regional de Santa Maria (HRSM), João Tatsch, tratar a obesidade ajuda a reduzir inflamações sistêmicas, melhora a resistência à insulina e protege a saúde cerebral.

O especialista reforça que nunca é tarde para começar. Mudanças consistentes no estilo de vida, mesmo após os 40 ou 50 anos, produzem benefícios reais ao longo do tempo. A ciência confirma o que histórias como a de Ana Paula e Rômulo já mostram na prática: enfrentar a obesidade exige método, continuidade e políticas públicas que enxerguem o problema como ele é — complexo, crônico e urgente.

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